segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Umas ideias sobre o que vimos ontem

- Nunca é demasiado: obrigado, futebol. Este maravilhoso deporto anuncia-nos sempre que podem acontecer coisas destas. Sonhamos com isto, imaginamos à noite vitórias destas, criámos em crianças vários cenários idílicos como o de ontem. Quando acontece, resta agradecer. A perder nos descontos, marcamos dois golos em menos de um minuto e ganhamos o jogo. É futebol e é lindo.

- Mau jogo do Benfica, há que admitir. Sim, criámos situações de golo para uma vitória tranquila, mas, primeiro, a forma como as criámos (mais por erros individuais adversários do que por mérito nosso) e, segundo, a incapacidade de finalização (competência é tudo: não basta ter oportunidade, há que marcar golo), revelam que o Benfica tem ainda, e já em competição, muito que trabalhar se quiser derrubar a maior parte das equipas da Liga Portuguesa - quase todas jogando da forma como o Gil o fez ontem. 

- Lima e Rodrigo não é a melhor solução - há que posicionar atrás de um deles um jogador com outras características, mais criativo e capaz de alongar o jogo, tanto desde o miolo até às zonas de decisão, como para as faixas. Os dois juntos tornam-se previsíveis e facilmente aniquilados: jogam muito na horizontal entre os defesas, não têm qualidade para servir de transporte e ligação de trás para a frente. Lima, ainda assim, e se quisermos jogar com os dois, tem de ser o segundo avançado. Jesus joga com eles trocados. Rodrigo é primeiro avançado, nunca segundo; Lima onde rende mais é no apoio ao ponta-de-lança. Há Markovic, há Djuricic, há Gaitán. Passa pela utilização de um deles a melhoria táctica, técnica e sobretudo criativa do processo ofensivo da equipa.

- A generalidade da opinião fala num "finalmente tirei as dúvidas: o grupo está unido". Lamento, mas discordo. É evidente que um jogo ganho naquelas circunstâncias une pontualmente qualquer equipa. Só quem nunca jogou futebol pode achar que aquilo não aconteceria sempre, em qualquer grupo de trabalho. 

O momento foi extraordinário, claro que todos se uniram e abraçaram. Resta depois enquadrar esse momento - que, apesar de fantástico, é uma excepção e raramente repetido - com os outros sinais: Jesus faz um sprint para os jogadores, desesperado por um momento de união; Jesus fala com Maxi, que lhe responde de forma bastante fria; Luisão, no segundo golo, em vez de ir festejar com os colegas, dirigiu-se ao público de forma nojenta (um capitão não faz aquilo nunca; Luisão continua a demonstrar falhas graves de comportamento). 

O grupo não está unido, a maior parte dos jogadores não está com Jesus e isso terá repercussões a curto/médio prazo. O balão de oxigénio dado pelos dois golos de ontem é mesmo só isso: serve para mais uma semana. Se perdermos em Alvalade, voltará tudo ao mesmo. Ganhando, poderá (vamos ter fé) haver uma esperança numa reviravolta psicológica e de confiança por parte dos jogadores no treinador, mas será sempre com prazo curto. A aliar ao mau futebol que temos apresentado, o destino de Jesus está traçado: não chega ao Natal em condições de discutir o título. Resta saber o que fará Vieira, sabendo que há 3 dias atrás garantiu que Jesus é o seu treinador.

- Vieira a 23 de Agosto: «Sabem que eu não gosto de aparecer. Nas vitórias nunca apareço». Dois dias depois, vem cavalgar o momento de uma reviravolta nos últimos minutos. É Viera vintage. Agora já nem é preciso esperar um mês para se contradizer; contradiz-se dois depois e a malta aplaude. E se o Benfica tivesse perdido ou empatado, Vieira apareceria? A resposta fica ao critério intelectual de cada um.

- Gostava que um adepto que vai para o estádio assobiar os jogadores, sacar de lenços brancos a 10 minutos do fim do jogo com a equipa a precisar de apoio ou que sai do estádio com a equipa a perder e com 15 minutos para poder dar a volta me explicasse o que caralho vai fazer para o estádio, porque eu sinceramente não consigo compreender. Achará este bronco (e são muitos, os broncos que o fazem) que ser crítico de Presidente, treinador ou jogadores é ir prejudicar a equipa ao vivo? Meus caros broncos, a crítica e a luta contra esta gente que dirige o nosso clube faz-se ou em sítios que não prejudicam o Benfica (internet, essencialmente) ou onde há, por direito, a discussão entre sócios (Assembleias-Gerais). 

No estádio APOIA-SE a equipa. Não se assobia o Cortez (que é medíocre, é verdade, mas tem de sentir apoio ao vivo e a cores, não associos), não se saca de lenços brancos e não se sai do estádio quando a equipa está a precisar de nós, caralho. Não confundam ser-se crítico de uma Direcção com ir prejudicar o Benfica onde ele precisa do verdadeiro apoio: o de estádio, o presente, o ao vivo, a cores e olhos-nos-olhos. Ouvidos-nas-gargantas. Ali é para APOIAR O BENFICA - não na net, com "Eu apoio o Benfica e por isso só digo bem de tudo" e outras imbecilidades. Deixem isso para os pobres de espírito. O nosso apoio é apoiar o Benfica ao vivo durante todo o ano. Estamos esclarecidos?

