sábado, 3 de dezembro de 2016

Se o futebol fosse aquilo que sonhámos



Há uma tendência biológica em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles) para menorizar os factores motivacionais das equipas adversárias. Também há uma tendência biológica para a cagança em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles). Por fim, quando as coisas correm mal (leia-se: derrota), há uma tendência biológica em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles) para atribuir aos árbitros a razão do insucesso.

Isto - ignorância sobre a motivação alheia, arrogância na vitória e desculpabilização com factores externos - ocorre a 99,9% dos adeptos de futebol, sejam eles de que clube forem. É igual. 99,9% dos adeptos não tem capacidade para ler a realidade tal qual ela existe. Isto ocorre porque 99,9 por cento das pessoas que vêem futebol não gostam de futebol, gostam dos seus clubes. Se gostassem de futebol, mais facilmente entenderiam que os árbitros não erram só a favor dos outros clubes,  entenderiam que uma equipa que sofreu uma goleada duas semanas antes vai sempre partir para o jogo à procura de restabelecer a sua dignidade, entenderiam que ganhar é só uma passagem passageira pelo sucesso.

Pouca gente tenta perceber o lado mental do jogo. Anda aí um tipo, o Rui Lança, que sinceramente  me parece ter coisas interessantes a ensinar sobre isto (não recebi nenhum cheque do Rui nem sequer o conheço pessoalmente). É por isso que nos deparamos no futebol com a mais gloriosa incongruência: um jogo extraordinário muito mal interpretado pela maioria dos que o acompanham. Ou seja, se só 0,1% dos adeptos é capaz de tentar entender o jogo e ver além do clubismo, é possível fazer do futebol a maravilha que ele podia ser?

A resposta é óbvia: não. O futebol, este jogo mais extraordinário ainda que o xadrez, vive numa gruta muito esconsa, sombria e silenciosa se pensarmos naquilo que podia ser. O futebol é 0,1% do seu ideal. E mesmo assim é esta grande maluqueira que nos apaixona. Mesmo assim ainda há quem compreenda o Pizzi. Ou o Paulo Sousa. Ou o Redondo. Ou o Pedro Barbosa. Ou o Bebeto ou o Rui Costa. Ou o Valdo. Ou o Jonas. Ou o Le Tissier.

9 comentários:

Benfiquista Primário disse...

Muito bem. Apesar do anti-jogo do Marítimo e do facto do árbitro ter permitido muitas entradas para cartão, sem o mostrar, perdemos por culpa própria. Não soubemos ajustar-nos à pressão e organização defensiva deles, a nossa organização ofensiva foi sempre insuficiente - muita lentidão e previsibilidade, pouca dinâmica e criatividade.

Esta era a pior jornada para perdermos pontos...vem aí um jogo grande, daqueles em que costumamos ser pequenos...

chakra indigo disse...

99% apoiado, mas gostar mais do clube que do jogo não sei se é mau em si mesmo.Existe mais num clube que futebol, ou desporto ou associação.

Ah, e o xadrez é o melhor jogo até hoje inventado :-)

Viva o Benfica!

Jota Pê disse...

"Também há uma tendência biológica para a cagança em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles)."

Porto durante os últimos 30 anos. Benfica actualmente.

"quando as coisas correm mal (leia-se: derrota), há uma tendência biológica em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles) para atribuir aos árbitros a razão do insucesso."

Benfica nos últimos 30 anos. Porto actualmente.

"só 0,1% dos adeptos é capaz de tentar entender o jogo e ver além do clubismo"

Este 0,1% são actualmente conhecidos como os anti-Benfica, lagartos, dragays e outros que tais. Embora sejam adeptos, imagine-se, do Benfica...

Jota Pê disse...

"Também há uma tendência biológica para a cagança em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles)."

Porto durante os últimos 30 anos. Benfica actualmente.

"quando as coisas correm mal (leia-se: derrota), há uma tendência biológica em grande parte dos adeptos de uma equipa que ganha (99,9% deles) para atribuir aos árbitros a razão do insucesso."

Benfica nos últimos 30 anos. Porto actualmente.

"só 0,1% dos adeptos é capaz de tentar entender o jogo e ver além do clubismo"

Este 0,1% são actualmente conhecidos como os anti-Benfica, lagartos, dragays e outros que tais. Embora sejam adeptos, imagine-se, do Benfica...

Anónimo disse...

Não digo que o árbitro de ontem nos quissesse roubar, mas quecondicionou o resultado isso é inegável.

GinBlossom disse...

não metas o Pizzi no mesmo saco que esse génio que está na foto e todos os outros que referiste.

GinBlossom disse...

já agora, considero-me parte integrante dos 0,1% e não posso dizer que, actualmente, goste de futebol. o problema dos 99,9% não é a 'clubite', é a própria personalidade.

bio disse...

Grande texto Ricardo,

E o Oliver a brilhar em cada jogada e o NES a substituir o gajo pelo Herrera? NES faz parte dos 99.9%.devia dar pena de prisão.

Saudações leoninas

R.B. NorTør disse...

O árbitro foi o árbitro do costume, no que ao anti-jogo diz respeito. Ou já nos esquecemos que quantos guarda-redes adversário começam com cãibras aos dez minutos de jogo e normalmente passa-lhes quando levam a primeira batata?

Sem contar com as intervenções do Gottardi Sálvio, Rafa e Jiménez desperdiçaram ocasiões claras. Perdemos por culpa própria. Agora é ir para o campo de treinos e tratar de ganhar os outros jogos todos.