quarta-feira, 21 de novembro de 2012

As 2 torres com vista para Camp Nou


Senhores do jogo, senhores desta tão merecida vitória, no regresso do Capitão ao palco da Champions, é a apresentação que faço do Benfica esta noite perante 47.000 pessoas na Luz.
Pleno das estatísticas vs resultado do jogo de hoje que, mínimo, já nos assegurou a presença na Liga Europa.
Mas nós queremos mais e o que assistimos faz-nos acreditar que, mesmo em Camp Nou, a qualificação para os oitavos da Champions é possível. A mim, pessoalmente, também me faz pensar nos pontos que deixamos de ganhar neste percurso por não termos tido uma atitude como a que vi hoje. 

O jogo começou bem, aos 7 minutos, o Benfica colocava-se na frente do marcador, pelo remate de Ola John, e deixava os adeptos com menos dificuldades respiratórias que já carregavam antes do apito inicial. 
Debaixo d´água o domínio vestia de vermelho em todas as frentes até que, à meia hora de jogo, na única oportunidade de golo criada pelos escoceses durante toda a 1ª parte, o gelo abateu-se sobre o planeta. Numa falha de toda a defesa, o Celtic empata o jogo por cabeceamento  de Samaras, completamente sozinho na pequena área. Entre uma má saída de Artur e um bloqueio à sua acção por parte de outro jogador do Celtic que o impede de chegar à bola nas melhores condições, as opiniões dividem-se.  Quanto a mim a falha é, antes desta discussão, da defesa, que não tem ninguém sequer a incomodar o Samaras na área. Depois.. parece-me mais clamorosa a má intervenção do Artur do que a acção do jogador do Celtic. 
O clube escocês finalmente consegue escrever na sua história que marcou um golo no na Catedral da Luz. Ter sido pela cabeça de um grego é mero pormenor. 

O Celtic empolgou-se com o golo durante.. 10 minutos.  10 minutos foi o tempo que o Benfica demorou a recuperar o fôlego e a voltar a pressionar como o tinha feito até sofrer o golo. 
Assim saiu para o intervalo e da mesma forma voltou, pressionante, com fulgor e vontade de ganhar esta batalha que ainda lhe permitia manter-se na guerra.  
Encostou os escoceses às cordas e fez do  enorme – em todos os sentidos – guardião escocês  uma das figuras do jogo. Não fosse ele e o resultado teria sido ainda mais condizente com as estatísticas esmagadoramente favoráveis ao Benfica. O Cardozo teria seguramente contribuído para isso. 
Mas foi um central que, aos 20m, respondendo ao cabeceamento de outro central, o “Xerife”, e da mesma forma ao golo dos escoceses – saído de um canto – que sentencia o jogo: Garay que fuzila autenticamente a resistência de Forster .
Camp Nou à vista.
 
Antes de vermos as nossas dificuldades de respiração definitivamente ultrapassadas ainda passamos por uns suspiros e solavancos pulmonares na fase final do encontro com o Celtic, que JJ procurou acalmar com a entrada de Gaitan (substituindo Lima) e Maxi (substituindo Matic) . Artur ainda viria a fazer a “sua” defesa nestes minutos finais.

É difícil para mim em jogos como o de hoje eleger uma individualidade mas o Salvio, pelo que correu, pelo futebol que “arrastou” consigo e pelo que proporcionou ( a jogada do 1º golo é dele), é o meu eleito.  O golo que tanto procurou e não encontrou não lhe retirou qualquer brilho na sua prestação.

Dia 5 de Dezembro o Benfica travará a batalha final nesta fase da "guerra". E em que palco! Não podia ser melhor pois não? Não merecemos menos que isso, façamos por respeitá-lo, "com ou sem Messi".
Assim acredito! 


