quarta-feira, 4 de maio de 2016

Especialista de Especialidade Alguma



Falo de Rui Santos.
 
Não tenho nada contra a pessoa e pouco ou nada sei sobre a sua carreira no jornalismo.

Simplesmente quando vejo alguém sem história no futebol a ter direito a um programa semanal a solo onde fala sobre o que bem lhe apetece e a ter direito a sentar-se à mesa com antigos jogadores, espero que esse alguém, esse Zé Ninguém no Mundo do Futebol, seja um especialista da matéria.

A alguém como Rui Santos seria de exigir que nos deslumbrasse com os seus conhecimentos dos meandros do Futebol e principalmente com o seu entendimento do jogo.

Não vou aqui abordar a superficialidade da Liga Real.
Não vou aqui falar do amadorismo como se afirmou pioneiro na constatação de possíveis foras-de-jogo em lances do Jonas com o Arouca e Setúbal na Luz.
Muito menos irei comentar o seu sportinguismo. Não me parece que seja guiado por clubismo nem que seja porta-voz de alguém.

Durante estes anos ouvi pouco Rui Santos mas o que ouvi chegou-me para concluir que ele pode ser especialista em alguma coisa mas não sobre o que fala na televisão.

Hoje venho aqui falar sobre a superficialidade assustadora com que ele analisa Futebol.

Rui Santos debita números e formas sem sequer ter interesse em as interpretar.

No Benfica já tivemos muitas épocas marcadas por plantéis inferiores.

Houve um final de época em que ele decidiu avaliar como positiva ou negativa todas as aquisições do Veiga.

Naquela o nosso futebol vivia das defesas do Quim, do espetacular Leo e do fora-de-série Rui Costa.

Na sua análise Rui Santos marcou com um X a aquisição do Rui Costa. Fiquei em choque. Pior foi quando percebi que ele ainda tentava elaborar uma qualquer justificação para tamanha parvoíce. Mudei de canal e não mais o ouvi até 2015.

Só o voltei a ouvir por 2 motivos:

- Meteram-no numa mesa com figuras como o Toni, Alves, Simões, Abel Xavier, Manuel Fernandes, Inácio, António Oliveira e Rodolfo Reis.

- Ele tem mais acesso ao que se passa nos bastidores do que eu.

Não durou muito até que percebesse que com este comentador tenho de aprender a ter uma audição muito selectiva.

No outro dia resolveu fazer uma comparação entre o Benfica de Rui Vitória e o Benfica de Jorge Jesus.

Apetecia-me ouvir sobre Futebol e discutir o Benfica é algo que sempre me entusiasma. Lá fui ao Youtube ver o programa.

Ainda me vou enganando a mim mesmo…

Vou começar por falar na conclusão, o tipo de conclusão que levaria ao chumbo qualquer aluno em qualquer exame.

Para Rui Santos a única diferença entre o Benfica do JJ e o Benfica do RV é o Talisca.
É tudo igual, tudo a mesma coisa. Nada mudou além de um jogar com o Talisca e o outro com o Renato.

Assustador. Sempre pensei que este tipo de pagode pornográfico era propriedade da TVI.

Preferi nem memorizar todas as alarvidades mas estas ficaram-me na cabeça:

- Tacticamente iguais. Cá está, no papel as peças estão na mesma posição então tacticamente a equipa joga do mesmo modo.

- Depois começou a enumerar os jogadores que o Vitória só não usa porque ou saíram ou se lesionaram.

- Lançou uma pérola sobre o Pizzi. Diz Rui Santos que o Pizzi já jogava com o Jorge Jesus e que apesar de agora ter sido deslocado para a direita vai tudo dar ao mesmo.

E onde ficou a porra da análise sobre como cada jogador funciona no sistema táctico? A análise às ideias de jogo? A análise aos movimentos das equipas? A análise ao jogo jogado?

Um duo ofensivo com Lima e Jonas é tacticamente a mesma coisa que um duo formado por Jonas e Mitroglou?

Um médio mais cerebral e de apoio, como o Pizzi, a jogar a falso extremo é o mesmo que jogar com um extremo puro (Salvio) que constantemente procura o 1 para 1 e a linha de mundo? Tacticamente é a mesma coisa?