- Quando cheguei a casa, tinha mais de 30 comentários para apagar. Todos na mesma sequência de anormalidades: «Já estavas a afiar facas?», «Estás triste, cabrão?», «Mama, ficaste com um melão!», «Sofre, portista de merda!», acho que já perceberam a ideia. É deprimente ter de ler estes mentecaptos, estes pedaços de esterco humano. O mais curioso é ver as horas e minutos em que os comentários apareceram: quase todos ainda o Lima estava a cabecear para a baliza. 

O que faz um mentecapto quando o Benfica dá a volta a um jogo complicado? Sentadinho no sofá - o estádio não dá jeito, não fica a caminho, gasta-se dinheiro e é uma chatice -, em vez de festejar o golo do Benfica, vai para um blogue de um gajo que vai a quase todos os jogos do clube há anos a fio dizer que ele ficou com um melão. Isto enquanto esse gajo, eu, está aos abraços a viver o golo e a vitória. É este tipo de merda humana que leva o Benfica para o abismo em que está enfiado - gente estúpida, sem nexo das coisas, incapaz de apoiar o Benfica onde ele deve ser apoiado, mas que acha, do alto da sua imbecil arrogância, que é mais benfiquista do que os outros.

Um ser que venha a este blogue e ache que eu fico feliz com não-vitórias do Benfica ou que não sou benfiquista tem de ser imediatamente lançado no espaço e tornado satélite de algum planeta indefinidamente no tempo, de fio-dental com tigrezas e com um cartaz na testa: «eu estou aqui porque não preencho os requisitos mínimos de QI para habitar o planeta Terra».

Boa semana, companheiros.


Gosto deste cabrão


domingo, 25 de agosto de 2013

Como é lindo o futebol

O intelectual anti-futebol gosta de livros, de música, de pintura, de cinema, de escultura, de procurar na arte o orgasmo da vida. O intelectual anti-futebol passa noites de cigarro entre o indicador e o dedo do pirete em riste, com olhar melancólico para aquele quadro do Coltrane que está na parede, enquanto disserta sobre o orgasmo que é a cultura e a imbecilidade de quem segue essa coisa de ver "22 homens e uma bola".

O intelectual anti-futebol despreza o que não conhece e sente orgasmos a achar-se superior por ter dentro do peito a boçal ideia de que a cultura é o contrário do desporto - ou mais ou menos, porque o intelectual anti-futebol até gosta de lembrar aquele 7º lugar em canoagem de uma qualquer portuguesa de quem ele não sabe o nome, só para concluir o seu brilhante raciocínio numa noite de Bairro Alto: "o futebol consome tudo, é uma vergonha". O que o intelectual anti-futebol ainda não percebeu é que o futebol - o mais visceral, puro e maravilhoso que há no futebol - é a própria vida e é a mesma cultura e a simbologia da vida que ele procura, bem, nos livros, na música, nas esculturas e nos quadros.

Um dia o intelectual anti-futebol entrará num estádio de futebol por enfado, por convite de um amigo, preparado para dissertar muito brilhantemente sobre o tédio que é ver "22 homens e uma bola". E há-de apanhar um jogo como o de hoje. E há-de sentir que o momento em que uma equipa que marca dois golos nos últimos dois minutos e passa da derrota à vitória num suspiro dá orgasmos tão múltiplos como ouvir Thelonious Monk, ler Camilo, ver um filme de Bergman, reconhecer Velázquez ou passar uma noite na praia nadando com o seu amor.

O regresso do Oráculo

Oráculo Ontiano tem andado desaparecido, entregue à contemplação das estrelas, à lenta e parcimoniosa arte da profundíssima introspecção, dedicado ao exercício sublime do pensar em coisa nenhuma. A medo, quase terror, visitei-o na sua gruta milenar, entre a serra e o céu, um lugar despido de artefactos, bibelots e tapetes de Arraiolos. Só uma camita pequena - Oráculo mede o que os homens medievas mediam -, um pote de barro cheio de arroz e uma fonte por onde brotam, além da água cristalina, brilhos de rochas e luzes de estranhos reflexos. Toquei-lhe ao de leve no ombro.

- Oráculo...
- Já sei ao que vens. Deixa-me só colocar este pirilampo no chão.
- Venho ao de sempre, já sabe.
- Alegra-te, filho, hoje é um dia bom.
- Vamos ganhar, Oráculo?
- Não só isso. Hoje será à antiga.
- Como assim?
- 7-0, rapaz. 7-0!
- Tem a certeza, senhor? Isto não tem andado famoso...
- Não há mentiras nas estrelas.
- Mas, se já morreram, não podem estar enganadas?
- Precisamente por já estarem mortas é que estão correctas.
- Não compreendo, Oráculo, mas confio nas suas palavras.
- Agora vai, que me tapas o céu.