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Golos, assistências e situações de desequilíbrio (15 jogos oficiais - 10v, 3e, 2d - 32gm, 10gs)




Golos
Assistências
Situações de desequilíbrio
Jardel (1080m)
0
2
0
Salvio (1065m)
3
3
5
Melgarejo (990m)
0
2
2
Matic (985m)
1
0
0
Maxi (982m)
1
4
1
Cardozo (904m)
10
1
1
Lima (836m)
8
3
1
Rodrigo (768m)
4
1
2
Enzo Pérez (765m)
1
0
3
Bruno César (490m)
0
0
1
Gaitán (445m)
0
1
0
Nolito (363m)
1
1
2
Luisão (360m)
0
0
1
Luisinho (360m)
1
1
2
Ola John (358m)
0
2
4
Carlos Martins (266m)
0
0
1
Aimar (184m)
0
3
0
André Gomes (158m)
2
0
0



Os critérios estão explicados aqui.


À conversa com um indivíduo do departamento financeiro

«Como está a encarar esta época do Benfica?

Estou radiante, já assegurámos a passagem à fase seguinte da Champions.

E em relação ao campeonato?

Não ligo muito.

Perdão?

Quer dizer, ligo aos jogos em casa por causa dos espectadores.

Emociona-o ver o estádio repleto de benfiquistas?

Não, não (risos). Ao intervalo telefono para a bilhética para eles me fornecerem o número de espectadores e depois entretenho-me a calcular a receita. São momentos especiais.

Quer dizer que não lhe interessa muito se o Benfica lidera o campeonato?

Interessa, claro. Quando o Benfica lidera vem mais gente ao estádio. Logo, mais receita.

A eliminação na Taça de Portugal não o incomodou?

Não, de todo. Já tivemos os custos da deslocação ao Algarve e agora estes custos da deslocação à Madeira, muito mais dispendiosos, como é evidente. As receitas dos jogos da Taça são ridículas, e ainda por cima são a dividir por três (clubes e Federação). É uma competição que deveria ser extinta. Sou muito mais entusiasta da Taça da Liga.

Mas é uma prova tão recente...

É, mas dá muito mais dinheiro do que a Taça de Portugal. Nestes últimos anos o Benfica tem-se portado muito bem na Taça da Liga.

Sim, já são três vitórias consecutivas.

Como? Ah, sim, pois... As vitórias... Eu estava a referir-me às receitas, onde o Benfica tem estado muito pujante nessa prova.

Regressemos então à Champions. Vê os jogos?

Sim, sim. Não perco um!

Vibra bastante com essa competição, portanto.

Sim, vibro imenso. Por exemplo, o último jogo, em Manchester, foi espectacular! Começámos muito fortes a ganhar 800 mil euros, no final da primeira parte passámos para apenas 400 mil euros, na segunda parte estivemos alguns minutos sem ganhar nada, depois passámos novamente a ganhar 400 mil euros e perto do fim cheguei a acreditar que poderíamos sair de Old Trafford com os 800 mil euros. Acabámos por garantir 400 mil euros. Dado o valor de mercado do plantel do adversário posso dizer que foi um belo resultado financeiro.

Foi uma noite de muita emoção?

Sim, foi muito intenso. Até porque estava a acompanhar o jogo com a calculadora numa mão e o relatório e contas na outra. Antes de vir para o Benfica só tinha passado por sensações semelhantes com as flutuações da Bolsa.

Confiante para o último jogo da fase de grupos? Uma vitória assegura o primeiro lugar.

Sim, perspectivo o encaixe de mais 800 mil euros. E terminar em primeiro lugar será importante para depois evitar colossos financeiros como o Real, o Barcelona ou o Bayern.

Conhece bem essas equipas?

Conheço. Já li muitos estudos económicos e costumo sempre espreitar os relatórios e contas dessas equipas. São muito fortes, muito bem estruturadas... São máquinas de fazer dinheiro.

Teme jogadores como Ronaldo, Messi, Ribéry?

Se o Cristiano Ronaldo custou quase 100 milhões de euros tem que ser muito produtivo. O Ribéry custou perto de 30 milhões, portanto está ao nível daquilo que alguns jogadores do Benfica valem hoje em dia. Quanto ao Messi, não posso opinar porque nunca foi vendido e portanto não tenho nenhuma base objectiva na qual sustentar a minha avaliação. Comenta-se muito sobre qual será o seu real valor, mas é tudo muito subjectivo e eu não discuto subjectividade.

Regressando às provas internas... Depois desse jogo da Champions vem novo duelo com o Marítimo.

Eu por mim perdia por falta de comparência. Mais duas viagens de avião, hotel... Não faz sentido, ainda há uns dias lá fomos.