Não consigo perceber como um “ninguém” tem tanto tempo de antena e tanta autoridade para falar sobre algo que claramente não entende nem aprecia.
Ter fontes e trabalho de investigação feito não pode ser motivo suficiente para se ter voz neste fenómeno do Futebol.

Futebol é nos relvados e sobre os relvados não se consegue fazer ouvir.




10 comentários:

Rukka disse...

e o pior ainda é quando começa a fazer relatórios sobre a actuação dosa árbitros e a dar notas negativas ou positivas. Quem é ele pró fazer? Será que as instâncias que comandam o futebol, como a federação ou o conselho da arbitragem não deveriam insurgir-se contra alguém que entra pelas casas de milhões de lares, influênciando a opinião pública, a maior parte das vezes parcialmente?? Como é possível que isto seja premitido? Estamos a falar de canais generalistas... Imaginemos então que havia um rui santos em cada um dos três canais, a dar notas aos árbitros e a fazer relatórios das suas atuações, cada um com a sua liga real.Não vejo isto em mais país nenhum.
Ha quem diga que não vê o programa e já está! Mas o pior é que nem toda a gente pensa assim. Diria mesmo que a maior parte das pessoas vê o programa. E é pena. O indivíduo escreveu um livro e não podia ter-lhe dado melhor título: "Mentiras futebol clube", (ou coisa do género)

Anónimo disse...

é tudo o que dizes e ainda um carreirista e um desonesto. que nem disfarça.

R.B. NorTør disse...

O que não se vê em mais país nenhum (alguém de Espanha ou da Grécia que confirme) é três canais, durante três dias seguidos onde três tipos que pouca história têm no futebol para lá de adeptos (há exepções sim) falam de futebol. Claro que o verbo falar é usado no sentido lato. Eles estão de facto a falar, mas ninguém fala das movimentações, ninguém fala das acções individuais... Fala-se de tudo menos de futebol. Três dias, três canais, durante duas horas, com alguns a repetirem.

Daniel Oliveira disse...

Rukka,

Não tenho problemas em que os analistas ou comentadores de futebol façam análises das arbitragens nem que o façam no conceito de atribuição de notas. Aliás, os jornais desportivos fazem-no.

O meu problema é ser dada tanta voz a alguém para o fazer sem que esse alguém perceba daquilo que fala.

Rui Santos claramente não é pessoa para falar de Futebol nos relvados.

Anónimo disse...

1. Não tenho muita paciência para programas do género “O que dizem os teus olhos?”. Ainda assim, há uns dias, fiquei vidrado num programa do género (na BTV), no qual o Ricardo Rocha era o entrevistado. Maravilhoso. De uma naturalidade e humildade tocantes. Um benfiquista dos 7 costados, grato por tudo aquilo que o clube lhe proporcionou na carreira, aliando a isso uma fluidez e pertinência de discurso muito acima do que por cá se vai apanhando.

2. Não sei se o Ricardo Rocha (assim como o Marinho, outra agradável surpresa com que me deparei há umas semanas na RTP3) terá licenciaturas, doutoramentos ou bacharelatos em futebol, arbitragem, bastidores ou ligas da verdade. A avaliar pelo que se vê nos dias de hoje, espero que não.

3. O que sei é que, em meia-hora de entrevista, o Ricardo Rocha, além de me ter recordado do enorme prazer que foi vê-lo jogar de águia ao peito, despertou-me, com as suas histórias, mais emoções e memórias agradáveis que muitos programas que duram desde alturas nas quais ainda não tinha sequer atingido a puberdade.

4. Desarmou-me por completo com as suas histórias sobre os tempos de infância e adolescência, onde tudo o que havia era uma bola e espaço exterior suficientes para os petizes mostrarem o que valiam. Como começavam de manhã a jogar e só acabavam ao anoitecer. E como tudo isso contribuiu para formá-lo enquanto jogador e ser humano. As horas passadas. Os amigos feitos. Os que, mesmo mais talentosos, não tiveram as oportunidades que mereceriam, tendo ficado para trás.

