sexta-feira, 11 de março de 2011

Não há milagres

Muitos justificarão a má primeira parte do Benfica com questões mentais, defendendo a tese de que a equipa entrou com falta de motivação/confiança pela derrota anterior. É uma falsa questão.
O Benfica não entrou mal no jogo por estar abalado do ponto de vista anímico - aliás, esta equipa é muito forte nesse aspecto, basta ver a forma como acaba os jogos, dando a volta 4 vezes consecutivas a situações de desvantagem, conseguindo mesmo marcar o golo da vitória nos últimos minutos nos 4 jogos. Em termos mentais, a única justificação possível - embora me pareça pouco provável - será analisar a atitude dos jogadores por uma hiper-confiança, dada pelas 18 vitórias consecutivas ou pelo bluff feito pelos franceses, dizendo que a Liga Europa não seria uma prioridade - neste aspecto, não me parece provável porque não concebo a ideia de que o Jesus não sabe passar uma mensagem de humildade aos seus jogadores numa fase tão adiantada de um prova desta qualidade e com adversários, todos eles, de comprovada valia.
Falar-se em aspectos mentais neste jogo é fugir aos problemas que esta equipa apresenta nesta fase da época: tácticos e físicos. Os primeiros não são novidade para quem olha para o jogo não apenas do ponto de vista do adepto mas com uns pozinhos mais de racionalidade. E, nesse sentido, não há milagres. Ninguém pode esperar que o Benfica perca um dos melhores centrais do Mundo, fundamental no processo defensivo e ofensivo da equipa, receba uns milhões e mantenha a qualidade que tinha. Só o adepto apaixonado, claro, que gosta de ver o Benfica receber dinheiro e olha para os primeiros jogos do Sidnei como a prova de que, afinal, a venda do David Luiz foi um verdadeiro oásis para os cofres e prestação desportiva da equipa (a sondagem que fizemos é clara nesse aspecto: os adeptos do Benfica acham que foi uma boa venda, tanto do ponto de vista financeiro quanto desportivo). Mas não foi. A integração do Sidnei no onze titular traz problemas a uma equipa que, pela forma como joga, já tinha alguns. E esse facto influencia não só a prestação do Sidnei, como de toda a equipa, especialmente a do seu companheiro do lado, Luisão. É que o Benfica joga subido no terreno, procurando compactar ao máximo a equipa no menor espaço de terreno possível, de forma a que, primeiro, o pressing exercido seja feito de forma consistente e eficaz, recuperando o mais rapidamente a bola e, segundo, para que seja sempre criada a armadilha do fora-de-jogo, sempre que o adversário se aventura nas costas da nossa defesa. Ora, para jogar assim, são precisas algumas premissas: ter um central veloz (aqui, veloz não é só ser rápido, é ser rapidamente reactivo, responder bem e rápido a uma situação inesperada), que colmate alguma falha na formação da linha defensiva, deixando o adversário em posição legal nas costas da defesa; intenso na forma como pressiona o adversário sempre que a linha do meio-campo é ultrapassada - no Benfica, quando em transição defensiva, muitas vezes o pressing é feito por um dos centrais, ao contrário de outras que optam por preencher o meio-campo central com mais jogadores para que os centrais não sejam sujeitos a essa função; e, por último, capaz de interpretar de forma perfeita a linha defensiva. Ora, Sidnei tem problemas nestes três aspectos: não é veloz nem reactivo (vejam-se os golos do Estugarda e do Braga, o segundo), não é intenso a pressionar (veja-se o golo do PSG) e muitas vezes (demasiadas) "esquece" a obrigatoriedade de jogar em linha, baixando mais e pondo a estratégia em causa, deixando jogadores em posição legal, o que se torna suicidário quando do outro lado está uma equipa competente em posse, inteligente a explorar espaços e rápida a sair em contra-ataque. Não há milagres. A saída do David Luiz, como escrevi na altura, pôs em causa de forma séria os ojectivos da época. Até pode acontecer que o Benfica consiga atingi-los mas não será por não os ter posto em causa; será por uma adaptação do jogo ao central com outras características que tem (e que influenciará a forma como a equipa joga), por sorte (como teve na primeira parte de ontem) ou por um Roberto inspirado (como teve ontem). Só que estas coisas, a médio prazo e com adversários de maior valia, não acontecem sempre. Esperemos, portanto, por um toque divino.
Do ponto de vista físico, são notórias as quebras. Gaitán muito destacado, o que faz com que acentue as deficiências gritantes que sempre revelou ao longo da época: alheamento do compromisso defensivo, perdas de bola em zonas proibidas e displicência na forma como aborda os lances divididos. Salvio, que ainda assim é muito mais competente nessas funções que Gaitán, devido ao menor fulgor físico, também começa a dar sinais de menor consistência defensiva, que ontem só foi colmatada pelo jogo absolutamente perfeito do Maxi Pereira - a todos os níveis exigíveis a um jogador de futebol num jogo, o Maxi esteve notável. Coentrão, que além de se notar alguma quebra, tem ainda à sua frente um jogador que não o auxilia, o que torna a sua prestação duplamente mais díficil e que, ainda assim, conseguiu ser de qualidade. E, por fim, Cardozo, que se geralmente não é muito intenso a pressionar, quando em quebra física acaba a fazer um pressing individual, sem quaisquer benefícios para a equipa porque deslocado da organização colectiva: faz uns sprints sem nexo, desiste, volta a ir atrás de um jogador, sai da sua posição, volta ao meio-campo, enfim, um caos na forma como se integra no movimento defensivo da equipa. Salvam-se a alma que esta equipa claramente tem e a qualidade individual que vai escondendo muitas deficiências.