Aproxima-se a reabertura do mercado de transferências. O Benfica vai mexer no plantel?

Estamos sempre atentos a boas oportunidades de negócio. Por outro lado, os nossos jogadores estão a valorizar-se bastante com a campanha europeia, por isso é natural que haja interessados. Vamos ver...

Falou em boas oportunidades de negócio. O Benfica tem apostado em adquirir muitos jovens praticamente desconhecidos. É para manter essa política?

Sim. Se por cada vinte jovens que entrem no Benfica, com salários muito baixos e a uma média de 200 mil euros cada, saia um por um valor de cerca de 20 milhões de euros, isso representará um lucro de 16 milhões de euros. E mesmo que saia por apenas 10 milhões de euros, será um lucro de 6 milhões de euros. Será sempre uma boa política.

Como está a renovação de Aimar?

Estamos a tentar que baixe o salário. Mas por mim saía já e dava o lugar a um jovem com potencial para ser vendido no futuro.

E a situação de Saviola?

Saviola tem a maior discrepância do plantel entre aquilo que aufere e aquilo que produz. Tem que sair já em Janeiro, enquanto podemos encaixar algo com a sua transferência. O mesmo é válido para Capdevila.

Qual é a sua posição em relação ao tema polémico dos contratos televisivos?

Para mim não há polémica nenhuma. Assinaremos com quem pagar mais.

Fale-nos um pouco sobre si... Como foi ir para o Benfica?

Foi uma excelente oportunidade profissional. Não podia recusar trabalhar para um das maiores marcas portuguesas.

É adepto do Benfica?

Sou adepto do Índice Dow Jones.

Pratica desporto?

Sim, golfe. Como é relativamente parado, é o melhor desporto para discutir negócios. Aliás, eu falo mais do que jogo (risos). Além disso, praticamente não suo. Detesto suar, isso é coisa de pobre.»


Éter, no Céu Encarnado.

domingo, 18 de novembro de 2012

Quando ser benfiquista dá muito jeito

Depois de uns dias de descanso - longe de vós, queridos leitores, e também de vós, alimárias queridas - sinto-me com pouca pachorra para grandes dissertações. Gostava só de dizer que o benfiquista Duarte Gomes brindou-nos com os 45 minutos de mais escandaloso prejuízo consciente a uma equipa que já vi na vida. No caso, ao Benfica.

E que esse facto diz-me tudo sobre os próximos meses. Não bastando as nossas óbvias limitações - pelos vistos o Benfica agora quer "reforçar o meio-campo", facto muito estranho tendo em conta o plantel equilibradíssimo que temos, não é? -, ele estão lá prontinhos a dar a facada. E até dizem, sem lhes perguntarem nada, que são do Benfica. É um gozo tremendo, este futebol.

Numa bolina ...


Nos anos negros do Benfica, há uma época que não esquecerei, 97/98. E se a não esquecerei não tem a ver com títulos conquistados, mas com experiências vividas.

Foi uma época em que o nosso plantel misturava a excelência felina do Michel Preud'homme, a classe tranquila do Carlos Gamarra, o génio de João Pinto, a imprevisibilidade do Karel Poborsky, a força demolidora do Brian Deanne, a veia goleadora de Nuno Gomes, a resistência infindável do coveiro Amaral, o petardo do molengão boliviano Sanchez, com uma quantidade inacreditável de cepos internacionais como o Paulo "jogava com o Jardel" Nunes, o Ronaldo "falso-lento muito lento" Guiaro, o dorminhoco El-Hadrioui, o caceteiro Tahar, o carteiro Pringle, um romeno aciganado a caminho da tripalhada de nome Pão duro, o ucraniano Cão da Aurora,  o exterminador implacável, ou pelo menos o gémeo dele Taument.