5. Revejo-me a 100% nas palavras e sentimentos de Ricardo Rocha. E é daí precisamente que advém o meu amor pelo jogo. Pelo prazer que me deu. Os amigos que me proporcionou e de que ainda hoje beneficio. O homem que me tornou. Abano a cabeça em tristeza e negação de cada vez que apanho com aqueles comentadores medonhos que proferem aos 7 mares que o que interessa é ganhar, que essa é a essência do jogo.

6. Ninguém gosta de futebol porque gosta de ganhar. Eu até tornei-me benfiquista no dia do famoso penalti do valente Veloso frente ao PSV. Ganhar nunca é a essência, mas uma consequência. A essência passa por aquilo que o Ricardo Rocha descreveu e que eu passo aqui a desenvolver à minha maneira.

7. Gosto de futebol porque sim. Porque nasceu comigo. Tenho uma fotografia onde, em pequeno, trajando orgulhosa e inconscientemente em pelota pelas praias do Algarve (apenas com um daqueles bonés míticos da Campari que Erickson eternizaria), mesmo mal sabendo ainda andar, já sigo atrás de uma pequena bola de plástico. Olho para ela de um forma concentrada e enigmática, como que há procura de desvendar todos os segredos que aquela teria para me revelar.

8. Esta vida proporcionou-me muito. Independentemente de algumas tristezas ou do que daqui para a frente esta me reserve, estarei eternamente agradecido ao que de melhor pude experienciar. Pude brincar, namorar, rir, ir à escola, viajar, aceder a cultura, entre tantos outros privilégios. No topo de todos eles, a léguas, coloco um que não custa um cêntimo que seja: correr desalmadamente com uma bola nos pés. Nada bate isso. Nada. E eu, de cabelos ao vento com o meu penteado à Cobain, usei e abusei desse privilégio. Não até me doer a voz, mas as pernas. E no dia seguinte repetia.

9. Nunca fui jogador profissional. Ainda cheguei a ser abordado por um olheiro do Estrela. Viu-me a jogar na rua, testou-me com uns exercícios e disse-me que queria-me levar para lá. Apanhou-me à mesa a almoçar com a minha mãe e ainda esteve ali uns tempos a tentar dar-lhe a volta: note-se, para levar o seu único filho, de 12/14 anos, para a Amadora. Certo.

10. Financeiramente, a única coisa que lucrei com o futebol foram 50 escudos (ainda no tempo da moeda antiga, portanto). Um turista viu-me a dar uns toques do outro lado da rua e, aparentemente impressionado, atravessou a estrada e fez questão em passar-me aquela importância para a mão (a qual, naturalmente, desbaratei imediatamente num Mini Milk).

RedMist

Anónimo disse...

11. Após ter tido conhecimento de que o Ginásio C.C. (à altura, na 1.ª Divisão Nacional do escalão) ia fazer treinos de captação, e à semelhança do que fazia para adquirir cds de música, poupei no dinheiro do almoço. Em contra-relógio, lá consegui ir a tempo de comprar uma carteirinha de módulos n.º 3, apanhar o autocarro e apresentar-me aos trabalhos, munido dos meus Airwalk (ténis de skate), contrafeitos e já bem estafados.

12. Era o tudo ou nada. Tinha passado a infância e adolescência a jogar durante centenas de horas, a defrontar centenas de adversários. A jogar ao sol, à chuva, na praia, no pelado, no ringue, na escola. Onde desse. Onde não desse. Todos me diziam que tinha o que era preciso (menos a minha mãe, a qual fiz questão que nunca visse nenhum dos meus jogos). Tinha na minha mão 5 bilhetes: ou, como eu encarava, 5 oportunidades para assinar.

13. É uma pressão imensa. Todos aqueles anos resumir-se-iam a, no máximo, 5 treinos. Isto se passasse nas provas iniciais de selecção. Lá chegado, fiquei petrificado. Dezenas e dezenas de adolescentes: enormes, todos equipados, confiantes. Porque aquele mundo era-me completamente desconhecido, não fui minimamente preparado. Ainda me forneceram uma t-shirt do tempo dos Magriços, mas tive mesmo de avançar com os Airwalk forçadamente ventilados pela buracada que já tinham em cima.

