Este é o primeiro de uma série de posts em que se abordarão factos relativos à gestão do Benfica nos últimos anos. Os números apresentados serão essencialmente baseados nos Relatórios e Contas da SLB SAD, que estão disponíveis na internet para quem os quiser consultar.
O Balanço de uma sociedade é constituída por activos e passivos, sendo a diferença os capitais próprios da sociedade.
Os activos são os recursos que a sociedade controla, resultado da actividade passada e com os quais se espera que possam trazer benefícios económicos à sociedade.
Ao invés, os passivos são as obrigações com que a sociedade se comprometeu no passado e que terão que ser liquidadas.
Os capitais próprios de uma sociedade são o remanescente dos activos depois de deduzir todos os passivos, ou seja reflectem portanto a riqueza dessa mesma sociedade, quer a inicial* (capital social) quer a adquirida (reservas/resultados transitados).
*-o capital social pode ser diferente da riqueza inicial se existirem operações de aumento ou de diminuição do capital social.
Estes valores referem-se unicamente à SLB SAD e não incluem os valores consolidados das outras empresas do Grupo Benfica. A opção de utilizar os valores individuais para o gráfico tem a ver com a coerência dos dados, visto não fazer sentido comparar realidades diferentes.
Os valores demonstram claramente uma subida de activos e passivos, mas em que os últimos têm crescido mais que os activos, o que originou a situação de capitais próprios negativos no final da época 2008-09 e novamente em 2011-12.
Perante esta situação, optou-se em 2009 pela reestruturação do grupo, com a integração da Benfica Estádio na Benfica SAD, o que implicou um aumento significativo do capital social (de 75 para 115 milhões de euros), dos activos e dos passivos da Benfica SAD, como se comprova no gráfico, voltando os captais próprios a serem positivos (apesar de ter sido mais um exercício com resultados líquidos negativos como adiante verificaremos).
Em termos de diferenças entre os valores consolidados e individuais da Benfica SAD, abaixo apresentamos a comparação da evolução dos activos, dos passivos e dos capitais próprios.
Conforme se pode verificar pela comparação no gráfico anterior, após a reestruturação do Grupo Benfica, os activos da Benfica SAD subiram de 167 milhões de euros em 2009 para 334 milhões de euros em 2010. Com a inclusão das outras empresas no perímetro de consolidação, devemos também olhar para o valor consolidado dos activos da Benfica SAD quando analisamos a realidade do Benfica.
À semelhança dos activos, também os passivos da Benfica SAD tiveram um aumento significativo de 179 milhões de euros em 2009 para 326 milhões de euros em 2010.
Aqui optou-se pela apresentação dos valores com 3 casas decimais para que se tivesse uma noção mais aproximada das variações. Conforme foi referido, após a reestruturação do Grupo Benfica, os capitais próprios saíram da situação negativa de quase 12 milhões de euros para uma situação positiva de quase 8 milhões de euros. No entanto e com o continuar da acumulação de resultados líquidos negativos, em 2012 os capitais próprios da SAD voltaram à situação negativa de 2009.
Quer isto dizer que a SAD voltou à situação de falência técnica? Sim e não. Sim porque em termos do Código das Sociedades Comerciais (artigo 35.º), quando os capitais próprios de uma sociedade são negativos esta está em falência técnica. No entanto, existe uma reserva de valor que não está reflectida nos activos da SAD.
Em termos de balanço, o plantel da Benfica SAD a 30-06-2012 estava avaliado em 92 milhões de euros, embora este valor não reflicta o valor total dado que algumas parcelas de passes estão alienadas ao Benfica Stars Fund (BSF). O BSF indica que o valor dos jogadores em carteira a essa data era de 16,8 milhões de euros, ou seja, em termos contabilísticos, o valor líquido do plantel do Benfica rondaria os 109 milhões de euros. Consultando sites internacionais sobre transferências de jogadores e avaliações de passes, facilmente obteríamos uma valorização do plantel superior a 200 milhões de euros a 30 de Junho de 2012, pelo que a situação de falência técnica na verdade era meramente teórica.
No entanto e fazendo o paralelismo com o Sporting, quando uma SAD necessita de vender os seus activos para realizar dinheiro, os valores que obterá pelos passes de jogadores serão sempre abaixo dos valores de mercado, à semelhança de quem passa por dificuldades financeiras e precisa de vender parte do seu património com urgência para arranjar dinheiro também nunca conseguirá obter o justo valor pelo património vendido, dada a necessidade de liquidez.
