quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Dá-me um bigode, mister Vitória!





Serei um mau benfiquista, provavelmente nem terei direito a ir ao Marquês caso sejamos campeões,  talvez até mereça que a Direcção me expulse de sócio, mas não posso fugir à minha percepcão das coisas: continuo a achar Rui Vitória um fraco treinador e a ver demasiadas fragilidades colectivas que as individualidades vão disfarçando em jogos contra equipas mais vulneráveis.

Não nos equivoquemos, não sou daqueles que não vêem mérito nenhum no nosso mister. Concedo-lhe algumas virtudes: é claramente um tipo de líder que procura criar um ambiente familiar no balneário (é evidente a empatia entre os jogadores; é óbvio o espírito solidário); tem um discurso sereno e lúcido, o que faz transmitir à equipa uma noção de confiança e segurança no trabalho realizado (os histéricos é que, por fraqueza, precisam de estar constantemente a criar polémicas); com algumas deficiências no plantel - culpa, mais uma vez, de uma Direcção que não cumpre o que promete -, soube encontrar as melhores soluções disponíveis, sendo o expoente máximo dessa sagacidade as apostas sem hesitações em Renato Sanches, Semedo e Guedes e a criatividade na solução de colocar Pizzi como interior direito.

Porém, estas são virtudes que, a meu ver, não superam os defeitos, o maior de todos o de construir um modelo frágil, com uma proposta defensiva, em organização mas sobretudo em transição, que é vulnerável porque se expõe demasiado ao risco. Repare-se que a reacção à perda no miolo (fruto da tal perigosa exposição que advém dos movimentos de Sanches, deixando constantes crateras entregues ao médio defensivo) é quase sempre errática e errada, não havendo uma movimentação coerente - tanto sobem o médio e um central,  baixando o outro central e os laterais como baixam do lado da bola e sobem do lado contrário, expondo a linha defensiva a um caos que não raras vezes potencia o perigo adversário. A pressão é feita de modo volátil, parecendo que a ideia é responsabilizar o jogador mais perto da bola a pressionar individualmente.  Não se vê um movimento de pressão ajustada e colectiva,  não se vislumbra uma ideia de usar a pressão para forçar o adversário a seguir pelos caminhos que nos favorecem a recuperação. As bolas paradas defensivas são pouco eficazes, tendo gerado já várias situações de perigo e/ou golo. Uma equipa organizada, com bons conceitos colectivos, com um bom treinador, saberá aproveitar tantas estradas para a nossa baliza.

Mas nem tudo é mau. Tenho boas noticias: há em mim uma esperança em Rui Vitória. Quero, com todas as forças, começar a ter de assumir que estava errado quando achei má a escolha de Vieira. E, para isso, quero que o mister me prove já na Sexta que afinal todos estes defeitos que eu vejo no seu modelo não passam de alucinações. Vitória tem no jogo com o Porto o seu grande teste, a sua oportunidade de brilhar, o palco perfeito para demonstrar que é capaz de superar uma equipa que, apesar de estar desfeita emocionalmente, tem bons jogadores e um bom treinador. Aliás, é precisamente pela admiração que tenho pelas qualidades de José Peseiro que acho que, independentemente do resultado, se o Benfica se superiorizar tacticamente aos portistas, terá de ser Rui Vitória o mais elogiado.

Não me levem a mal este meu benfiquismo tão pouco dado ao apoio cibernético (o apoio é no estádio, é lá que os nossos jogadores precisam de apoio; ninguém no balneário quer saber dos "Carrega, Benfica" do facebook). No fundo, todos, menos ou mais lúcidos,  mais ou menos pragmáticos, menos e mais críticos, queremos o melhor para o Glorioso e estar em Maio no Marquês. Mesmo que eu não possa ir.

14 comentários:

Oscar-r disse...

Não podia estar mais de acordo!

Por vezes acontece lermos nas palavras de alguém os nossos pensamentos!

Espero que estejamos completamente errados e que o defeito seja nosso.


Abraço!

Mats Magnusson disse...

Same here. Algumas melhorias, tipo a linha defensiva está mais curta e alinhada e vejo menos marcações hxh. Mas ali no meio está um problema bicudo, que por acaso até me pareceu que estava a passar quando por lá andou o Fejsa, muito mais agressivo a recuperar posição ali em frente aos centrais. Mas o Samaris já com o Jesus tinha o mesmo problema. Enfim. Se aquela confusão defensiva que foi o jogo do Belenenses acontecer contra Porto, Sporting ou Zenit... já fomos.

Abraço!

moleculasdeamor disse...

Claro que vais ao marquês e eu que nunca fui provavelmente também irei... sou (fui?) um descrente do Vitória e um acérrimo vigilante de Vieira e depois?
Vencer o Campeonato, a Taça da Liga e chegar (no mínimo) às meias finais da champions e aí ganhá-la! :D :P

Anónimo disse...

"fragilidades colectivas que as individualidades vão disfarçando "???

É tudo a bater na mesma tecla!!!