A estes juntavam-se as "vedetas" da formação: Edgar o homem das noites no Mussulo, Hugo "sou muita bom" Leal, Bruno Caires, que primeiro que mexesse uma perna tinha que se pedir um requerimento autenticado em papel de 25 linhas, o Bruno "corro sempre em frente" Basto, o José "Soneca" Soares, um lateral direito muito fraquinho de nome Sousa que só fez carreira por ser familiar do Sousa do Porto, o Paulo "hei-de voltar daqui a 15 anos" Lopes, além de cepos nacionais como o Jorge "sou alto mas não tenho jogo de cabeça" Soares, Tiago "o homem que tinha medo de voar para a Madeira", Jordão "fui contratado ao Estrela da Amadora porque o Abel Xavier e o Calado tiveram sucesso", Luís "será que sou jogador da bola só porque tenho pé esquerdo ?" Carlos, e mais umas quantas porcarias.

Obviamente que entre tanta qualidade e tanta falta dessa mesma qualidade a equipa era uma verdadeira montanha-russa de emoções. Para enquadrar a situação, Damásio depois de um final de época penoso, decide despedir o Manuel Zé à quarta jornada, salvo erro, depois de um primeiro jogo fantástico 4-0 ao Campomaiorense e três maus resultados, derrota em Setúbal, empate em casa com a Académica e derrota nos arcos com o Rio Ave. Além disso, opta por demitir-se convocando eleições antecipadas. Vale e Azevedo que pouco tempo antes tinha sido cilindrado por Damásio ganha as eleições com a ajuda da imagem do António Sala e perante uma turba que considerava o campeonato perdido à 4.ª jornada na véspera de receber os lagartos.

Com Vale e Azevedo entra o grande sornas, isto é Graeme Souness, que começa a importar ingleses para a equipa - Minto e Deanne foram os primeiros e como até foram mais-valias iriam abrir a porta à merda que viria na próxima época - Charles, Thomas, Harkness, mas isso já são contas de outro rosário. Apesar da substituição de treinador, o que é certo é que a equipa fez uma primeira volta terrível somando 4 derrotas e 6 empates em 17 jogos.

Não sei porque carga de água, até porque nada fazia prever, com aquela primeira volta tenebrosa, mas num sábado, estava eu no Estádio da Luz provavelmente para ir ver um jogo de basquetebol, quando sou desafiado pelo R. a ir até Campo Maior. E aí começaria a minha temporada atrás do Benfica por esse Portugal fora. Mas o jogo de que quero falar, pela ilusão que constituiu na altura, é o jogo de Guimarães. 15 dias antes, em mais uma deslocação memorável, tínhamos interrompido uma série de 7 vitórias consecutivas com um empate no São Luís, mas a vitória perante o Chaves reforçou a nossa convicção em ir a Guimarães.

Nesses tempos, os jogos ainda eram ao Domingo à tarde, às 16 ou 17, não tenho bem a certeza. Assim sendo, reunimo-nos, eu e o R. às 11h30 para fazer uma viagem nas calmas. Mal sabíamos nós que o carro, que até era da empresa, haveria de partir o motor ali na zona entre Santarém e Torres Novas. É preciso azar, o carro começa a deitar fumo por todos os lados e deixa de funcionar. O stress começaria aí. Se ligar para o seguro já é uma seca, imaginem o que era estar a ver o tempo a passar e ninguém atender do outro lado por ser Domingo. Mas o problema não foi só o esperar, o problema é que a mulher do seguro queria que o reboque nos trouxesse de volta a Lisboa.

Entretanto chega o gajo do reboque, um tipo 5 estrelas, maluco da cabeça e da velocidade. Põe o carro em cima do reboque, e começou a contar-nos as suas histórias de transportes de carros avariados e/ou  acidentados. Ora segundo ele o problema é que a malta andava sempre numa ganda bolina e depois pumba, espetavam-se que nem gente grande. E a cada história que nos contava falava do pessoal que ia na bolina, sempre na bolina. O que é certo é que lá nos levou até a uma oficina em Santarém que tinha associado um stand de aluguer de carros.

Depois de uma boa meia-hora a convencer a mulher do seguro que tínhamos uma reunião de trabalho no Norte nessa mesma tarde e que precisávamos de nos pôr a caminho, lá saímos do stand, já passava da uma da tarde, com um Clio de 55 cavalos. Não sei se influenciados pela bolina do gajo do reboque, o que é certo é que esse Clio parecia um avião a galgar quilómetros na auto-estrada. Qual piloto de fórmula um, o R. colava-se no cone de ar dos BMW e dos Mercedes que aceleravam e com o conta-rotações permanentemente no red line, o Clio batia recordes de velocidade.

