sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Viagem à ternura que é o Benfica

A bola está parada em cima da linha da pequena-área. O estádio cheio faz ecoar um som que dá voltas às bancadas, uma língua de vozes e gritos a perpassar os adeptos como um poço da morte. Junto às redes laterais, Zé Gato calca a relva com o pé direito, ajeita as patas dentro das luvas, prepara-se para pontapear o esférico. Corre para a bola mas estanca o passar, vai dar no central em passe curto, surpreendendo o adversário. Nesta fauna de nomes, Gato mete em Malta da Selva que dá directo em Girafa - a Natureza às cores a bailar na defesa benfiquista. 

Garoupa vem receber atrás de boca aberta, amacia a bola com as escamas, passa por um, mete na linha em Abel Campos, o Camundongo, que corre feito rato na vertical junto ao bandeirinha. A Gazela Negra aproxima-se, recolhe, cheira o esférico, faz 2-1 com El Conejo, e flecte para o meio. Arsénio, a Rata da Área, desmarca-se em diagonal por entre os defesas, pede alimento. Com os dentes morde a bola, rodopia sobre ela e sobre si próprio, olha o espaço. Num repente de rins, faz uma finta e atira bola certeira para uma Pantera Negra que, de primeira, sem deixar cair, remata um remate de bruços encostando, felina, o dorso ao encontro da redonda que vai embater, com estrondo, na trave e sai em arco do estádio a tal velocidade que só vai acamar as dores dentro de um barco à deriva no Tejo. 

O Bom Gigante procura equilibrar-se por entre ondinhas que balançam a embarcação. Recebe no peito, baixando depois a cabeça para não cabecear os comboios que seguem rápidos na parte inferior da Ponte. Deixa a bola deslizar pelo corpo até ela adormecer junto aos pés, 45 Tromba Larga, e ali ficar num aconchego de umas Luvas Pretas de Alves que a escondem debaixo da camisola, como que a limpando de impurezas e restos de nuvens para logo a lançarem em direcção à outra margem em gesto técnico de geómetra rumo aos Pezinhos de lã de Shéu Han que, mirando de Cacilhas as colinas de Lisboa, dá de primeira no Ruço que simula e deixa passar para o Petit que, cansado daquele tornear de esférico sem sentido, decide colocar a bola em cima de uma gaivota, meter o indicador à boca, depois ao vento, sentir as marés e os obtusos ângulos, rematando depois, livre em folha-seca, contra os braços do Cristo-Rei. Seis-dedos percorre o flanco esquerdo do braço direito do monumento, louco!, desvairado!, alucinando com a aproximação do central Alfredo "Três-pés" que se prepara para lhe ganhar a bola com aquele seu jeito tentacular de roubar o alimento aos outros. 

Aí vem ela caindo dos ares, Três-pés e Seis-dedos engalfinhando-se os dois em cima do braço do Cristo numa corrida desenfreada para ganhar a bola, ninguém dá parte fraca, nem olham as alturas, as vertigens que dão metros e metros e Seis-dedos e Três-pés correndo ao longo do Rei de Almada na incessante busca de um esférico que espera uma espécie de redenção, ao menos um toque, talvez um cabeceamento, um recolher de peito, um afagar de chuteira, algo na neblina desta manhã de nevoeiro que agora observa, vindo não sei de onde, o Cabecinha d´oiro voar sobre os contendores e desferir com a testa uma tão longa e tão eficaz dourada cabeçada que a bola correu mundo, passou o Atlântico, desceu a costa Leste do Brasil, lambeu o Uruguai e acabou ricocheteada em Buenos Aires no ombro de El Negro que logo, em passe cirúrgico, a enviou sem selo nem aviso, para um Queniano em Londres. 

Passeando pela capital inglesa, um grupo que agora, se fizermos zoom ou descermos a imagem no Google Maps, conseguimos nitidamente identificar. Trata-se de uma excursão de velhas glórias do Benfica, uns mais gloriosos que outros. Neste desvairado tempo e espaço deste esférico que não cessa de pulsar mística, eis que o Velho Capitão conversa alegremente com Big Balls, o Rótulas de Plástico, o Pantufa e Samuel, o Jovem Eterno. Que farão estas almas aqui, percorrendo um museu que faz de humanos peças de cera? 

A bola segue rodando, agora nas mãos de Elzo Capacete, que viemos encontrar a meio da nossa viagem, paragem obrigatória em Amesterdão para conhecer as virtudes da medicina alternativa. Flecha Negra está com ele, vêem o Benfica pela televisão, discutem eras e modas no futebol. Flecha aborda as questões existenciais do remate para o golo, Capacete disserta profundamente sobre as qualidades inatas do desarme eficaz. Ninguém se entende. Valha-nos o esférico que, insensível aos desvarios destes craques, decide sair pelas ruas, logo apanhando um barco, depois um avião, no fim um pássaro. 