Deixei-o de meia-cara inundada de lua e a outra na total escuridão da gruta. Desci a serra a correr em direcção ao Estádio. Tenho de alegrar o meu povo. Senhores, sem mais nem menos: 7-0!

A originalidade de fazer um 11

Artur
Maxi, Luisão, Garay, Melgarejo
Matic
Salvio, Enzo, Ola John
Gaitán
Lima

Mais um jogo de pré-época

«Numa clara relação "causa-efeito-causa", regressa o fim de semana, volta o SLB às lides futebolísticas... só não sei é se volta numa perspectiva competitiva ou apenas numa dinâmica de ganhar ritmo... quer dizer... o jogo de hoje conta para o campeonato 13/14 ou insere-se já na pré-época 14/15? Espero que seja esta última porque os meus presidente deixou-me todo com tremeliques nas mãos, só de pensar nas coisas novas que vamos ver daqui a um ano... despachemos o gil a toda a brida, que já só ficam a faltar 28 jogos para iniciarmos a temporada de sonho.»

A Mão de Vata

É preciso apoiar

Hoje é dia de apoiar. Mas... apoiar como os nerds na net? Dizer muitas vezes "eu apoio o Benfica" no teclado, enquanto preparam o sofá de casa ou descem até ao cafezinho central? Não, esse é o apoio dos medíocres. O apoio que nem é apoio nenhum, porque para o Benfica é irrelevante se na internet se diz "aquele jogador é uma merda" ou "eu apoio muito o Benfica" ou o já clássico "Carrega, Benfica!".

Apoiar o Benfica é ir atrás dele por onde ele for. É ir ao estádio. Antecipar o jogo com amigos. Beber uns copos (pode ser coca-cola), discutir o Benfica, fazer 11´s, dizer mal do Vieira, ter esperança numa nova Direcção que revolucione o clube e o respeite. Mas os insatisfeitos deixam de apoiar o Benfica? Não, lá estamos: satisfeitos e insatisfeitos, juntos a apoiar o Benfica. O que é apoiar o Benfica?

Apoiar o Benfica é saber que há jogadores que não merecem vestir aquela camisola e passar 90 e tal minutos a cantar, a aplaudir quando o jogador perde mais uma bola ridícula, a puxar pelos companheiros da bancada que acham que estão no cinema. Apoiar o Benfica é saber que só o que acontece ao vivo, a cores e olhos-nos-olhos serve de apoio. O outro, o apoio de internet, deixo para os nerds que raramente põem os pés no estádio, não vão a Assembleias-Gerais e desconhecem totalmente o que é o clube. Talvez por isso aceitem tão execrável Direcção. 

Apoiem muito no facebook, que eu e os outros 29.999 habituais que passam o ano à chuva e ao frio, sempre a apoiar o Benfica, depois mandamos uma foto do relvado. Não dá é para postar o cheiro da grama.

sábado, 24 de agosto de 2013

O que verdadeiramente disse Vieira

Após uma passagem pela blogosfera benfiquista, a conclusão sobre a capacidade analítica dos adeptos do Benfica é, mais do que alarmante, desesperante: a sua grande maioria ainda não percebeu, 13 depois, quem tem à frente do clube. Desde crenças absurdas («agora é que vai ser!»), passando pela ingenuidade das análises («muito boa entrevista!») e acabando na opinião de quem só pode ou ter algum interesse dentro do Benfica ou sofrer de oligofrenia profunda («mamem, o Grande Presidente enrabou-vos a sangue-frio" - de facto, enrabou, mas não foi os críticos; enrabou os apoiantes e sobretudo enrabou o Benfica), de tudo se lê menos o que devia ter sido lido. 

Nós, como ancestrais especialistas na arte de descodificar Vieira - andamos há anos a fio a tentar abrir os olhos a esta gente; alguns, poucos, já os abriram; muitos ainda andam vendados -, temos a obrigação moral de explicar, muito devagarinho, o que disse Vieira ontem à noite. Não o que lhe saiu da boca, mas o que verdadeiramente pensou e disse. É-nos obrigatório este papel. É o Benfica que o exige, encostado a um canto da sala em prantos, de joelhos, acabrunhado, esperando de nós uma acção que o proteja desta corja que o vai sugando e matando aos poucos; esperando que consigamos iluminar o espírito dos adeptos menos aptos à análise da realidade - o que não está à tona nem à superfície; o que existe sem que os olhos o alcancem. O que disse então e verdadeiramente o Presidente "Se calhar" Vieira?


