quinta-feira, 26 de abril de 2018

Espiral de destruição interna


As explicações para os vários anos de hegemonia do FC Porto no futebol nacional são várias, das mais conspirativas às mais cândidas, e para todos os gostos. No entanto, para mim, a mais completa e evidente – não única – era a forma como os Portistas conseguiam dominar o mercado de jogadores.

As saídas das suas melhores individualidades no final de cada época sucediam-se e, quase à mesma velocidade, apareciam novos jogadores capazes de substituir com qualidade – e não raras vezes, até com ganhos – os que partiam.

Com uma política de aquisições essencialmente baseada no mercado sul-americano era, de facto, incrível a capacidade que o Porto tinha para regenerar as suas perdas de matéria-prima, reutilizando os ganhos provenientes das joias polidas.

Goste-se ou não, o domínio do Porto começava e acabava no campo. E lá, eles conseguiam ser melhores, porque tinham, sucessivamente, os melhores interpretes.

No Benfica, demoramos bastante tempo até conseguir compreender que o caminho para voltar aos títulos era, primeiro que tudo, o de conseguir ter os melhores. E para termos os melhores, havia que dominar o mercado. E para dominar o mercado, sem ter poder económico, só o poderíamos fazer com conhecimento!

E esse tem sido o nosso maior e melhor segredo: o conhecimento. Hoje em dia, é notório o nosso domínio de mercado. Nenhum dos nossos rivais tem sequer metade da nossa capacidade para ir substituindo os jogadores que, inevitavelmente, vão saindo.
Não têm essa capacidade financeira, é verdade, mas sobretudo não têm essa capacidade de conhecimento que levou anos e anos a ser construída.

Para quem tiver dúvidas que faça um pequeno exercício de memória e compare as realidades de ambos os clubes nos seus momentos mais pujantes. Compare a primeira década deste século do FC Porto e o que está cumprido nesta segunda década por parte do SL Benfica. Faça ainda uma retrospetiva e perceba o declínio do FC Porto na prospeção, deteção e aquisição de talento face ao Benfica, e transporte isso para os títulos ganhos por um e outro desde a época 2009/2010. Recue ao último título do FC Porto e reveja um 11 repleto de qualidade, mas um banco quase risível face ao que tínhamos. Resultado disso? Um tetra, que até pode ser penta, para nós e uma capacidade incrível de regeneração de qualidade.

Pois bem, a folha de jornal que se anexa ao que escrevo, resume em meia-dúzia de linhas o que se prepara para se fazer no Benfica, isto é, a acreditar nas várias notícias que têm saído nos últimos tempos sobre José Boto, preparamo-nos para perder um dos melhores scouts do mundo e o que fazemos para o substituir? Contratamos uma empresa externa ao universo do clube; Perderemos alguém com um conhecimento incrível sobre o jogo e o que realmente interessa na qualidade de um jogador e o que fazemos? Confiamos nos critérios de quem se rege por um pensamento completamente contrário do que é o jogo e o talento; Ficaremos sem um quadro importantíssimo no que diz respeito à recolha e tratamento de informação sobre o mais importante que há no futebol – os jogadores – e confiamos em bases de dados de alguém cujo maior e único interesse é servir os seus próprios interesses; Perdemos exclusividade de conhecimento e preferimos seguir o conhecimento disponível a qualquer clube através da mesma fonte; Deixamos de ter um critério único e completamente definido para estarmos dependentes dos critérios de terceiros que nem sequer sabemos como os analisam. Brilhante! 

Uma folha de jornal, uma simples folha de jornal demonstra cruelmente o processo de destruição interna que está em marcha no Benfica. Uma simples folha de jornal demonstra a total incompreensão das razões que nos levaram às vitórias nos últimos anos. Uma simples folha de jornal revela que quem não deve tem cada vez mais influência nas políticas que não lhe deveriam dizer qualquer respeito. Parabéns!

11 comentários:

RF disse...

Lá está. Quem manda no Benfica não o vê como um clube, mas sim como uma empresa. E nas empresas o outsourcing é o prato do dia.

moleculasdeamorpelavida disse...

Entregar o scout a uma empresa é só...
Espero isso sim ter 4 ou 5 técnicos internos a trabalhar informação.
Assim será.

