sexta-feira, 19 de junho de 2015

Não Matem o Futebol


O Futebol moderno caminha cada vez mais para o vazio emotivo.
São poucos os que ainda se permitem a comentar este desporto sem a superficialidade de visão de um Clube enquanto Empresa.

Clubes não são empresas.

Já basta termos os dirigentes, os empresários, os fundos e muitos outros profissionais a ver o Futebol como um fenómeno empresarial, os adeptos como clientes e os jogadores como activos.

Agora também os adeptos caiem nesta superficialidade. Cada vez mais parece não ser permitido ao adepto sentir e são os próprios que impões esta proibição, inspirados numa cultura que vem dos porta vozes de outros interesses.

Hoje um adepto não pode sentir uma derrota ou um mau jogo do seu clube. Não pode ficar irritado e vociferar aquilo que o chateou. Não. Hoje o adepto tem de apoiar. Tem de se controlar e apoiar. Tem de confiar no trabalho dos profissionais do Clube. Ser uma voz de descontentamento e protesto é prejudicar o clube, os dirigentes, treinadores e jogadores.
Aliás, hoje a sua equipa não joga bem ou mal. Hoje a sua equipa joga com nota artística ou de forma pragmática.

Hoje um adepto não se pode sentir traído por saídas de treinadores ou jogadores. Muito menos se forem para clubes rivais. O adepto não se pode revoltar com essas situações. Por vários motivos: porque isto é o Futebol (é?), porque o clube é maior que qualquer um (ou que todos juntos) e porque só interessa quem cá fica.
Até pode ser tudo verdade mas e o sentimento? E a emoção?

Hoje um adepto não pode idolatrar jogadores, não pode valorizar aqueles minutos futuros em que irá ver certos craques a envergar o manto sagrado do seu clube. Hoje o que importa são os milhões. Hoje não se pode idolatrar ao ponto de se afirmar "Nem por todo o dinheiro do mundo!”. Não. Hoje é tudo à base dos valores de Mercado.

Uma proposta milionário por um jogador de 31 anos? A ordem é para se vender.
Onde está a paixão? Onde está a Mística? Onde está a magia de ver aquele craque brilhar com a bola envergando o nosso manto na nossa casa? Quem sabe quantificar o valor de tudo isto? Quem consegue ignorar estes valores?

Milhões, milhões e milhões.

Nem vou discutir o modo como esses milhões entram no clube. Nem vou discutir a percentagem que entra no clube. Nem vou discutir o como 10M hoje não são o que eram há 10 anos.

Quero sim discutir outros valores, os valores desportivos e emocionais.

Não temos de aceitar nem de gostar de qualquer venda que o valor, muitas vezes ligeiramente, a justifique.

Um jovem jogador que praticamente não jogou na equipa principal é vendido por 15M. Bons números. E o resto? Além do potencial de valorização, há o desaproveitamento desportivo, há a o prazer que nos é negado de ver tal jogador evoluir no nosso clube até chegar ao Estádio da Luz e brilhar perante e para todos nós.

Um experiente jogador chega ao clube e quase imediatamente se torna ídolo das bancadas. Pela sua personalidade, pela sua classe, pela sua qualidade e pelos seus golos.
Como é que podemos chegar ao final da época e aplaudir uma possível venda fosse por 10 ou por 15M?
Só interessam os milhões?

Nunca fui fã do Jorge Jesus. Apesar disso a sua saída para o Sporting incomodou-me. Foi uma facada nos muitos milhares de benfiquistas que o idolatravam e cantavam o seu nome. Não era seu admirador mas sou benfiquista e portanto também eu senti esta facada dada a milhares.
Nenhum jogador está acima do clube. Poucos são os que se imortalizam no Benfica. Mesmo assim, se for confirmada a ida do Maxi para o Porto, irei sentir mais esta facada. E esta bem mais funda.
20 Milhões pelo Jonas é imenso. Apesar disso cito os meus colegas de blog: “Por favor não vendam o Jonas”.

Sentir e sofrer fazem parte do crescimento e fortalecimento. Andar feito barata tonta a evitar a mágoa e a mudar de opinião conforme sopra o vento, é uma futilidade que não me interessa.

O Futebol é o que é devido ao sentimento dos adeptos. Muitos dirigentes querem superficializar o Futebol. Muitos dirigentes querem ignorar a importância deste sentimento.
O adepto não pode ir nessa cantiga.