Os valores das massas patrimoniais são valores acumulados; isto é, resultam dos resultados de todos os anos anteriores. Fazendo o paralelismo com o país, é o mesmo que estarmos a falar da dívida pública. Para chegar a estes valores devemos então perceber como têm sido os resultados anuais, resultados estes que em termos do país corresponderiam aos valores do défice.
Durante um exercício há receitas e despesas que são classificados em proveitos e custos. Se os proveitos superarem os custos temos um resultado líquido positivo, ou seja a sociedade terá tido lucro; caso contrário, teremos um resultado líquido negativo, isto é, a sociedade durante um ano terá perdido parte da sua riqueza.
Conforme referido anteriormente as fontes dos dados são os Relatórios & Contas Anuais da SLB SAD. Os valores do quadro estão em milhares de euros; os do gráfico, como legendado, em milhões.
Os números dos três mandatos de LFV são inequívocos, nas primeiras três épocas, 2003-06, somou um prejuízo de 15 milhões de euros que foram compensados na época de 2006-07, em que o lucro atingiu os 15 milhões de euros. A seguir seguiu-se uma época relativamente equilibrada, 2007-08, onde apresentou um lucro residual e desde aí soma quatro épocas de prejuízos constantes, tendo ultrapassando os 73 milhões de euros de prejuízo acumulado nessas 4 épocas.
Estes 73 milhões de euros renderam 1 Campeonato e 4 Taças da Liga, enquanto os 15 milhões de euros de prejuízo entre 2003 e 2006 tinham rendido 1 Campeonato, 1 Taça de Portugal e 1 Supertaça mas na altura não existia a Taça da Liga.
Quais as causas para este acumular de prejuízos?
Um fenómeno que tem concorrido para este agravar de resultados são os custos financeiros originados por um passivo oneroso crescente, ou seja, o valor do conjunto de empréstimos bancários e obrigacionistas que a SLB SAD e restantes empresas do Grupo Benfica contraíram tem aumentado apesar do que foi afirmado em campanha pelo Administrador Financeiro.
Os números aqui apresentados reflectem unicamente os valores individuais da Benfica SAD e não os valores agregados do Grupo Benfica.
Na verdade, antes de Luis Filipe Vieira assumir a presidência do Benfica, o endividamento bancário, lato senso, rondava os 25 milhões de euros em 2003 e cresceu até aos 95 milhões de euros em 2007. Em Janeiro de 2008, com uma reestruturação do Project Finance do estádio, a Benfica SAD liquidou 48 milhões de euros à banca.
Se olharmos aos números, o impacto da reestruturação do Grupo Benfica que ocorreu durante a época 2009-10 foi menor do que a decisão de endividamento para obter resultados desportivos que foi tomada na época anterior:
"Por último, há que referir que este aumento do endividamento está relacionado com a necessidade da Sociedade em investir com o intuito de obter resultados num futuro próximo, sendo de destacar que as instituições bancárias continuam a acreditar e a apoiar a estratégia da Benfica SAD através da criação de condições que têm permitido à Sociedade financiar a sua actividade." - in RELATÓRIO & CONTAS 2008/2009 - Benfica SAD
Esta foi uma política seguida pela Benfica SAD não só na época 2008/09, mas também nas recentes épocas; caso contrário, o passivo "bancário" não teria crescido mais 62 milhões de euros entre 2010 e 2012.
Relativamente ao Centro de Estágio e apesar do empréstimo do mesmo estar incluído nas contas individuais da Benfica SAD, a verdade é que a dívida passou de 15,368 em 2009 para 11,307 milhões de euros em 2012. Já quanto à Benfica Estádio - onde se concentram os financiamentos -, o valor dos empréstimos desceu dos 78,937 milhões de euros em 2010 para os 69,031 milhões de euros em 2012.
Existe pois um endividamento que é explicado pelos investimentos anteriores em infra-estruturas físicas, Estádio e Centro de Estágio, mas não são estes que explicam o crescimento do endividamento bancário nos últimos anos, ao contrário da ideia que tem sido vendida, pois os seus valores estão a diminuir ao contrário do endividamento da SAD.
Quais as razões para este crescimento do endividamento? Há várias e pretendemos explorar nos próximos posts. No entanto, o essencial a realçar é que apesar de tudo o que tem sido dito e escrito, a gestão de Luís Filipe Vieira, em especial nos últimos 4 anos, somou prejuízos e aumentou o endividamento bancário sem que o mesmo tenha sido originado pelos investimentos nas infra-estruturas desportivas.