«Peço aos benfiquistas que deixemos de olhar para trás e que olhemos para a frente»

«Peço aos benfiquistas que esqueçam todas as mentiras que disse desde 2000, que olvidem todas as promessas que não cumpri desde 2000, que não se lembrem do inscuesso desportivo e financeiro que tenho construído desde 2000 e que olhem para a frente e oiçam todas estas mentiras, promessas não cumpridas e insucesso que eu vou já de seguida anunciar»


«Foi um erro ter despedido Fernando Santos em 2008 mas não voltarei a cometer o erro»

 «Não despedi o Fernando Santos no final da época anterior para poder usá-lo como bode expiatório assim que o ambiente se tornasse insuportável - mais uma medida de grande capacidade para me manter no poleiro e que o tempo (já estamos em 2013 e eu continuo por cá) veio a dar-me razão. Agora não cometi outra vez o erro de despedir Jesus no final da época para assim poder salvar o couro, despedindo Jesus a meio do ano, se as coisas derem para o torto»


«Há duas épocas o Bayern de Munique também perdeu tudo, mas na época seguinte ganhou tudo»

«Vou lançar a minha primeira ideia absurda, que eu já sei que eles papam tudo e adoram estas analogias imbecis que só fazem sentido na cabeça de mentecaptos e crentes na Nossa Senhora de Fátima: como o Bayern perdeu tudo e depois ganhou tudo, nós, por obra e graça do Senhor, mesmo que continuemos uns incompetentes de primeira, vamos ganhar Campeonato, Taça, Taça da Liga e Champions. Na próxima semana é vê-los a papaguear isto como verdade universal»


 «Um dos grandes objectivos do Benfica esta época é ganhar o Campeonato Nacional»

«Não posso prometer objectivos tão estapafúrdios como o Benfica ser campeão nacional - afinal, em 13 anos ganhei 2 e um nem devia ter ganho e o outro deu-nos um maravilhamento tal que andámos a festejar demasiado tempo e comprometemos a outra época -, mas tenho de falar em objectivos, assim a coisa passa com jeitinho e fica sempre bem traçar o Campeonato Nacional como uma meta a atingir. É claro que, pelas promessas que fiz em 2012, este campeonato é obrigatório, assim como os dois seguintes, mas daqui a uns meses já ninguém se lembra disto e, se se lembrarem, eu depois falo do Vale e Azevedo e da corrupção e eles calam-se»


«Também queremos passar a fase de grupos da Liga dos Campeões»

«Nas últimas três participações, só passámos uma vez - tem de ser um objectivo. Afinal, estamos cada vez mais endividados e o dinheiro da Champions ajuda a mascarar por mais uns tempos a real situação financeira do clube»


«A contestação que existe hoje é direccionada e bem organizada. Há uma campanha bem montada contra mim»

«Há quem comece a perceber que sou a maior fraude da História do Benfica - eu e o meu amigo da Carregueira. Tenho de lançar esta ideia aos benfiquistas de que me querem tirar do poleiro e já andam muito organizados nessa missão - esta aprendi com o meu amigo da Carregueira. Tenho a certeza de que os meus apoiantes comem isto com deleite e vão insultar decentemente quem exponha a fraude que eu sou»


«Quem não tem rabos de palha, não tem medo»

«Adoro lançar estas expressões populares para a maralha. Nunca percebi bem porquê, mas eles interiorizam estas idiotices que digo com um dever submisso que me fascina. E a ironia de poder mentir descaradamente enquanto finjo que digo a verdade não tem preço. Os rabos de palha que tenho são tantos que só peço a Deus que consiga sair do Benfica de forma discreta antes de eles aparecerem todos aos olhos da populaça»


«Não vale a pena entrarmos por um caminho que possa por em causa este projecto. Seria terrível para o Benfica começar outro ciclo»

«Acho que já abusei das vezes em que disse que iria começar um novo ciclo. Agora vou dar-lhes a ideia da estabilidade: a verdadeira estabilidade nas derrotas, mas ainda assim estabilidade. O projecto é este - temos tudo para continuarmos a perder consecutivamente. Em equipa que perde, não se mexe»


«Podem-me criticar, tenho a consciência tranquila, e tudo o que faço é pelo bem do Sport Lisboa e Benfica. Há que ter muito respeito por esta instituição»

«Esta da consciência tranquila também aprendi com o meu guru ideológico: o meu amigo da Carregueira. E também noutras passagens de biografias dos grandes ditadores - o meu amigo Juan é muito culto e costuma mostrar-me palavras-chave para dizer em situação de aperto. Diz-me ele que se disser na mesma frase "Sport Lisboa e Benfica, "esta instituição" e "tenho a consciência tranquila", o número de pessoas que me respeita e me entrega devoção submissa aumenta consideravelmente. Parece que é uma coisa do forno (ou será foro?) sugestivo. Eu não percebi o que disse o meu amigo Juan, mas a verdade é que acho que ele tem razão»


«Tudo isto não foi feito com assobios, como tem acontecido nas últimas Assembleias-Gerais»

«Esta também me disseram para dizer: "tudo isto". Ninguém sabe bem o que é "tudo isto", visto que, além das minhas obras de que muito me orgulho e têm permitido que apareça em grande destaque como um dos mais ricos do país, sei que só tenho cometido disparates, mas resulta e isso é que é importante. Isso e falar nos assobios, que a maior parte dos benfiquistas como não vai às Assembleias-Gerais acha que é anormal e que antes elas eram passadas num silêncio sepulcral. O que me vale, realmente, é que a maior parte dos benfiquistas desconhece o próprio clube»