14. No meio daquela salganhada toda, o Mister pergunta-me: “Em que posição jogas?”. Nervoso, digo-lhe que, apesar de destro, gosto de jogar na frente encostado à esquerda. Quando procuro justificar-me sobre o porquê disso, interrompe-me dizendo, como quem tem mais que fazer: “Tá bem, tá bem…”. E rola a bola.

15. 1.º treino. 4 equipas formadas. A 1.ª equipa, a principal, era formada pelas estrelas da companhia: jovens imponentes, confiantes, que olhavam para os demais com aquele típico ar insolente e de desdém. Um até estava de abalada, contratado pelo Belenenses. A 2.ª equipa eram as reservas. As restantes eram formadas por aqueles que, como eu, procuravam uma oportunidade. Comecei na 4.ª equipa. Joguei na última metade daquele treino e, apesar de não ter ficado minimamente satisfeito com o que fiz, o Mister diz-me para lá aparecer no treino seguinte.

16. 2.º treino. Começo de início na equipa de reservas. Penso para comigo que devo ter causado boa impressão. As coisas voltam a não correr como eu queria: a bola não chega tantas vezes, precipito-me em demasia, estou demasiadamente ansioso. Consigo abanar com o jogo mas, invariavelmente, quero fazer tudo depressa, sozinho e as jogadas não dão em nada. Saio frustrado, mas o voto de confiança mantém-se.

17. 3.º treino. Face à falta de um dos titulares da 1.ª equipa e com a eliminação de um já considerável n.º de candidatos, avanço para a 1.ª equipa. As coisas correm melhor, na medida em que a qualidade que me acompanha já é de outra natureza. Lembro-me que lhes demos uma trepa e que, pela 1.ª vez, faço o tão ansiado golo. Mas, no final, nada acontece. Mister e Adjunto continuam a dizer-me para aparecer, mas sobre assinar, nada. E eu só tenho mais 2 bilhetes.

18. 4.º treino. Um bom amigo meu decide acompanhar-me. Isso acalma-me, mas volto para as reservas. Fiz barbaridades nesse jogo. Apanhei um defesa-esquerdo na minha equipa que, apesar de limitado, era sólido e metia-me o jogo todo, pelo que não foram precisos 5 minutos para pôr o defesa-direito da equipa principal aos papéis. Furei linhas, passei em velocidade, cruzei, rematei, marquei. Não havia organização defensiva ou táctica que valesse. Não naquele dia. Não com apenas mais um bilhete na mão.

RedMist

Anónimo disse...

19. Bola dada como perdida pela linha lateral esquerda. Não para mim. Ainda vou a tempo. Apesar de aquela saltar como uma bola de basket, num pelado, consigo pará-la. Ali, quietinha. Mas os meus Airwalk traem-me e saio disparado em direcção à Escola Primária existente mesmo em frente. Que frequentei e onde dei o meu primeiro beijo. Consigo ainda assim manter o equilíbrio. Sinto a aproximação do defesa. Sinto que vai à bola à guloso. Viro-me equilibrado na perna esquerda e, com a direita, dou-lhe um pequeno toque por baixo. O suficiente para a levantar e colocá-lo a dar um pontapé no vazio. Para manter a bola e explorar o espaço. Para se ouvir um “bruahh” entre os presentes.

20. No final, o desânimo. Nada no papel. Continuam a dizer para aparecer, mostram-se mais cúmplices e carinhosos comigo, mas nada. E eu só com mais uma oportunidade. A minha mãe sempre me disse que, o importante, eram os estudos. Era aluno de 5. As notas nunca foram problema. Mas o que eu queria verdadeiramente, aquilo que me incendiava a alma, que me fazia sentir o pulsar da vida, era jogar futebol. E ainda tinha mais uma oportunidade. Mais um bilhete.