Depois de passarmos no Freixo, ali ao pé das Antas, buzinámos aos tripeiros mesmo sabendo que eles não estavam lá, sim porque nisso nós não facilitávamos, pois se era para buzinar, buzinávamos, estivessem eles lá ou não, afinal de contas era uma questão de princípio, e acompanhámos com uma modinha dedicada ao porco-mor. Estávamos entretidos na cantiga e nas buzinadelas e nem reparámos que apesar da subida ter várias faixas, tinha uma curva relativamente apertada logo no início e eis senão quando eu dou um berro ao ver um carro que ameaçava entrar pela minha porta adentro, isto apesar do condutor se manter na faixa dele. Passado esse susto, em que o coração pareceu querer saltar do peito, mas como continuávamos com uma bolina dos diabos, em menos nada chegámos a Guimarães. Aí nasceu o meu desprezo por esses gajos, pois ao chegar com os cachecóis de fora, um filho da puta dum vitoriano, aproveitando a confusão, roubou-me o cachecol.

Mais uma vez, as coisas pareciam que não estavam de feição, pois se tínhamos conseguido chegar a horas, eis que ficava sem o meu cachecol preferido que em tantas vitórias me tinha acompanhado. Atacámos as bifanas e as bejecas, pois nem sequer tínhamos almoçado e lá entrámos no estádio. O jogo foi difícil e parecia que abdicaríamos definitivamente do título com mais aquele empate a zeros. Mas eis senão quando, a um minuto do fim, o boliviano prega uma bojarda de fora da área e a bancada por cima da baliza explode em alegria:

"Goooooloooooo!!! Inchem filhos da puta, mamem aí porcos do caralho. Benfica, Benfica, Benfica"

Ainda estávamos na corrida. Corrida essa que terminaria ingloriamente uma semana depois com uma derrota caseira frente aos axadrezados. Mas nesse momento e apesar da primeira volta desastrosa, tudo parecia possível, o título estava ali tão perto. Na verdade não estava e mesmo que tivéssemos ganho todos os jogos até ao fim não teríamos sido campeões. Mas a esperança era algo que possuíamos. E nesses que são conhecidos como os anos negros, quando o Porto foi à Luz para fazer a festa do título, saiu de lá com 3 batatas no bucho, pois se é verdade que iam ser campeões, também o é que na nossa casa não festejavam.

A viagem para baixo foi uma festa, pois enquanto fazíamos as contas que nos permitiriam ser campeões, voltámos a pôr os tripeiros no lugar deles com mais umas buzinadelas e uns insultos. Eu sei, era uma estupidez, pois nem eles nos ouviam, eles é que estavam em primeiro lugar e não havia justificação para tal comportamento nem daí poderia advir nada de positivo. Mas vivíamos numa ilusão que dificilmente consigo ter hoje em condições muito mais favoráveis. Claro que à vinda para baixo lá se teve que malhar umas sandes de leitão na bomba, pois não havia tempo para fazermos uma visitinha à Mealhada.

Infelizmente, a carta branca dada ao grande sornas no final da época, viria a destruir a equipa principal e a formação, com aquela ideia peregrina de apenas uma equipa por escalão, enquanto o presidente começava a impor uma cultura personalista tão do agrado dos actuais dirigentes.

Não sei se é de mim, se é dos muitos anos a penar, mas tenho pena de ter perdido aquele sentimento, aquela ilusão, aquela crença, aquela confiança, aquele benfiquismo puro e inocente que era capaz de acreditar que o Benfica poderia dar a volta a um descalabro como o de Vigo, fazendo as contas aos minutos dos golos que nos permitiriam inverter o resultado e conseguir uma passagem histórica. Essa crença sem limites já não a tenho, talvez porque a dura realidade já várias vezes me abriu os olhos. A verdade é que recordo essa época com alguma saudade, não pelos resultados, mas pelos momentos vividos e o pelo sentimento de esperança em que tudo era possível.