«Eu escuto as críticas, mas não tolero calúnias. A feira das vaidades não vai voltar ao Benfica»

«Sempre achei genial esta da feira das vaidades. E fui eu que inventei!, ninguém me disse para dizer isto. Teve uma aceitação popular extraordinária, as pessoas acolhem com grande alegria esta expressão. E eu, que sou um vaidoso de primeira e uso o Benfica como quero e me apetece, ainda me alegro mais de poder dizer o que sou insinuando que outros são como eu e ainda levar aplausos por isso. Já o ar compreensivo como digo que escuto as críticas - quando nas Assembleias estou o tempo todo a olhar para o telemóvel - e não aturo calúnias - quando mando os sócios benfiquistas para o caralho -, nem sei como classificar. Genial, eu diria. Mas eu sou humilde e venho do povo. Vou deixar que os meus submissos me chamem isso por mim»


«Não sou eu que dou pontapés na bola»

«Eu só escolho treinadores, directores-desportivos e quase sempre sou o responsável por tudo o que se faz no futebol. Se sou incompetente a escolher? Sim, sou. Mas depois não dou o pontapé na bola, logo posso sempre culpar os jogadores pela minha incompetência»


«Quem me conhece sabe que passo dez a doze horas no Benfica todos os dias»

«É uma das minhas frases de marca e muito me orgulho dela. Não diz nada mas diz tudo. E, para mim, o Benfica está em todo o lado, em todo o mundo! Se eu estou no Brasil e o Benfica joga a época contra o Estoril, eu considero - e até contabilizo o tempo de jogo como estando ao serviço do clube - que, apesar de estar numa praia em Fortaleza, estou "no Benfica"»


«Sabem que eu não gosto de aparecer. Nas vitórias nunca apareço»

«Eu só apareço quando as vitórias parecem estar mesmo a chegar e eu preciso de aparecer para todos saberem quem é o grande responsável por elas. Como é raro ganharmos alguma coisa, aproveito sempre esses momentos para aparecer. Só ainda não entendi por que razão a vida me traz tantas agruras: quando parece que o Benfica vai ganhar, eu apareço para saberem que eu estou presente e depois perdemos sempre tudo. Este ano até mandei o Juan fazer uma conferência para sermos os maiores e gozarmos com o pintinho mas aquilo correu mal e depois fizemos figura de parvos, mas pronto, hei-de aparecer outra vez, quando estivermos quase a ganhar tudo. Eu hoje nem queria aparecer - irrita-me que os benfiquistas me vejam quando o ambiente está assim crispado, mas eu sei que posso sempre lançar umas mentiras e umas promessas que eles vão continuar a acreditar em mim. Às vezes penso se isto é correcto, mas o Gomes da Silva diz-me logo para me deixar de ideias tontas. Diz ele que o mundo é um mundo-cão, e eu rio-me muito com ele e quando me lembro como o calei quando lhe dei um tacho»


«Não renovei com Jorge Jesus por causa do interesse de outros clubes»

«Adoro quando não tenho de mentir. É verdade que renovei com o Jorge porque não queria que o Porto o fosse buscar e ele ganhasse tudo lá e demonstrasse que eu sou um dos maiores incompetentes da História do Benfica, mas não foi só por isso. Também queria ter o Jorge para poder queimar esta época, se as coisas derem para o torto»


«José Veiga não é nem nunca será benfiquista»

«Apenas confirmo coerência, e isso é tão raro que é sempre bom quando o posso fazer. Eu. como gosto de colocar no Benfica gente que não é benfiquista, na altura achei que o Veiga tinha esse requisito essencial. Depois chateei-me com ele porque ele estava a ganhar muito protagonismo e até ganhámos um campeonato e tudo - mais uns tempos e os adeptos já não me viam como o herói que eu acho que sou. Tanto que depois até disse que nem devíamos ter ganho aquilo, que era para desvalorizar o trabalho do Veiga. Ainda pensei que a frase fosse mal-recebida, mas não, os benfiquistas continuam todos os dias a surpreender-me. São maravilhosos comigo»


«Rui Costa é o líder do departamente de scouting do Benfica. O seu gabinete é ao lado do meu?

«Quando fomos campeões, tive de afastar o Rui da ribalta - é talvez o mais perigoso de todos, porque pode fazer-me muita sombra e os adeptos até gostam dele. Atirei-o para outras funções e ele teve de aceitar porque tem umas coisitas pessoais - de que não vou falar aqui por respeito ao Rui - comigo e calou, claro. Agora está na sombra, como tem de ser e vai fazendo umas coisas. Esta altura é crucial para queimar o Rui - vou dizer que ele é responsável por todo o scouting, que está em sintonia com o Jesus e assim, quando as coisas correrem mal, cá está mais um coelho tirado da cartola. Só tenho medo que ele se rebele um dia destes - o malandro, apesar de estar acomodado, é benfiquista e esses são sempre os mais perigosos»


«Cardozo foi colocado num treino especial para recuperar mais depressa»