21. 5.º treino. Sentia-me como se já ali estivesse há anos. Aquele pelado de futebol de 11, o primeiro onde havia entrado na vida, já não me amedrontava. Já tinha jogado com e contra a equipa principal: já os havia vencido, já lhes tinha topado as limitações. Os outrora jogadores magnânimos e insuperáveis, que comecei por olhar de baixo para cima em reverência, eram agora por mim encarados olhos nos olhos, com determinação e confiança.

22. Não tinham hipóteses. Haviam sido formatados para jogar de uma forma pré-determinada. Sentiam-se confortáveis a fazer o que sempre fizeram, a enfrentar quem sempre haviam enfrentado, a esperar somente o expectável.

23. Ali, não havia lugar para o imponderável, para o anárquico, para o jogo selvagem e de sobrevivência da rua. No jogo da rua, já tinha tido tipos do dobro do meu tamanho a passarem literalmente por cima de mim (porque me baixei, senão ficava sem cabeça) em modo Bruce Lee. Fugi de jogos que não devia ter ganho. Apanhei na cara e fiz-me duro: não acusei o toque e continuei a jogar. Fui ao limite das minhas capacidades para impressionar miúdas de quem gostava. Nada disso era sequer comparável à vontade que tinha em meter aquelas prima donnas todas a apanhar morangos.

24. Por tudo isto e conforme referi, não tinham hipóteses. E não tiveram: com toda a naturalidade, 2-0. Lembro-me sobretudo do sentimento de confiança, de bem-estar, de pertença que senti naquele 5º e último jogo. Disfrutei. Fiz o 2º golo. Um pepino prensado da esquerda que devia ter ido para a área mas acabou por ir em direcção à meia-lua da grande-área adversária. Estou de frente, longe, mas sinto que ainda posso chegar-lhe. Acelero. Ela vai a cair e sinto que já não dá para lhe dar em cheio. Cai-me mais para o lado esquerdo, mas dar-lhe de esquerdo está fora de questão quando o chão por debaixo de mim é manteiga.

25. Vou de direito, mas já não dá para lhe dar uma puta à Dinda. Opto por lhe dar um toque, com a força e técnica possíveis, com a ponta do pé, já depois de ela bater no chão. Ela sobe. O GR, que ficou junto ao poste esquerdo aquando do cruzamento, percebe que fez merda. Tenta recuperar. Estou confiante que vai entrar. Tanto que, ainda ela vai no ar, e já eu lhe viro as costas, dirigindo-me para o meio-campo.

26. Olho para quem está de frente para o jogo e reparo naqueles esgares típicos dos momentos de suspense em slow motion que vemos nos filmes. Percebo pelas reacções que, se calhar, o GR ainda lá chega. Viro-me novamente para a baliza e, talvez porque a bola tenha ficado mais tempo no ar do que devia, reparo que aquele faz uma recuperação impressionante. Fico para ver. Pela crença, esforço e dedicação aplicadas, o GR merecia tê-la defendido. Mas não conseguiu. Entrou mesmo. Cumprimentamo-nos no final, em sinal de mútuo respeito.

RedMist

Anónimo disse...

27. Percebo pelas reacções que, por ali, não devem ter visto muitas daquelas. Embora aquele nem sequer tenha sido dos dos golos mais difíceis ou espectaculares que alcancei, mantive uma postura de quem não tinha feito nada de especial. Pelas dimensões do campo e baliza, e habituado a jogar em espaços infimamente menores, tudo aquilo era para mim um novo mundo de oportunidades para fazer essas e outras coisas com mais regularidade.

28. Já havia feito golos à Futre no Benfica-Boavista para a Taça de Portugal, com a bola a ir à trave, ir ao chão, entrar, a baliza vir abaixo e o jogo acabar. Ou rematar ao ângulo com tal força que as equipas adversárias juravam não ter entrado. Do meio campo. Horas e horas de jogo com as mais diversas variáveis de jogadas e finalizações. A jogar.

29. O mais complexo foi num jogo de campeonato escolar. 0 a 0. A turma adversária não jogava um peido, mas a minha também não. Para piorar as coisas, estava a levar uma marcação absurda de um tipo que gostava de uma miúda da minha turma, a qual tinha-lhe dado nega porque teria uns calores estranhos por mim. Daí a ele retribuir-me os miminhos, foi um pequeno passo.

