sábado, 22 de março de 2014

Pedro, o Grande...


Era o futebol o seu fiel companheiro naqueles primeiros dias longe de casa. O futebol era, naqueles dias, a sua casa, a sua Pátria, o seu refúgio. Tal como a Vouzelense, que havia de se revelar um lar, um ponto de encontro, um esteio fundamental na sua sobrevivência em terras Africanas. No tradicional restaurante, aliás, era já conhecido como “o Benfiquista”. Era ali que via os jogos do Glorioso e era ali que, a cada jogo contava menos um que veria sem a sua filha, sentindo mais próximo o dia em que voltaria a sentar-se ao lado de Luísa torcendo com ela pelo Benfica, por Gaitán, Rodrigo, Ruben Amorim, Enzo e Cardozo. Era verdade. O futebol aproximava, o futebol unia apesar de tudo, apesar da distância. Mais ainda neste país feito de informalidade e de diáspora, nesta terra aberta e quente, apaixonante e impiedosa. E foi precisamente ali na esquina da Rua Garcia Neto que, depois de cumprir a rotina sentando-se distraidamente na mesa dos Tugas, saltou incrédulo quando, olhando em frente, percebeu que era Mantorras o seu companheiro de almoço. Sim, Pedro Mantorras, o mágico Pedro Mantorras, o mítico Pedro Mantorras, aquele por quem tantas vezes havia clamado em desespero, aquele a quem tantas vezes havia agradecido um qualquer golo salvador. Aquele que ensinou, ainda crianças, Kiko e Luisa a venerarem irracionalmente. Sim, era ele que ali estava, conversando alegremente, falando sem pejo da sua vida, das decepções, das alegrias. Dos filhos e do casamento. Da sua casa e de futebol. Do Benfica e do Alverca, de Vieira, Veloso, Jesualdo ou William Carvalho. E de si, também, falando de si com uma humildade tocante e comovente. Anos antes tinha sentido algo semelhante ao ouvir a confissão de Maradona a Emir Kusturica, interrogando-se sobre que jogador teria sido se não fosse a cocaína. De Mantorras não ouvi um lamento sequer sobre as lesões, ou sobre o fim prematuro da carreira. Ouvi apenas a interrogação sobre que jogador teria sido se tivesse tido ali à mão uma escolinha de futebol, se não tivesse sido apenas um puto talentoso de Sambizanga que chegou tarde ao futebol.  Seria grande, certamente. Mas não maior do que foi nos relvados ou no banco da Luz. Não maior do que foi ontem, naquela mesa de canto da Vouzelense. Ou no coração de todos os Benfiquistas.



2 comentários:

Ricardo disse...

Excelente, Pedro. Maravilhosa e merecida homenagem ao outro Pedro, o inesquecível Mantorras.

Um abraço da Arrábida para Angola. Hoje há mais uma vitória a conquistar!

cronicasurbanas disse...

Que história bacana, Pedro! Como você disse, eu não sou muito ligada a futebol mas olha, eu adoro uma boa história! Essas pequenas delicadezas do dia-a-dia eu acho uma delícia vivenciar, e depois sair contando... Por favor, não pare! :)
Bj