Anónimo disse...

Caro José Moreira,

Este post tem alguma assertividade, sobretudo quando se observa o passado (ou a primeira década deste século), mas objectivamente, se observarmos o presente, e os planteis do FC Porto e Benfica, conseguirá afirmar que o Benfica tem um plantel superior ao FC Porto? Por exemplo, o Transfermarket contraria essa tese, e valoriza bem mais o plantel do FC Porto, ok... é um mero indicador!

Observando melhor, em numero/quantidade, o Benfica tem um plantel com 23 Atletas (incluido o Krovinovic, excluido o Parks que joga na B), já qualitativamente, o Benfica tem 12 Internacionais A, entre esses 23!

O FC Porto tem um plantel "curto" com 27 Atletas (com 4 G Redes, e o Dalot que já fez 6 partidas como titular); já em termos qualitativos, o FC Porto tem 14 Internacionais A no seu plantel!

Pergunta final, o plantel 17/18 do Benfica, é superior ao do FC Porto? Sim, um Porto que investiu 1 M€ no 3º G Redes Vaná, e em Janeiro recebeu 3 Atletas emprestados (Osório, Paulinho e Waris), sendo que, objectivamente reforçou-se com regressados ou exilados: Ricardo, D Reyes, Sérgio Oliveira, Aboubakar e Marega, são hoje 5 habituais titulares (o D Reyes já acumula perto de 1500 minutos de jogo), e ironia das ironias, foram esses regressados os verdadeiros reforços deste Porto versão 17/18!

Caso para afirmar, há males que até vem por bem... Porque não fora o fair play financeiro, e o FC Porto continuaria a investir, como se não houvesse amanhã, e provavelmente, sem estes resultados desportivos, naturalmente, nesta equação, o papel do Treinador foi, e é fundamental!

Peço desculpa se este meu comentário, desvirtuou o objectivo principal deste post!

Saudações desportivas de um rival

José Moreira disse...

Caro Anónimo (desculpe trata-lo assim),

A sua análise, procurando ser séria, acho que parte de uma base errada, pois, quanto a mim, não podemos traduzir algo subjectivo (qualidade de jogadores) em qualquer tipo de dado objectivo (leia-se números secos e sem qualquer interpretação retirados avulso de qualquer site).

Mas vou tentar explicar o que penso de ambos os planteis.

Eu "organizo" jogadores por perfil, isto é, cada jogador tem as suas virtudes e defeitos e isso deve ser enquadrado no estilo de jogo que se pretende e na pessoa que corporiza esse estilo (treinador).

Ora, com isto quero dizer que, muito provavelmente, o plantel do Benfica não encaixaria de forma natural nas ideias de jogo que notoriamente tem Sérgio Conceição. Goste-se ou não (eu não gosto), o Sérgio tem uma ideia de jogo que casa muito mais facilmente com um perfil de jogador eminentemente físico e não tanto técnico e de tomada de boas decisões. São ideias.

Por outro lado, tomando por base as não ideias de Rui Vitória, onde cada jogador deve dar o que souber e poder, onde não há estímulos colectivos de qualidade, diria que o plantel do FC Porto nas mãos de Vitória seria um desastre completo.

Considero que, não fosse excelência dos jogadores do Benfica (sobretudo do meio-campo para a frente) e nem pelo titulo lutaríamos este ano ou nos dois passados.

É inegável e facilmente visível que, no geral, os jogadores do Benfica conseguem fazer mais coisas e mais diferenciadas durante o jogo que os jogadores do Porto. E, por isso, para mim, são muito superiores.

Mas, lá está, falamos de coisas subjectivas e não objectivas, por isso, não faz sentido ir buscar o valor de mercado que determinado site lhes atribui ou estatísticas que procuram decompor o rendimento de cada um.

Abraço e seja bem-vindo.

Anónimo disse...

"É inegável e facilmente visível que, no geral, os jogadores do Benfica conseguem fazer mais coisas e mais diferenciadas durante o jogo que os jogadores do Porto. E, por isso, para mim, são muito superiores"

José Moreira, eu desmonto essa suposta superioridade, observando a regularidade do FC Porto internamente, e externamente, assim como respectivo rendimento desportivo. Inversamente, o Benfica foi penoso nesta 1ª volta, e calamitoso na Europa, porque afinal, nada é bom, ou mau, se não for por comparação.


