terça-feira, 15 de março de 2016

A BOLA É MINHA

https://www.youtube.com/watch?v=6d7TZlbReAE

 CRÓNICA EM TORNO DO SEGUNDO GOLO DO BENFICA-TONDELA

A história deste golo já foi amplamente contada. Em imagens, com ou sem relatos, e até por posts e mensagens.

Mas, para mim, há um momento particularmente nostálgico, e muito bonito, que é digno, pelo menos, de referência. E apetece-me honrá-lo.

Uma grande jogada de entendimento, quase toda ao primeiro toque, é sempre memorável. Sobretudo quando culmina em golo.

Pizzi dirige-se para a baliza, depois do remate de jonas. Ainda estica o dedo, para o passe, mas Jonas marca, magistral. A bola bate nas redes pouco depois de Pizzi passar a linha da grande área, e este, ao aperceber-se do golo, abre os braços em voo de festejo. Mas continua a correr para a baliza!?! Já era golo! Estava feito o 2-0 e até se antevia uma possível goleada. Não havia pressa nenhuma para repor a bola em jogo. E, no entanto, ele agarra a bola em acto quase solene, e mete-a debaixo do braço. E é-me tão familiar, este abraço. Corre depois para Gaitan, aliás, todos correm para Gaitan, como se soubessem que esteve ali o centro de gravidade daquele momento mágico. Reconheceram-lhe automaticamente, e de imediato, o mérito de orquestrador-mor nesta obra prima. E agora são todos putos, a jogar futebol de rua.
Era assim, quando estávamos dentro de um jogo. Percebíamos praticamente todas as nuances, e os protagonistas dos momentos especiais ficavam identificados quase instintivamente. Pizzi foi aquele que ficou encarregue de trazer a bola abraçada, para fazer parte dos festejos.

A bola é uma coisa muito importante, quando se ama o jogo. Este amor pelo objecto é um amor puro, muito bonito, que nada tem a ver com o dinheiro. Era assim que jogávamos à bola, quando éramos putos. Num qualquer quintal, num passeio, nos mil campos improvisados algures pelos recreios de todas as escolas.

A bola é muito importante, e só quem a joga é que sabe muito bem disso. Adoramos também o objecto, não apenas pela sua utilidade, mas por todo o significado. Lembro-me de dormir agarrado à minha “bola de cautchu”, quando era novinha em folha. No dia seguinte, enquanto combinávamos o jogo de domingo de manhã, o meu amigo Tiago perguntou quem é que trazia a bola. Adiantei-me imediatamente. “E é de cautchu?”, perguntaram-me, quase em uníssono. “Sim, é de Cautchu. E é novinha!”, respondi, orgulhoso. Sabia que, depois do jogo, já não poderia dormir mais com ela. Mas uma bola sem uso é pouco mais do que a hipótese de um sonho. É precisamente depois do primeiro uso que a bola ganha toda a transcendência essencial. Riscos e sujidade, marcas de vários percursos que oscilam entre a tristeza e a glória, momentos gravados à lei do chuto. Com essas inscrições colectivas, deixava de ser só minha e passava  ser de todos. E era mesmo assim, suja e estafada, que, depois de um golo, vinha enrolada debaixo de um dos nossos braços, resgatada do "fundo" de uma qualquer baliza improvisada, para festejarmos todos com o Nico do momento.

3 comentários:

moleculasdeamor disse...

"A bola é uma coisa muito importante, quando se ama o jogo. Este amor pelo objecto é um amor puro, muito bonito, que nada tem a ver com o dinheiro. Era assim que jogávamos à bola, quando éramos putos. Num qualquer quintal, num passeio, nos mil campos improvisados algures pelos recreios de todas as escolas."

NÃO TEM NADA A VER COM O DINHEIRO, é pura alegria viva!

pedro disse...

extaordinário texto

amar o futebol é isto, ontem foi isto na altura nem me apercebi

obrigado

paulo gonçalves disse...

Soberbo texto! Um alegre regresso á minha muito feliz infancia!