Deixem-me sentir e... Sintam porra!


9 comentários:

Pinheirinho disse...

O futebol não está morto, está a morrer é verdade que sim, está bipolarizado.
são cada vez menos as pessoas que seguem o clube da terra, isso é que está a matar o futebol.
Não é o clube grande ou a fifa ou a uefa, ou isto ou aquilo, é o abandono a que se deixam os clubes da terra, abandono esse que sim mata o futebol.
o futebol e a paixão do mesmo nasceu nesses clubes da terra que agora definham em dividas e mais dividas, geridas por cabeças duras que vão mantendo os clubes de pé apenas pelo amor que têm ao mesmo.
talvez quem seja de Lisboa pense que isso não interessa, mas não é assim, é onde existe mais pessoas que se nota mais esse abandono.
Não são os clubes empresas ou os negócios ou a venda de jogadores ou as facadas nas costas ou mesmo a bipolarização do futebol na guerra Ronaldo/Messi na guerra Pes/Fifa.
Apoêm mais os clubes da terra, façam-se sócios, sofram a bem sofrer com um titulo distrital num escalão sub 10, ou uma bola ao poste num jogo entre equipas despromovidas que semana a semana deram o seu melhor.
Voltem ás origens do futebol, longe das televisões e ao tempo da rádio, do relato do rádio a pilhas num domingo à tarde enquanto se vê um jogo entre o Águias de Camarate contra o Águias da Musgueira que acaba 0 a 0 mas onde os jogadores deram tudo pelos 100 a 150 pessoas que estavam na bancada.
e isto já é muito, porque por norma 50 é já a melhor enchente da época!

Viva o futebol o puro, mas esse precisa de adeptos, de sócios de mais carolice e de cada vez mais participação da comunidade pois esse é o verdadeiro futebol e esse é que está a definhar e a morrer!!!

moleculasdeamor disse...

Claro que sinto, há 40 anos APAIXONADAMENTE! , e faz-me confusão o entreposto, sim faz-me...

moleculasdeamor disse...

O nosso problema é o nosso presidente, precisamos de um presidente que tenha dinheiro suficiente e que ame o Benfica e saiba muito de futebol, essa pessoa tem o nome de Rui Costa... Precisamos de alterar os estatutos para que o candidato possa ter no mínimo 35 anos. Lancem lá esse pedido de alteração de estatutos...

FineCut disse...

Tudo verdade e, analisando apenas os "valores" desportivos e emocionais, revejo-me em praticamente tudo o que foi escrito.

Mas os outros valores, chatos e mensuráveis, em última análise, e no mundo de hoje, sobrepõem-se.

E ser adepto é perceber esta realidade e entender que temos de conviver com a constante esgrima entre a razão e a emoção se quisermos continuar vitoriosos.

Não acrescentei nada, só clichés, bem sei, mas foi o que saiu.
De qq forma, parabéns pelo texto.

Antagonista disse...

Este futebol não é para românticos.

Daniel Oliveira disse...

Pinheirinho,

Essa é uma batalha já há muito perdida.

Só a Liga pode fazer por isso mas além de não ter dinheiro para tal também não está interessada.

Daniel Oliveira disse...

moleculasdeamor,

Já esperei mais do Rui Costa. Um idolo da torcida que se retira nos braços nos adeptos e que se junta com toda à direcção com toda a atenção e esperanças de todos nós, rapidamente desapareceu do radar e passou a ser só mais um nome que para lá anda.

Os estatutos do clube estão bizarros (as últimas alterações digo). Na última AG um sócio abordou ao de leve essa situação. Levou uma resposta indirecta do Gaioso, um leve "Está provado nestas votações a democracia deste clube".

Daniel Oliveira disse...

Antagonista,

O romantismo faz muito falta ao Futebol.

Daniel Oliveira disse...

FineCut,

Não tirei valor aos outros valores, aos milhões, ao Mercado.
São valores importantes mas não são os únicos valores.
Há outros valores, os desportivos e emocionais, e esses têm sido esquecidos e quis com este texto relembrá-los aos muitos que já os ignoram.

Principalmente os adeptos têm de dar importância à parte emocional e desportiva, os adeptos é que nunca podem esquecer esta vertente do viver o clube.