30. Jogo chato, mal jogado, combativo, aéreo à moda inglesa. Felizmente, aproxima-se do fim. Mais uma bola bombeada, mas esta até parece que vem boa. Vem mesmo. Mas o tipo não me larga. Deve querer o meu n.º de telefone. Espontaneamente, sai-me, numa bola bombeada, sem bater no chão, um cabrito de costas para ele e a baliza. O gajo é menino e fecha os olhos. Aproveito que ela sai-lhe perfeitinha nas costas e, sem bater no chão, aplico-lhe um balázio que deixou o GR adversário mais preocupado em fugir do que em defendê-la.

31. 1 a 0. O jogo acaba. A bola rematada bate com estrondo numa sala de aulas. Parte uma parte do pré-fabricado. A professora vem cá fora reclamar. Dizemos-lhe que é para o campeonato. Ela encosta. Herói do jogo.

32. Naquele 5.º e último treino senti o meu mundo desabar. O Adjunto aborda-me imediatamente após o jogo, cumprimentando-me efusivamente e massajando-me o ego de sobremaneira. O Mister, sempre mais distante e reservado, cumprimenta-me. Não tenho coragem para lhes dizer que não vou mais aparecer por não ter dinheiro para os bilhetes. Cumprimento-os silenciosamente, em sinal de agradecimento e despedida. Olho para o campo uma última vez. E parto.

33. A caminho da paragem, o bom amigo que à altura me acompanhou diz-me que, tendo estado perto do banco técnico a acompanhar o jogo, não apenas escutou os treinadores fazerem-me várias referências elogiosas como, inclusive, viu, literalmente, o Adjunto cuspir inadvertidamente a água que bebia ao ver a forma como marquei o meu último golo. Sentia-me a milhas daquele lugar, daquela conversa.

34. Talvez tivesse sido possível ter chegado a profissional. Ou talvez tenha acabado por ser melhor assim. Nunca o saberei. E isso entristece-me. Mas não me retira, por um momento que seja, a alegria que senti por estes e tantos outros momentos passados atrás de uma bola, de cabelos ao vento, a aprender inerentemente tanto sobre o ser humano e a vida. E a ser verdadeiramente feliz.

35. Às novas gerações (que, de acordo com os robots que cagam sentenças a torto e a direito, serão as mais bem preparadas de sempre), deixo o meu singelo e bem-intencionado conselho: tirem a ficha da tomada. Desliguem-se de todas as i tretas e vivam o mundo real, a vida. Corram. Brinquem. Sujem-se. Esbardalhem-se. Toquem. Apaixonem-se. Respeitem. Sintam. Levem tampas. Estejam presentes no momento.

36. É esta a essência da vida. E do futebol. Joguem-na.

RedMist

VC disse...

Estou de acordo com o Post, mas deixem o homem ter "opinião". Claro que é uma opinião assente em "bitates" o que em boa verdade vale 0 (zero). Apesar de tudo faz bitaitice, goste-se ou não, e só vê quem quer. Aplica-se aos restantes comentadores da SIC, TVI e RTPN (agora 3 se não me engano), salvo raras exceções como o Daniel Oliveira (3) e o David Borges (SIC). TODA ESTA GENTE NÃO TEM FORMAÇÃO SUPERIOR EM FUTEBOL.

Porém este "meu sentimento" piora, quando os comentadores são ex ou atuais jogadores de futebol. É tenebroso. E estes, pasme-se, são "doutorados" superiormente em futebol, os orgulhosos "homens de futebol", A casta.

Para terminar, volto ao Rui Santos: fico sempre com a impressão de que o homem sabe aquilo que todos sabemos de futebol (ou até mais porque o homem anda nisto à mais de 30 anos), mas conhece muito bem o "basfond" futebolês, onde "come", mas nunca divulga e é isso que lhe mantém aquela aura de "mestre" quase, quase um "homem do futebol" e aceite entre eles.
Num cafezinho na Gandara sabem muito mais de futebol do que ele.

Ricardo disse...

RedMist, tu és delicioso. Obrigado por estes comentários.