Se esta última, a questão física, é recuperável, bastando ter um plano eficaz de recuperação para os jogadores em quebra e dar-lhes descanso no Domingo, a segunda, a táctica, não se prevê tão simples. É necessário alertar o Sidnei para uma maior concentração e treiná-lo à exaustão para aquela que é a forma de jogar do Benfica. Algumas características não estão lá e não estarão, mas a motivação, o treino, o repetir de processos poderão, pelo menos, torná-lo mais apto à função que ocupa.

Mas não há milagres. O Benfica é menos equipa depois da saída do David Luiz. O que nos leva à questão invisível, a questão da estratégia. Após uma péssima planificação da época, o que foi feito em Janeiro prova que no Benfica a lição não foi aprendida. A venda do central brasileiro é claramente um tiro nos pés como o foi, sabendo da indisponibilidade de Amorim até final do ano, a não contratação de um médio mais posicional. E agora, temos o esperado: os alas rebentados, os médios criativos a pinças e um Javi que começa a chegar à zona vermelha. Soluções? Airton, para Javi. Peixoto para alguns jogos. E mais nada. É capaz de ser pouco para uma equipa que quer ganhar a Liga Europa.

4 comentários:

Carlos Alberto disse...

Ó porra. Há coisa que me deixam fodido e esta é uma delas.

O Sidnei faz 12 jogos 5 estrelas, leva com uma bolada nos cornos que o deixa atordoado durante 30 minutos e já é um ZERO À ESQUERDA?

Ricardo disse...

Carlos, não te mando para o caralho porque és um homem decente e comentas sempre com educação.

Portanto prefiro deixar uma pergunta:

Qual foi a parte do texto em que eu disse que o Sidnei é um "ZERO À ESQUERDA"?

low desert puke disse...

Ricardo e demais compadres benfiquistas:

http://www.marca.com/2011/03/09/futbol/futbol_internacional/1299693335.html?a=4d1c8105d508edf690afacb81082de9e&t=1299853193

Ricardo disse...

Belo texto, Low. É Benfica.