quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Os animais que nós somos OU Fora o árbitro, caralho!

Devia ter uns 7 anos quando me apercebi pela primeira vez de que os homens de preto que entravam no relvado não eram homens, mas animais. Seres repugnantes que serviam, quais touros em arenas, para o grande momento da tarde no Estádio: o assobio uníssono de 120.000 gargantas. Neste particular, destaco a excelente capacidade de alguns colegas de bancada para o som estridente, conseguido através de uma estrutura perfeita de dedos na goela, procurando, tacteando, entre o céu da boca e a língua o ângulo perfeito para o grito ensurdecedor que inundava o animal de apito de vergonha e os meus tímpanos de zumbidos até ao intervalo. Com o Sol sobre a minha cabeça, espantava-me aquela demonstração de ferocidade e dramatismo, em oposição à festa e pornografia de cachecóis, bandeiras, luzes e rolos de papel higiénico sempre que onze deuses entravam de manto vermelho sagrado vestido. Era como se assistisse, primeiro, à entrada do Touro e, depois, ao despontar pela arena de 11 toureiros, sedentos de tornear, humilhar e, finalmente, deixar cair no chão, de rastos, o animal que vinha de preto para o Estádio. Com o apito ao pescoço, o touro fazia a sua presença tilintar por todo o relvado, como se fosse uma vaca pelos campos abertos da Andaluzia. E eu, olhando o meu pai gritar obscenidades que me proibia em casa, imitava-lhe as palavras, naquilo que me parecia ser a única forma de tratar um animal como aquele (afinal, se o touro vinha à Luz, era com toda a certeza para nos fazer mal e nos dar uma cornada nas partes baixas do benfiquismo heróico!).
Com o tempo, fui desenvolvendo no aficionado que sou a herética ideia de que o touro, apesar de mauzão, era bem capaz de não ser o máximo culpado pela má preparação e técnica dos toureiros encarnados e, assim, afastando-me inequivocamente da grande maralha que me rodeava, cheguei a chatear-me com um outro aficionado quando, tendo o touro assinalado uma perfeita e justa marca na areia com as patas (contra a vontade dos nossos toureiros!), o benfiquista desatou aos gritinhos histéricos, querendo a morte do animal, sem julgamento nem direito a advogado, acusando a mãe do miura de todas as patifarias, putarias e pornografias jamais vistas nas lezírias do sul da Ibéria. Não era justo!, gritei, deixem o animal em paz!, pedi, e, vendo que o animal que podia ficar morto na arena era eu, decidi-me por defender o touro em silêncio, não fosse o meu benfiquismo jorrar-se-me directamente do pescoço e acabar ali a minha performance de aficionado.

17 comentários:

Maestro disse...

eheheheheheheheheheeh

Nem todos os bois são touros, mas olha que há uns que são autenticas vacas...

eheheheheh

Abraço Benfiquista

Catenaccio disse...

O que eu me ri a ler isto...

Faz-me lembrar quando o Kenedy jogava no Benfica. Havia um sócio, daqueles que mais parecia um sósia do Barbas, que gritava sempre que o dito lateral esquerdo tocava na bola: "CARNEIROOOOOOOO"!

Mas a frase era proferida com tal convicção que as veias da cabeça pareciam que rebentavam. Cheguei a pensar que o homem iria sofrer uma apoplexia. Bons tempos.

Ricardo, devias mesmo pensar naquilo que te disse...

Abraço.

Ricardo disse...

Maestro,

Chamem-se os bois pelos nomes, então!

Abraço!

Ricardo disse...

Ricardo,

Com um carneiro em campo, acho normal que o Touro do apito se decidisse a marrar contra o Benfica!

Abraço!

Anónimo disse...

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De Benfiquistas para Benfiquistas

João Reis disse...

Excelente, Ricardo!

Não há paciência para os eternos discursos sobre a arbitragem, os árbitros e as falhas. Já chega com tantas queixas! Importa é estarmos unidos em função do campeonato e lutarmos até ao fim.

Este blogue agrada-me muito. Em especial estes teus textos com um toque de humor. Continuem!

Grande Abraço!

Jotas disse...

Eh Eh, o futebol na bancada é um espéctaculo

Sabino Rui disse...

Fantástico, Ricardo. Estás próximo do patamar do RAP. Deverias dedicar-te profusamente a escrever este tipo de crónicas. Tens imaginação, criatividade e escreves sem mácula. Vai em frente, continua a divertir-nos e a surpreender-nos com momentos destes.

rogerAjacto disse...

Brilhante!

Abraço carneiro amigo.

Americano disse...

O Ricardo é o nosso Freddy Adu, um jovem cheio de talento que ainda não foi aproveitado pelo pessoal da bola :)))

RA disse...

este texto valia mais 100 euros se tivesse os parágrafos separados por espaços. não é uma crítica de merda, apenas pretendo facilitar a vida aqui aos leitores :)

Ricardo disse...

Facilitar a vida aos leitores, RA?

Para quê?

Os leitores neste tasco já comem sandochas de queijo, bebem vinho e vêem a nossa empregada de mini-saia a equilibrar os copos na bandeja. Achas que os leitores merecem mais?

Porra, que exigente tu, pá!

RA disse...

:(

Ricardo disse...

Não é caso para tanto, RA! :)

RA disse...

Hehe...

Agora a sério, uns espacinhos entre os parágrafos vinham mesmo a calhar. Desculpem lá a cromicidade, que é que se há-de fazer; sou assim...

;)

Ricardo disse...

A comicidade da cromicidade, RA?

A direcção do Conselho Executivo deste blogue debateu, esteve em desacordo, acordou depois e fechou o assunto com uma deliberação final: cada um faz os espacinhos que quer, onde quer e como quer.

No entanto, da minha parte, vai uma promessa ao RA que os espacinhos, num próximo texto (que nunca sabemos se irá existir), poderão, de facto, existir. Mais vigorosos, mais fortes, mais cheios!

Mais espacinhos para todos!, promete-se no Ontem vi-te no Estádio da Luz. Mais parágrafos! Mais mudanças de assunto, continuando o assunto! Menos textos sem espacinhos, menos textos sem parágrafos, menos textos sem mudanças de assunto, continuando o assunto!

O provedor agradece.

RA disse...

vá lá, que ser chato ainda traz alguns benefícios.

abraço