«Ainda hesitei se devia dizer isto, mas já aprendi que eu posso dizer tudo. Tratei do caso Cardozo da forma mais idiota que pude, para ver se o compravam e eu livrava-me do problema. Agora tenho outro nas mãos - ninguém o comprou e eu tenho de arranjar forma de convencer o Jesus a aceitá-lo e a reintegrá-lo. São casos destes e a forma como os benfiquistas comem tudo o que dizemos e fazemos que me mostram que não há limites para o que podemos fazer ao Benfica»


 «O mercado está aberto até ao dia 2. Não posso fazer futurologia, não sei o que vai acontecer»

«Claro que sei. Vou querer vender Cardozo, Salvio, Garay e Matic. Já vi é que não os vou conseguir vender todos a bom preço. Vão chegar algumas propostas medianas e eu farei as vendas que conseguir. Depois faz-se um comunicado mentiroso e eu meto o A BOLA a falar em negócios maravilhosos e a malta come. Não me preocupa esse assunto. A equipa depois fica fragilizada, mas isso é o menos. O dinheiro é que importa neste momento, os títulos são pormenores»


«Matic? Só sai por 50 milhões de euros»

«Não há limites para o que eu posso dizer, realmente. Às vezes estou a dizer estas coisas e sinto uma pontinha de vergonha, mas depois continuo feliz porque, afinal, isto é tudo uma grande brincadeira e não devemos levar as coisas tão a sério - a vida são dois dias. Já disse isto das cláusulas tantas vezes e depois não cumpri, há mal se disser mais umas quantas?»



«Fariña é um jogador com grande potencial. O Dubai é uma região de grande interesse para o Benfica»

«Há dois anos o Domingos apareceu a falar no interesse do Benfica no Dubai; há um ano, fomos jogar a meio da época com este Banyias; este ano, comprámos o gajo por uns milhões e emprestámo-lo ao Banyias para os gajos do Dubai gostarem de nós. Isto é estratégia financeira inovadora e visionária. Há possibilidades de construção que não podemos deixar escapar»



«Toda a gente sabe o que aconteceu em Portugal com o Roberto»

«Toda a gente sabe que comprámos um guarda-redes medíocre por 8,5 milhões de euros porque somos incompetentes. Depois toda a gente sabe que o Roberto fez uma época horrível e ajudou a mais um ano de insucessos. O que podíamos fazer? O Roberto tinha de sair. E como explicar o investimento? Fácil: mentimos aos benfiquistas e ainda gozámos com os valores: vendido por 8,6 milhões de euros! Esta foi das coisas mais geniais que a nossa equipa fez nos últimos anos. Pena terem descoberto há pouco tempo que mentimos e enganámos os benfiquistas. Mas, como se vê, eles comeram esta também e já se esqueceram. Caramba, até eu fico surpreendido com o nível intelectual desta gente. Já devem ter esquecido o que era o Benfica, naqueles tempos em que eu procurava subir a pulso na vida e dava-me com o meu ex-amigo pintinho. O Benfica, eu ainda vi apesar de não ser benfiquista, era um clube grandioso nos anos 70 e 80 e até princípios de 90. Às vezes tenho vergonha, mas depois falo com o Gomes da Silva»


«O que me revolta é haver situações pouco claras no futebol português e ninguém investigar»

«O que me revolta é ter apoiado inequivocamente o nandinho porque me tinha dito que ele andava de costas viradas com meu ex-amigo pintinho e afinal ele ainda é mais corrupto do que eu pensava. Agora não posso voltar atrás, apoio-o até ao fim, mas sempre naquela ideia de estar a matar o sistema por dentro. Os benfiquistas adoram esta expressão - sim, também fui eu que inventei»


«Eu estava lá quando o Pedro Proença foi ao Seixal. Gostei muito das explicações dele»

«Esta, confesso, disse só mesmo para depois deliciar-me em casa a ler blogues dos meus apoiantes. Eles que massacram o Proença todas as semanas, agora dirão o quê? Eu já apostei com o Rui Cunha: ele diz que agora eles deixam de criticar o Proença; eu digo que não: eles criticam sempre que for para desculparem uma derrota mas depois elogiam sempre que for para justificar a sua ida ao Seixal. Ser Presidente do Benfica é muito divertido»


«Eu não tenho SporTv em casa»

«O meu amigo Jaquim Oliveira dá-me o serviço de borla - logo, não menti muito. Como o outro amigo que me paga as quotas do Porto. É bom ter amigos assim»


«Eu só estarei no Benfica enquanto o Benfica quiser que eu esteja cá»

«Aqui menti um bocadinho. O Benfica, se pudesse escolher, eu sei bem que já me teria posto uns patins, mas como quem decide não é o Benfica mas os benfiquistas, conto poder ficar até 2024. Pelo menos!»



O gozo supremo


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pobre Glorioso

Após mais uma entrevista execrável de mentiras, enganos e demagogia que só mesmo os burros - volto a dizer para não restarem dúvidas: OS BURROS - podem comer, já nem sequer há revolta, incredulidade, raiva. Há só tristeza. É muito triste que um clube glorioso como o nosso Sport Lisboa e Benfica tenha a liderá-lo uma coisa destas.