Independentemente de se gostar ou não, da ideia de jogo do Sérgio, creio que o problema ou a solução estará mesmo no Treinador ...

O melhor analista do Futebol Português (opinião pessoal, o Rui Malheiro), já deixou o diagnóstico deste Benfica, e nem foi ontem ,,,

1 abraço

Anónimo disse...

Continuem a levar nas palminhas o corrupto, aldrabão e vigarista do Vieira,.

jorgen80 disse...

Não acho. O Benfica tem que apostar é na formação. Esse será o factor diferenciador do futuro, até porque os miúdos craques, cada vez, serão mais caros no futuro. Impensável pensar que se compraria, nos tempos de hoje, um Witsel por 6 milhões, por exemplo...

O Broto não faz um staff. Não funciona assim. Estou tranquilo.

Anónimo disse...

Alguns desses excelentes jogadores que o Porto adquiriu foram referenciados em 1º lugar pelo Benfica.
São públicos os casos do Jardel (o avançado) e dos Colombianos Falcão e Álvaro Pereira.
O problema não foi o scouting, foi a capacidade financeira e negocial de ambos os clubes. Que nessa altura era claramente favorável ao Porto e que agora é claramente favorável ao Benfica.

Também não sabemos (pelo menos eu não sei) a importância do scouting na decisão de aquisição dos jogadores, mas penso que será muito pouca.
Por outro lado, a avaliar pelas aquisições de jogadores dos últimos 7 ou 8 anos, houve mais falhanços do que acertos. Muitos falhanços teria forçosamente de acontecer, porque quando se compram 4 jogadores para uma posição, só 1, ou no máximo 2, podem vingar.
Mas o clamoroso falhanço em identificar laterais e guarda-redes, este ano, não abona muito em favor do scouting do Benfica.

Resumindo, o apocalipse anunciado, com a saída desse, certamente, excelente profissional, é um pouco exagerado.

Veremos daqui por 3 ou 4 anos como estarão os 3 grandes, em relação aos seus adversários.

Saudações benfiquistas,
AT

José Moreira disse...

O que diz é muito verdade, no que diz respeito à irregularidade do Benfica. Mas essa mesma irregularidade deriva, quase em exclusivo, à falta de qualidade nos processos colectivos e muito pouco da falta de qualidade individual.

Como disse, a qualidade individual foi quem ajudou a "esconder" (para quem não quis nem quer ver) a falta de qualidade gritante de tudo o que é colectivo no jogo do Benfica de Rui Vitória.


Quanto à aposta na formação, não querendo entrar nessa questão em concreto, porque é muito, mas muito vasta, devo alertar que a qualidade de scouting se estende à formação e isso é facilmente visível, mesmo para quem, como nós, está de fora.


Quanto aos falhanços, lamento discordar, mas não é verdade que, olhando para a floresta, se possam identificar assim tantos falhanços. Mais, cada falhanço, quando ocorre, terá as suas razões especificas associadas e poucos foram os casos de falta de qualidade. Ainda assim, acertos e erros existirão sempre, seja qual for o critério usado para se escolherem jogadores.

alexanderson disse...

no caso da empresa em especifico, concordo porque ela tem regime de exclusividade com o monaco e depois exerce a sua funçao com outros clubes e penso que o benfica nao tem essa necessidade. Entretanto parcerias para scouting pode ser importante caso seja para o "moneyball" visto ser dificil ter o equipamento necessario para esse tipo de analises

joão carlos disse...

ficar sem o boto poderá ser significativo mas o scouting não era apenas o boto, até porque ele tinha uma área, europa acho eu, o que é péssimo é em vez de arranjarmos outro que seja funcionário do clube é passar a ser feiro por uma empresa externa.
parece que ninguém aprende com os erros do passado, a gestão da internet e do correio electrónico também era feito por terceiro e todos sabemos o que esta a acontecer.

já agora para quem acha que o que interessa é a formação, e o scouting pouco serve, até parece que os jogadores nascem no clube e que todos começam nos benjamins.