quinta-feira, 9 de julho de 2015

Lúcio Caparinha, o Vermelhão


  - É só mentiras!

gritou para o ar Lúcio Caparinha, lendo o A BOLA no café do Azevedo. Avançados espanhóis, laterais argentinos, médios belgas, centrais do Paraguai, todos anunciados, dia-a-dia, como reforços de peso do Benfica. Num ano que não este chegou a fazer uma lista com as invenções dos jornais: eram para cima de 100 os craques «praticamente garantidos», as bombas «prontas a anunciar», os atletas que haviam «aterrado na Portela para oficializar o contrato de 3 anos com o Sport Lisboa e Benfica». Tudo ilusões, sonhos prometidos, invenções de quem anda a brincar com o coração frágil do adepto em tempo de Sol e marasmo.

Lúcio já não tem pachorra para as pré-épocas, estações doentias de tédio. Cansa-se de passar os dias à espera de ver o Glorioso jogar. Só ele é que não vem no jornal como futura contratação sonante: «Lúcio Caparinha, homem extraordinário, apoiante de reconhecida arte, famigerado adepto conhecido em Vila Viçosa como o "Vermelhão", está a horas de ser oficializado no Benfica».

- Disso não se lembram eles, os mentirosos!

Isto disse em voz baixa, já não gritou. Ficou de imperial na mão a olhar com olhos baços a montra do Azevedo. Não tinha fome mas pediu à mesma dois ovos cozidos e um bocado de toucinho para acamar a bebida.

Sentia falta do Estádio da Luz. Do cheiro do Estádio, daquele nervoso miudinho, que às vezes é graudinho, que o inundava de emoção quando a equipa aterrava ligeira, gloriosa e delicada no relvado e o público aplaudia aquelas 11 papoilas saltitantes e desesperava pelo começo do jogo. Das manhãs a preparar o farnel, das idas à mercearia para apanhar pão, presunto, queijo e garrafões de vinho. Da comida mais substancial tratava Lurdes, a esposa, no tempo em que a Lurdes ainda podia preparar o farnel, antes da morte de Lurdes, antes de Lúcio Caparinha ser o viúvo da Lurdes. Naquele tempo era só, e bastava, o Lúcio Vermelhão, o marido da Lurdes.

Agora pensava nas aventuras de horas a fio dentro do carro de Vila Viçosa a Lisboa. Comprava umas empadas para levar, saía pela Florbela Espanca, deixava o Palácio à esquerda e seguia pelas pedreiras até Borba. Parava em Borba com os amigos por tradição: bebiam uma aguardente com brinde à vitória do Glorioso e só paravam no Estádio da Luz. Eram tempos diferentes destes: onde está o Colombo era um enorme terreno aos socalcos, baldio, solitário, aberto para a cidade de um lado e para a Catedral do outro. Tempos em que o carro ficava por ali, onde desse, onde pudesse ser, onde o espaço servisse os intentos dos comensais, onde se pudesse acender uma fogueira, comer, conversar, falar do 11 do Benfica, comer, conversar, falar da vida, conversar, falar da morte, comer, falar sem sentido, com sentido, falar, ser do Benfica. O fogo abria-se no final das tardes de Inverno, soltava o seu aconchego pelos benfiquistas em redor, as famílias acolhiam-no em imensa chama imensa. Efervesciam de uma paixão contagiante. Era o álcool e a espera da vitória a acelerar os batimentos cardíacos dos corações em forma de roda de bicicleta.

- Se pudessem anunciar a Lurdes no Benfica...

Isto pensou Lúcio Caparinha. Não gritou nem disse em voz baixa. Deixou-se só a pensar nisto. A Lurdes a entrar no Estádio da Luz em pleno Julho, as bancadas ao rubro, alguém a anunciar de microfone na mão: «Senhoras e senhores, sócios, adeptos e simpatizantes, Benfiquistas, vocês são os melhores adeptos do mundo. Um grande aplauso para Lurdes Caparinha, esposa de Lúcio Caparinha, mulher responsável por centenas de farnéis gloriosos que fizeram outras centenas de pessoas felizes; meus caros Benfiquistas, melhores adeptos do mundo, vamos homenagear Lurdes Caparinha, que do alto da sua ternura e arte confeccionou repastos que alegraram e favoreceram vitórias épicas do Sport Lisboa e Benfica».

A Lurdes a entrar ao colo de uma águia, voando, planando pelo Estádio, rodopiando. Um eco de 130.000 benfiquistas aos gritos, aos aplausos, aos beijos, aos abraços. A Lurdes e a águia fazendo círculos cada vez mais fechados, acenando à multidão, gritando «Benfica, Benfica, Benfica», aterrando nos braços de Lúcio Caparinha, o Vermelhão.

6 comentários:

moleculasdeamor disse...

silêncio em vez de palmas, um olhar tranquilo sobre as tuas palavras, como um golo do jonas ou do nené ou do maniche ou do filipovic tanto faz, e ao fundo o chalana com o alves e o shéu o cavungi o valdo e o alberto, ... e o bento defendeu portugal apanhou todas as bolas naquela noite na escocia...

Anónimo disse...

És grande. Vivó Benfica.

Anónimo disse...

Crónica sublime!
Delicado retalho de vida e de benfiquismo, com dose subtil de atualidade.
mlc

João Vargas disse...

muito bom! Viva o Benfica

António Viegas disse...

Excelente texto. Muito bem escrito, diria mesmo, com qualidade literária!

Benfiquista Primário disse...

Que grande homenagem ao Povo, à Vida e ao Benfica! O Benfica dá vida ao povo e o povo é a vida do Benfica...este texto captura isso muito bem.

Só faltou incluir Óscar Takuara Cardozo na lista dos goleadores míticos da Luz...afinal, o Mini Pereira vai para o Fruta Corrupção Pancadaria porque tem que pensar na família, Cardozo recusa liminarmente ir para a produtora de humor do Lumiar porque não gosta de marcar auto-golos!...