PS - Eu sei que não são tripeiros, mas portistas, infelizmente essa era a visão, e tanto era que todos se lembram da famosa canção "em cada tripeiro, há um ...".





sábado, 17 de novembro de 2012

Mais algumas notas sobre o Relatório e Contas


No texto anterior abordava-se a temática dos investimentos efectuados em termos de transferências. Sobre transferências, apenas quero deixar duas perguntas no ar e quem quiser que as responda:

- Que sentido faz vender o 30% do passe do Maxi Pereira ao BSF (Benfica Stars Fund) em 2010 por 1,35 milhões de euros e comprar 30% do passe ao Defensor Sporting em 2011 por 2,7 milhões de euros ?

- Tendo a Benfica SAD vendido ao BSF 25% do passe do Nelson Oliveira e sendo detentora de 45% do passe, a quem, quando e por quanto foram alienados os remanescentes 30% ? E porque motivo esse facto não foi mencionado nos R&C ?

O relatório anuncia o triunfo da subida de espectadores, Em 29 jogos disputados no estádio da Luz estiveram mais de 800.000 espectadores o que perfaz a espantosa média de 29.632 espectadores por jogo representando uma subida dos 23.698 da época anterior. É só a mim, ou a vocês também vos parece que os números são demasiado baixos ? Claro que os jogos da Taça da Liga devem ter contribuído bastante para estes baixos números. E isto leva-me a abordar o que para mim foi o maior erro estratégico da Benfica SAD no passado Verão, a opção por fazer os sócios suportarem quase integralmente a subida da Taxa de Iva nos Red Passes.

Já anteriormente abordei este tópico. A falta de visão estratégica desta decisão é assustadora. Porque quebraram a ligação que muitos sócios tinham que os fazia investir no Benfica antes da época começar. Ao optar por subir os preços em vez de internalizar os custos da subida de impostos, a Benfica SAD fez com que muitos sócios deixassem de gastar aqueles 170 ou 310 euros no início do época e desviassem esses gastos para qualquer outro fim. Numa relação, é menor o trabalho para manter a confiança do que para reconquistá-la depois de perdida.

A Benfica Sad quebrou a confiança dos sócios e perante o descalabro que tem sido mais que evidente em termos de asistências, basta ler o post do Ricardo sobre o assunto, publicado há uns dias, para perceber que, à excepção dos jogos com Braga, o 1.º do campeonato e influenciado pelos emigrantes a passar férias, e o jogo com o Barcelona, hoje por hoje considerada a melhor equipa do mundo, as assistências são sofríveis. Em média as assistências, exceptuando esses dois jogos, se calhar, andam pela meia-casa - 32.750, quando era comum rondarem os 40.000. Sim, porque as assistências aos jogos da Taça da Liga que se avizinham  obviamente que nem aos valores da média se aproximarão.

Qual é a consequência desta má opção ? Borlas generalizadas. A primeira das quais está agendada para o Benfica-Celtic onde além de estenderem as ofertas que normalmente só se aplicavam ao campeonato relativas ao débito directo, ainda oferecem sem custos bilhetes às Casas do Benfica para fazerem excursões. Resultado, quem quiser ir do Algarve ver o Celtic apenas tem de pagar 30 euros, seja ou não sócio e estes 30 euros incluem a viagem e o bilhete. Cá se fazem, cá se pagam os apoios dos braços armados.

Mas podem perguntar, desde quando é que é grave o Benfica tentar encher o estádio num jogo europeu decisivo. Não é grave, apenas faz com que desrespeitando quem investiu no pack Champions, o Benfica desincentive os sócios a adquirirem este pack em anos futuros, à semelhança do Red Pass, pois obviamente pagaram um valor antecipadamente que outros agora não o vão pagar. Continuem que assim vão bem. Aliás a promessa eleitoral da baixa de preços dos bilhetes e das quotas é efectivamente a consequência directa da quebra nas assistências devido ao erro de Julho.

É verdade que a crise está para durar, e o futebol deixa de ser uma prioridade quando comparada com as despesas de alimentação ou com os filhos e por isso, ao contrário de muitas opiniões da net, acho que a crise é uma das principais responsáveis pelas fracas assistências. Mas acima de tudo, a quebra nos Red Pass, que se traduz pelo fim do hábito de ir ao estádio numa base quinzenal, no mínimo, e consequentes quebras de receitas conexas, por exemplo o merchandising, é a outra razão decisiva para este fenómeno. Só espero, é que o responsável por tal decisão, não volte a ser recompensado em termos de prémios, também conhecidas como remunerações variáveis, como o foi nas duas últimas épocas - 99.000 euros em 2010/11, e 49.950 euros em 2011/12, duas épocas que todos sabemos foram claramente marcadas pelo êxito em termos desportivos e financeiros.