Chegou ao Porto só depois de passar em Famalicão, precisava de ir aconchegar o lombo ao pé direito de Paneira, o Mestre da Finta Curta. Ouviu conselhos, prometeu-lhe amor eterno, agradeceu-lhe virtudes e aquela noite louca que foram tantas e logo avançou com o seu passo de bola redonda pela estrada. No caminho, encontrou Rogério Pipi sentado num toro de madeira, que por ali andava em digressão muito mística, praticamente zen, reunindo um grupo de hippies que em tempos pisaram o relvado da Luz: o sueco Thern - direi Mr. Nice Guy? -, Ademir - para os amigos o A-dormir -, o Soneca, o Chuta-Chuta, Jaime Graça - O Catalunha -, o Sarrafeiro, o Tosco (outro sueco), o Gargantas, o Pinga e, claro, o enorme Bastos, guarda-redes dos anos 50 que, por uma infelicidade do acaso, e só porque decidiu dizer, ele que estava habituado apenas a pelados e o meteram uma vez no Estádio Nacional num campo com outras valências aos termos de terreno, que tinha sofrido um golo porque lhe tinha saltado um pedaço de relvado para os olhos, acabou injustamente apelidado de Rei do Sono. Toda esta gente em sã convivência com a bola, fumando e bebendo, comendo e falando Benfica.

O que é louvável no coração de um esférico benfiquista é a propensão exacta e eterna para o humano. Uma bola gloriosa é aquela que não discrimina condições sociais, profissões, níveis culturais ou demais invenções. A redondinha sai de um acampamento no meio da estrada e é capaz de ser sentida e pontapeada por um Gladiador grego, um Coveiro brasileiro, um Maestro português, um Palhaço argentino, um Xerife de caracóis imponentes. Há um Tamanqueiro que beija a gloriosa e logo dois Artures - o Mestre Artur e o Rei Artur - a recebem de luvas ou pés com a mesma dedicação. A bola do Benfica não tem género nem condição. Faz-se pelo lado divino, cresce junto dos seres e com eles partilha este amor pelo jogo, este denodado sentir que nos alimenta e nos recria. Ser bola do Benfica não é para todos os que não quiserem ver, mas é de todos e com todos que ela vai construindo a sua Catedral de sonhos e afectos.

Já todo o movimento o esférico foi sentindo. Quem não se lembra de um Locomotiva do Barreiro, em vapor ou a alta-velocidade? Até um Bi-turbo já pôde presenciar com os pés a desenvoltura da redonda. Em Liverpool, foi de Pequeno Bombardeiro que a viagem se fez, mas houve tempos em que um Lambreta, um Gasogénio ou mesmo O Motor a fizeram rodar sobre si própria, parar segundos no ar e depois ser lançada em vaivém espacial-especial para as redes dos adversários. É bola-máquina, é bola-mística, é bola-Benfica. É bola-Diamante, é bola-preciosa. Amada pelo Menino d´oiro, pelo Rapaz do brinco, pelo Pérola Negra. É redonda lançada no espaço, matéria e mensagem de Benfica pelo mundo, abençoada por São Michel, difundida pelo Profeta Isaías, fantasiada por El Mago, eternizada pelo Monstro Sagrado.

Na raiz dos sentidos, a gloriosa bola come Super-Maxi, avança sobre Batatinha, é pescada pelo Pescas, acariciada pelo Costa dos Frangos ou então pelo Franguinho, e o que dizer do famoso Melancia ou, em sentido mais espiritual, essa enorme figura que dava pelo nome de O Tempero, por pedir a cada final de jogo prémios da partida: «e esse tempero, como fica?»? Uma bola que avança sobre o imaginário ficcional, desde um Chalanix a um Robocop; de um Pai Natal ao Simões Rato Mickey; de um Ninja Hernâni ao Pietra Minervas, tudo matéria de visceral benfiquismo, de Benfica entranhado.

No fim, e já vai longa a viagem, há-de sempre haver um King.




8 comentários:

luis disse...

Palminhas, muitas palminhas ;)...

Mamei o pequeno almoço com um sorriso de Lampião:)

Fantástica viagem... um Avante Benfica, de ficar com a lágrima ao canto do olho...
Vivas !!
Benfica Todos Tempos

Anónimo disse...

Não está bom, nem está mau. Está uma merda.

Abraço

Fehér 29 disse...

Até tremo a ler. Obrigado

Ricardo disse...

Anónimo, essa tem de ser uma existência miserável. Abraço de pena.

luís e Fehér, obrigado eu. VIVÓ BENFICA, meus queridos.

Anónimo disse...

Maxi pereira = tractor loool

José Moreira disse...

a doença agrava a cada minuto...

Anónimo disse...

Obrigado, rapazes!

carlos

Francisco Mendes disse...

Jesus! (Não o madeixo-dependente, clamo pelo Nazareno, não com devoção, mas com a força do coloquialismo) Que pedaço de sentimento tornado prosa. Muito obrigado, aqui li o Benfica.