sábado, 2 de janeiro de 2016

DANÇA E FUTEBOL: A COREOGRAFIA DE UM ATAQUE MÓVEL


No relvado ficam marcas invisíveis da movimentação dos jogadores; parábolas,  diagonais, círculos quase perfeitos, gráficos cardíacos, sprints em linha recta paralelos à lateral. Se, em vez de preferir ouvir a voz dos jogadores ou o som que as gotas de água fazem quando embatem na garganta de Rui Vitória, o adepto escolher um lugar mais alto, com melhor vista, mais abrangente paisagem, vai então ficar atento à dança colectiva e individual que o jogo lhe proporciona.



O futebol é dança.  Cada vez mais uma dança moderna, sem pontos fixos nem posições a que fiquem agrilhoados os jogadores. O jogo evoluiu para um espaço de liberdade de que já não sairá, exceptuando quando é pensado e treinado por quem ainda pensa que a dança só faz sentido se o palco tiver marcações a anunciar aos bailarinos o lugar onde devem estar em determinado momento.  Isto não significa que não haja indicação de zonas estáveis por onde começar o bailado, locais vastos de onde se parte para que a sequência seja feita toda ela livre de quaisquer amarras posicionais. O jogo pede áreas longas e largas, referências apenas zonais para favorecer o colectivo, povoar o espaço inimigo em estratégia inesperada.

Na última edição do Jornal de Letras, lemos Daniel Tércio versar sobre dança enquanto traça, sem o saber, o futuro do ataque móvel no futebol: 《Mas o que importa neste caso – e esta a razão deste texto – é que Cunningham, em meados do século XX, adoptou a epígrafe de Einstein “não existem pontos fixos no espaço”. O coreógrafo norte-americano declarou aliás a este respeito: “eu decidi abrir o espaço para o considerar por igual, em qualquer lugar, ocupado ou não,  tão importante como qualquer outro. Num tal contexto não temos que nos referir a um ponto preciso no espaço. Se não existem pontos fixos, então cada um dos pontos é igualmente interessante e igualmente mutável.” Segue discorrendo Tércio sobre a importância da mobilidade livre: “Com Cunningham algo de novo acontece, uma vez que uma sequência não tem que estar condicionada a outra, podendo tudo ser constantemente deslocado, tornando o movimento contínuo.”



O jogo há muito vem dando esta lição evolutiva.  Grandes equipas com grandes treinadores têm testado e voltado a testar com sucesso a possibilidade de uma utopia realizável. De um lugar de ultra liberdade. Nesse espaço em que a primazia vai inteira para a qualidade de movimentação,  para a criatividade individual e colectiva, para a inteligência com que se enfrenta o adversário, características físicas perdem a sua importância e dão lugar ao que verdadeiramente valoriza o bom futebol: cérebros craques em vez de caparrudos “agressivos” e “muito intensos”. Na mobilidade de um futebol sem pontos fixos, o central pode ser um anão, o extremo só ter uma perna, o avançado não ter força para rematar, o médio sofrer de reumatismo. Fundamental é que o treinador seja intenso e agressivo a pensar.

1 comentário:

Henrique Ponte da Luz disse...

Muito bonito Ricardo.
Talvez um dos teus melhores textos, entre muitos, tirando os Werther-Benfiquistas.
De facto o paradxo actual de RV (Chama-se insuficiência de um Ser Humano em suportar a dúvida em si próprio mais a de 6 milhões+11-1ou2 em consciência 24h por dia) faz-nos facilmente entrar em geometrização dramático-cénica.
Não pode ser assim tão mau a esquematizar futebol. Não pode. Percebem? Isto é alguém que está em estado de catatonismo à espera que o céu caia em cima da cabeça.
Apesar de tudo há qualquer resquício de sentido de garra que nos faz ganhar em campos nos que o Divino tremia que metia nojo!
É São Jonas, a ter vir fazer jogo atrás do meio-campo e putos-a-cuspos que andam com aquilo às trancas, que não há ninguém a inspirar (respirar) confiança.(ainda hoje fiz referencia a isso no mágico reportando ao ontem vi-te) Nem Nós.
Refiro mesmo assim, que o Benfica foi a equipa que melhor futebol praticou em Outubro/Novembro andes do enxovalho desmoralizante.
Bom 2016 em lindo-vermelho!