A propósito do tema financeiro, quero dizer que o Benfica esteve muito bem ao propor-se para ser o clube português a ser o representante na comissão do Financial Fair-play da UEFA, sendo o primeiro clube português a preparar a apresentação das suas contas à UEFA segundo o novo enquadramento. No entanto, quero desde já salientar que não basta ser representante na comissão, pois uma das regras fala do limite de prejuízos acumuláveis.

Olhemos então para a evolução dos Resultados Líquidos nos últimos anos:

Época 2009-10 Resultado Líquido -18,998 M€
Época 2010-11 Resultado Líquido -  7,663 M€
Época 2011-12 Resultado Líquido -11,690 M€

Total Acumulado dos Resultados Líquidos 2009-12 = -38,351 M€

Nas últimas 3 épocas a SLB SAD somou mais de 38 milhões de euros de prejuízo e atenção porque não incluí a época 2008-09 onde o Resultado Líquido foi de -34,856 milhões de euros, senão o panorama seria muito mais negativo, mas considero que se deva olhar apenas para o último mandato. Claro que uma análise que se faça às contas diz-nos para olharmos não só para os resultados líquidos mas também para os resultados operacionais.

A variação dos Resultados Operacionais nas 3 últimas épocas:

Época 2009-10 Resultado Operacional -11,304 M€
Época 2010-11 Resultado Operacional +  7,317 M€
Época 2011-12 Resultado Operacional +  5,125 M€

Total Acumulado dos Resultados Operacionais 2009-12 = +1,138 M€

Verificamos pois que a diferença acumulada entre resultados operacionais e resultados líquidos nestes 3 anos é de quase 40 milhões de euros. O que justificará então esta brutal diferença ? A resposta é muito simples, os Resultados Financeiros, isto é, os custos de financiamento deste modelo de gestão. O modelo de financiamento da Benfica SAD está a levar embora o valor criado na actividade regular.

Senão vejamos:


Época 2009-10 Resultado Financeiro -   7,940 M€
Época 2010-11 Resultado Financeiro - 14,649 M€ 
Época 2011-12 Resultado Financeiro - 16,922 M€

Total Acumulado dos Resultados Financeiros 2009-12= -39,511 M€

Quando uma sociedade tem custos de financiamento que representam entre 10 e 15% dos proveitos, algo tem que ser feito para corrigir esta situação.

Bem sei que quem olha para uma perspectiva mais económica e menos contabilística das contas prefere analisar o EBITDA. E neste aspecto o Benfica tem apresentado rsultados muito interessantes:

Época 2009-10 EBITDA  20,613 M€
Época 2010-11 EBITDA  49,768 M€ 
Época 2011-12 EBITDA  46,213 M€

Total Acumulado do EBITDA 2009-12= 116,594 M€

Estes resultados confirmam que o Benfica, não só na SAD (em termos individuais o EBITDA acumulado da SAD é de 89,766 M€), pois estes são os resultados consolidados, como no grupo Benfica que consolida as contas, consegue, em princípio, gerar o suficiente para garantir que não terá rupturas de tesouraria. Porém, considero que olhar para apenas para o EBITDA, num negócio onde as amortizações por vezes conduzem à perda total do investimento nos passes dos jogadores e as imparidades são algo frequentes, é uma análise demasiado redutora.


Perante este quadro concerteza que estarão já os leitores a pensar, mas com valores tão positivos em termos de EBITDA porque que é que só se acentuam os pontos negativos na gestão ? Será que temos que ver sempre tudo pelo lado negro ? Não. Mas há riscos substanciais que têm que ser atacados para que não caminhemos no sentido de Porto e Sporting vão desgovernando as suas SADs.

O Benfica conseguiu em 2011-12 um nível recorde de proveitos operacionais, sem incluir as operações com passes de jogadores, cerca de 91 milhões de euros. É certo que os proveitos originados pelo desempenho desportivo na Champions foram essencialmente responsáveis pelo crescimento face à época anterior.