1. Já jogamos uma data de jogos sem Luisão e Gaitan (para não falar de salvio) e a equipa não se ressentiu tanto quanto isso dessas ausências.
2. A mesma individualidade que fez a grande diferença o ano passado, o Jonas, está neste momento melhor do que nunca.
3. Lindelof e Lisandro Lopez, por exemplo, o ano passado nem contavam.
4. Ganhamos a esses adversários frágeis (sempre contra 11 jogadores!) com uma simplicidade tremenda quando o ano passado era o Deus me livre (e contra 10!).
4. Há muito a melhorar, é verdade, mas como nada do que é bem feito é mérito do RV, se perdermos contra o Porto, é melhor mandar já o não-treinador embora.

PS. Fica uma sugestão a RV: Deixar as individualidades de fora por opção para mostrar que pode ganhar sem as mesmas.

Hugo Andrade

Anónimo disse...

E se o modelo for mesmo esse? Um futebol livre sem camisas de forças táticas, mas versátil, adaptativo aos vários momentos do jogo, privilegiando sempre a qualidade dos jogadores, onde uma aparente desorganização mais não é do que as várias fases de transição entre momentos?
Do melhor futebol que vi praticar nos últimos anos foi o Real Madrid de Ancelotti que foi campeão do mundo. E o modelo era esse. Não era aquela coisa do miolos, incapaz de ganhar um jogo por mais de um golo de diferença, mas onde as linhas estão todas certinhas, os movimentos são o que está nos livros, etc, etc.
Na 6ª feira só espero que o RV se mantenha fiel a si próprio, chutão para a frente, linhas defensivas todas mal feitas, pressão errática, laterais desorganizados, essas coisas todas, mas que ganhe 4 ou 5 a zero. E como o plantel não vale nada, vai ser por sorte de certeza ou porque o árbitro nos vai ajudar.

Pedro disse...

Felizmente para o SLB ainda não foi preciso uma acção do treinador para ajudar a equipa a virar um resultado. A equipa está a jogar tão bem, de forma tão forte que os jogadores, por si, resolvem os problemas.

Há um óbvio mérito de RV na colocação de jogadores, na aposta noutros, perante as limitações do plantel e das graves lesões que afectaram jogadores influentes. A isso RV respondeu com trabalho e nunca com queixinhas. Assumiu as suas apostas e ganhou essa batalha. Hoje o SLB é líder tb por sua causa, por conseguir unir o grupo e disfarçar as óbvias limitações do plantel. E, por incrível que pareça, alguns jogadores parecem melhores do que já eram: Jonas está brutal, Pizzi parece galáctico e até Gaitan está uns pontos acima do que lhe conhecemos. Jardel não abana jogue com quem jogar, JC com todo o CV que tem parece um puto cheio de vontade (e qualidade) e Lisandro que antes não cheirava agora é titular absoluto. Com lesões RV não pede este mundo e o outro, trabalho com o que tem e tem trabalhado bem.

Falemos de vulnerabilidades. Sei bem o que isso é, foram seis anos de meio campo débil e quase sempre a perder as batalhas contra equipas de valor semelhante. Amanhá será um teste a este Benfica, sem dúvida. Não há que negar que existem dúvidas sobre RV. É natural, é a primeira vez que anda nestas andanças, a primeira vez que tem este desafio pela frente. No passado essas dúvidas foram dissipadas, havia certezas, certezas que a equipa não passaria daquilo. Que os defeitos seriam sempre os mesmos. Agora há, pelo menos, uma esperança que as coisas mudem. Vamos ver como corre amanhã.

Ainda sobre vulnerabilidades, uma coisa é certa, não me lembro de um SLB tão pressionante sobre o adversário, capaz de ganhar tantas segundas bolas, como tenho visto nestes últimos jogos. Claro que pode ser pelos adversários serem fracos, mas tb o eram no passado e não via o SLB com este ritmo.

Uma coisa garanto é que nunca serei injusto e incoerente com RV. Se falhar será criticado por mim, se triunfar será elogiado. Neste momento é como o anterior, vive das individualidades, veremos o que faz quando tiver que intervir durante os 90 minutos.

Ricardo disse...

Abraço, Mats.

Anónimo (04:20), se for esse o modelo, estamos tramados.

Pedro, enquanto passares o tempo a falar no Jesus não me parece que possas analisar a realidade de forma imparcial. Relê o teu comentário, as alusões ao passado são constantes.

Ricardo Fernandes disse...

Ricardo, ele emendou a mão. A equipa hoje, movimenta-se de forma tão diferente (mesmo aquando da entrada do Renato, leia-se linha média junta e não um à frente do outro).

É preciso saber dar o braço a torcer e essa valência RV teve-a. Conseguiu, passar o sufoco inicial de não ter tido tempo para se preparar, para deixar de implementar o modelo do Guimarães no Benfica, para usar o que o Benfica já tinha.

Estou curioso para ver o Benfica jogar com dois extremos interiores. Com Pizzi e Carcela não havia questão: um médio interior e outro exterior, mas com o retorno de Gaitan, já se viu na primeira parte que RV tentou colocar Pizzi como exterior. Não resultou, emendou e Pizzi voltou ao meio na segunda parte. Portanto, estou curioso para ver se isto continua assim, ou se ele volta ao modelo inicial de um exterior e interior, como já eram Salvio e Gaitan.