O abre-olhos III

«Por norma, aos adeptos pede-se o mesmo que se pede aos guarda-redes. Isto é, que defendam o indefensável. Às vezes é extraordinariamente difícil.

O Benfica apresentou-se hoje, 18 de Agosto, no Funchal num estado alma que se aceitaria se estivéssemos a 27 de Maio, o dia seguinte à final da Taça de Portugal perdida para o Vitória de Guimarães Aceitava-se à míngua de tempo, esse grande escultor, como diz o povo.

Do Jamor aos Barreiros já lá vão quase três meses espampanantemente desaproveitados. Isto se o objectivo da Sociedade Anónima Desportiva que gere o futebol for, precisamente, esculpir vitórias em jogos de futebol, de preferência, umas atrás das outras. Refiro-me às esculturas.

Desconheço, naturalmente, quais seriam as expectativas dos nossos altos comandos para o jogo inaugural do campeonato. Entre os adeptos, custa-me dizer que não conheço um único – e conheço muitos numa amostra vasta e heteróclita – que acreditasse que seria hoje no Funchal que o Benfica ia, abnegadamente, colocar um ponto final a uma inenarrável série de anos a desperdiçar pontos à primeira jornada sob o comando de vários treinadores, nacionais e estrangeiros.

Lamento ter de dizer que o desastre frente ao Marítimo estava anunciado. É este o caso da jornada. Não é o caso Jesus, nem o caso Cardozo. É o caso Benfica.

(...)

Adiante. Falar de árbitros é uma coisa que hoje até fica mal aos benfiquistas. Haja decoro.

(...)

Por estes dias, entre benfiquistas, fala-se do Benfica como se fala à beira do leito de um doente não o querendo, de modo algum, despertar. Fala-se em voz baixa, quase num sussurro, num tom de consternação que só um Camilo Castelo Branco saberia pintar.

«Quando o sofrimento nos ameaça, e receamos que as forças defensivas nos faleçam, suspendem-se os outros movimentos do nosso coração, e então pouco há que esperar de nós, por que se torna incerto o nosso destino», escreveu Camilo em Cenas Inocentes da Comédia Humana. E muito nos faleceram também as nossas forças defensivas na ilha da Madeira, o que já aborrece.

O doente aparenta estar no nível zero no que respeita a capacidade de reacção. Pura e simplesmente, não reage. E já lá vão três meses desde os primeiros sintomas de ataraxia. Não se entende, por exemplo, a não-resolução do caso Cardozo com data de 26 de Maio. Não se entende se é uma impossibilidade do mercado, o que seria compreensível, ou se a manutenção do paraguaio em stand-by é uma arma de arremesso para disparar a conta-gotas contra o treinador, o que seria lamentável.

(...)

Os jornais contam-nos hoje que Luís Filipe Vieira foi ao Seixal apoiar Jesus e, consequentemente, desapoiar o seu vice-presidente que foi à televisão dizer que estava farto de notas artísticas. Triste enredo de final previsível.»

A Leonor Pinhão, tal como alguns outros - anónimos e menos anónimos -, finalmente começa a perceber que há que acabar com os paninhos quentes. Defender o Benfica não é ver uma realidade decrépita e fingir, sob o boçal pretexto de que se está a defender o clube, que está tudo bem. 

Ainda bem que abriste os olhos, Leonor. Que nunca mais os feches.

O que dirá Vieira?

- «Sabemos o que estamos a fazer no Benfica.»
- «Confiem em nós, o futuro será brilhante.»
- «O Benfica recuperou a credibilidade.»
- «Os benfiquistas têm de estar unidos e concentrados neste nosso grande objectivo.»
- «Jorge Jesus é o meu treinador.»
- «Há benfiquistas que desestabilizam o clube.»
- «O ano passado foi excelente. Só faltou ganhar títulos.»
- «Estamos fortes.»
- «No futuro, ganharemos não um, mas dois ou três títulos seguidos.»
- «Há factores externos que não deixam o Benfica ganhar.»
- «Se calhar, se tívessemos ganho tudo hoje não havia críticas.»
- «Se calhar, é importante perceber como funciona o futebol português.»
- «Se calhar, as pessoas não sabem o que se passou com Cardozo.»
- «Se calhar, há uma estratégia que o Benfica tem e que dará frutos.»
- «Se calhar, era melhor ganhar títulos e deixar o clube na bancarrota.»
- «Se calhar, os tempos daquele senhor que está na Carregueira é que eram bons.»
- «Se calhar, é preciso perceber como estava o Benfica há 14 anos.»
- «Se calhar, o negócio Fariña passa por uma estratégia que as pessoas não entendem.»
- «Se calhar, os benfiquistas ainda irão ter uma surpresa.»
- «Posso garantir que os próximos anos serão de grande sucesso desportivo.»
- «Se calhar, está na altura de mudar algumas coisas no Benfica.»
- «Se calhar, terei de dedicar-me mais ao futebol.»
- «O Benfica não é gerido de fora para dentro.»

...