Proveitos Operacionais excluindo operações com passes de jogadores, deduzidos dos prémios das competições europeias:

2010-11 - 68,801 M€
2011-12 - 68,740 M€

Quer isto dizer que apesar da crise que se agravou durante a época de 2011-12, quer através da subida do desemprego, quer através de medidas que limitaram o rendimento disponível das famílias e empresas, em termos de receitas operacionais o Benfica conseguiu manter o mesmo nível de receitas, o que faz supor que em condições normais, sem recessão, o Benfica conseguiria aumentar o seu nível de receitas em pelo menos 5 a 6 %.

O problema é que mesmo que o Benfica consiga um desempenho na Champions similar ao da época passada, o que neste momento se afigura muito difícil, os prémios da Champions vão diminuir, quer porque o Braga também entra no Market-pool, quer porque o Benfica já não terá os prémios relativos aos jogos de acesso à Champions, quer mesmo porque não terá também esses jogos e as correspondentes receitas. Mas não só, as receitas de quotização e bilheteira estão em queda, bem como os valores relativos a cativos e corporate.

Só por curiosidade, se a 30 de Junho de 2012 o Benfica tinha 223.710 sócios, dos quais 201.160 pagantes, como é que se entendem as afirmações do Presidente em Outubro que com a inscrição da sua neta, o Benfica tinha ultrapassado os 250.000 sócios ? Sim, porque dum ano para o outro o Benfica apenas aumentou pouco mais de 7.000 sócios.


Não querendo ser muito pessimista e assumindo que o Benfica conseguiria na Europa um desempenho ao nível de 2010-11, penso que será possível limitar a queda dos proveitos operacionais, sem operações com passes de jogadores, para os 75 milhões de euros. Atenção que este valor pressupõe que não existirão antecipações de receitas, nomeadamente de âmbito ligado às transmissões televisivas. Pressupõe ainda que não existirá assinatura de contrato relativo ao Naming do Estádio, pois penso que seja possível conseguir entre 5 e 7,5 milhões de euros anuais por esta operação.

Se por um lado os proveitos operacionais sem operações com passes de jogadores apresentam uma tendência para cair, por outro lado as operações com passes de jogadores. que na época 2011-12 tiveram um resultado negativo de 2,431 milhões de euros, irão apresentar um resultado muito positivo com a inclusão das operações relativas às alienações dos passes do Javi Garcia e do Alex Witsel.

Não tenho ideia de quanto será o valor positivo relativo a estas duas operações porque existiram notícias que o Benfica não teria a totalidade do passe do belga. Se anteriormente não acreditaria nestas notícias, tendo em conta o que atrás mencionei relativamente ao Nelson Oliveira, actualmente limito-me a aguardar pelos R&C para poder comprovar da veracidade ou não dessas notícias.

A terminar, pois o post já vai novamente longo, quero só alertar para que as despesas com pessoal têm crescido a um ritmo impressionante nestes últimos 3 anos:


Época 2009-10 Custos com Pessoal  38,263 M€
Época 2010-11 Custos com Pessoal  42,343 M€ 
Época 2011-12 Custos com Pessoal  48,130 M€

Em três épocas os custos com pessoal cresceram mais de 25%.

Juntamente com o crescimento dos custos financeiros, o crescimento dos custos com o pessoal é o aspecto mais preocupante do actual modelo de gestão. E é tão mais preocupante quanto as condições externas são particularmente adversas no que diz respeito ao rendimento disponível das famílias e empresas em Portugal. Neste sentido, já anteriormente apontei a internacionalização como caminho possível para obviar à queda de receitas do mercado interno, mas considero que acima de tudo é do lado da despesa que temos que actuar, à semelhança do país, seja pela renegociação e/ou amortização dos empréstimos obtidos em detrimento de investimentos na equipa de futebol, seja pela contenção nos custos com o pessoal


PS - Acabei de receber um email relativo ao Benfica-Olhanense onde se propõe o acesso ao estádio a 2 adultos e 2 crianças por 25 euros. Volto ao que disse anteriormente, as más decisões de gestão estratégica, levam a péssimas decisões de gestão corrente.