Na defesa, eu acho que há falta de voz de comando. Luisão com todas as suas falhas era quem definia as subidas e descidas da defesa, o próprio ataque ao portador de bola. Agora quem define isso é o Jardel...

A vitória com o Porto, vai dar ainda mais espaço de manobra ao RV, uma derrota, pode fazer com que esta série de vitórias e goleadas... tenha sido só uma série.

Mats Magnusson disse...

Pedro, o RV até pode não ser campeão e não meter nenhum gajo que marque dois golos e vire um jogo...que pode merecer a confiança para mais um ano. Desde que o que ele faça nos treinos seja de qualidade e isso se veja nas movimentações da equipa em campo por mim está ótimo.

Agora, ter um defesa esquerdo a 2 kilometros do central porque está a marcar um gajo qualquer junto à linha lateral...fodasse. Diz mais do trabalho de um treinador do que tudo o resto.

Ou como começámos o ano, com os dois laterais sem participar na movimentação ofensiva. Ou a linha defensiva que nunca era uma linha. Ou os nossos 4 atacantes juntinhos aos 4 defesas adversários e zero de jogadores ali no meio do campo. Foda-se. Até podia ser campeão a jogar assim que por mim podia por-se a andar.

Agora, como diz ali o Ricardo, muita coisa mudou desde esses primeiros meses e estes exemplos acima até são agora quase descabidos. Ele que faça o seu trabalho no treino(!) e estamos todos bem.

Abraço!


Pedro disse...

As alusões ao passado são constantes pq têm de ser constantes. Não posso deixar passar que se critique o treinador por algo que no passado era igual ou pior quando se usou esse passado como sendo algo muito bom em comparação com Rui Vitória.

Nesse ponto quase todas as críticas a RV foram injustas, pq defendiam que estavamos pior do que no passado, logo, o passado tem que ser chamado à discussão. Sem prazer algum da minha parte.

Não posso deixar passar que se diga que o SLB de RV é vulnerável quando esse era exactamente um dos grandes problemas do passado que é tão bastas vezes elogiado.E nem vou falar das críticas que hoje se fazem e que no passado se deixava passar.

Ricardo disse...

Bem observado, Fernandes. Eu acho que ele vai manter a boa dinâmica de Pizzi na direita e, claro, a criatividade do Gaitán - é impossível tirar o Gaitán do jogo. Sim, o Jardel não tem a mesma capacidade de liderança (e de outras coisas), por isso também o desgoverno defensivo. Espero um jogo muito complicado para nós.

Pedro disse...

É contra o fcp. Naturalmente é um jogo complicado.
Uma vitória será excelente, uma boa vitória será, quiçá, o bost de confiança que a equipa precisa para atacar a recta final do campeonato.

Equipa e adeptos, onde me incluo.

Benfiquista Primário disse...

Também sou um 'mau benfiquista', caro consócio...sou dos que defendem desde Junho que cometemos um duplo erro histórico, ao não renovar com o maumau e ao contratar o bombom.

Mas na verdade, no último mês e meio, o nosso futebol melhorou muito. Sobretudo com bola.

O timoneiro percebeu finalmente que não há balizas nas linhas laterais...levantou a proibição do jogo interior, pôs o 8 à frente do 6 em vez de lado a lado, o Pizzi como 'falso extremo' e o Mitrogolo ao lado do Jonas. Agora temos a equipa muito mais junta, quem tem bola tem mais linhas de passe disponíveis, vamos às alas depois de atrair adversários no jogo interior...

Depois realmente pressionamos mais alto e reagimos melhor à perda da bola, portanto a transição defensiva também melhorou muito.
Acho que a organização defensiva ainda tem muito que melhorar, ao contrário dos outros momentos do jogo.

Mas não esqueçamos que, mesmo quando não jogávamos nada, ganhávamos os jogos pequenos - à excepção de Arouca. E os jogos grandes da segunda volta são no próximo mês...até lá, da minha parte só há menos pessimismo - ok muito menos ;)

Se ganharmos aos frutistas e aos comediantes involuntários do Lumiar, aí sim, dou a mão à palmatória de muito bom grado! Carrega Benfica!

Pedro disse...

"Pedro, o RV até pode não ser campeão e não meter nenhum gajo que marque dois golos e vire um jogo...que pode merecer a confiança para mais um ano. Desde que o que ele faça nos treinos seja de qualidade e isso se veja nas movimentações da equipa em campo por mim está ótimo. "

Ontem provou-se que isso é demasiado redutor. Pode ser o melhor do mundo nos treinos que se depois, nos 90 minutos, onde tudo se decide, a incapacidade de agir for esta os resultados pouco diferentes serão.

JJ tinha esse problema, um zero a analisar o jogo durante os 90 minutos. RV mostrou ser igual ou pior. O trabalho semanal é importante mas pode ser anulado logo no primeiro minuto de jogo. Cabe ao treinador ter a capacidade de dar a volta. RV não teve e pelo que mostrou dificilmente terá.