Jesus ganha Campeonato, Taça, Taça da Liga e Champions - alguns adeptos suicidam-se por emoção; os outros assinarão um contrato que permite a Vieira ficar no clube até morrer.

Foi a resposta mais votada na sondagem ali do lado. As maiorias são assim. Muito...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Boas férias... Para mim!



Amanhã, é já amanhã que, finalmente, partirei para umas, ainda que curtas, merecidas férias. Durante o período de uma semana (é pouco, bem sei), apenas de forma esporádica terei acesso à rede que nos liga uns aos outros e ao mundo. Dessa forma, e a não ser que as circunstancias o justifiquem, dificilmente voltarei a escrever sobre o Benfica antes do regresso ao mundo real. Por isso, proponho-me escrever uma sumula do passado, presente e futuro imediato do nosso Sport Lisboa e Benfica.

Como é sabido, fui frontal e reiteradamente contra a continuidade de Jorge Jesus no comando técnico da equipa principal de futebol. Este assunto está falado e repisado, mas recupero esta minha posição para que possa partir dela para a análise daquilo que, a meu ver, tem de ser o futuro mais imediato do Benfica, desportivamente falando.

Ainda que tenha sido contra, a partir do momento em que se renovou com o treinador, e relembro que ainda não passaram 2 meses, jamais se pode colocar a hipótese de despedimento sobre a sua cabeça, por todas as razões e mais algumas:

           - Quero acreditar que na ponderação da renovação ou não do vínculo do treinador, e ainda mais após os acontecimentos no Jamor, tenha entrado em equação a possível perda de balneário por parte do treinador, por isso só posso assumir que a renovação aconteceu por haver a firme certeza de que os jogadores estariam com o líder (se assim não foi, é apenas mais uma prova da incompetência que reina no Benfica), isto apesar dos indícios poderem demonstrar o contrário. Ora, se na altura da renovação o plantel estava em comunhão com Jorge Jesus, não me parece credível que se tenha perdido ainda antes da competição se iniciar.

              - Ainda assim, se o plantel não está com o treinador, não é deixando transparecer a ideia de que este está dependente do próximo jogo que fará os jogadores unirem-se em torno do seu líder, bem pelo contrário. Se quem dirige o Benfica der a ideia de que o treinador pode ser dispensado a qualquer momento e se os atletas não estiverem com ele, então, realmente o treinador poderá sair a qualquer altura. Há que demonstrar quem manda e dirige.

           - Aquando da renovação, foi publico e notório, que foram dadas a Jorge Jesus todas as suas exigências (até, veja-se ao ridículo da coisa, se despediu um superior hierárquico por exigência do treinador), ou seja, toda a época, desde jogos particulares a constituição do plantel, foi pensada e projectada em função das ideias de Jorge Jesus, logo, seria um tremendo absurdo que, após 2 meses, se deitasse todo esse trabalho fora, há que haver firmeza e convicção nas decisões. 

         - Para além de se tratar de um tremendo desperdício de tempo, dinheiro e trabalho, nomear um novo treinador para conduzir um plantel pensado em função das ideias de outro – e aqui se vê a fragilidade e inexistência de uma estrutura para lá de Jorge Jesus, bem ao jeito daquilo que ele gosta, como tantas vezes já o disse – é desperdiçar também uma época e, mesmo, um novo treinador, ou seja, mesmo que chegue um novo treinador, dificilmente fará melhor que Jorge Jesus, se for “obrigado” a trabalhar com as ideias do antigo, logo, dificilmente não será um treinador para “queimar”.

                - Por ultimo, e não menos importante e óbvio, está a questão financeira. Claro que renovar com Jorge Jesus era arriscado, mas algo ainda passível de discussão, agora, renovar por dois anos e nos valores que são conhecidos, não é incompetência, não é burrice, não é estupidez, não é subserviência a um funcionário, é tudo isto junto e muito mais. Logo, se por alguma razão o treinador for dispensado durante esta época e pelos valores que se sabem, só resta uma solução a quem o fizer: Ir com ele! Isto se ainda houver alguma dignidade e vergonha na cara, coisa que duvido.

Ainda no plano do treinador, parece cada vez mais certo que o Benfica avançará para a contratação de um novo guarda-redes para o plantel. Nunca falei no assunto, pois todos os nomes que vão aparecendo, ainda não passaram disso mesmo, mas porque só regressarei por altura do fecho de mercado, e para não falar depois da casa arrombada, vou comentar o assunto por antecipação e à luz do que se tem dito, escrito e lido. Porém, gostaria de realçar que, no que vou dizer a seguir, não está nem estará em causa o valor individual dos nomes apontados ao clube (Diego Alves, Ben Forster e Júlio Cesar). 

Se recuarmos ao início da pré-temporada, mais precisamente à entrevista do treinador à televisão do clube, facilmente nos lembraremos do que disse Jorge Jesus sobre Oblak, ou seja, que iria voltar a ser emprestado por ser demasiado novo e ocupar um lugar de estrangeiro na lista a enviar para a UEFA. Apetece-me perguntar: Demasiado novo? Que idades tinham David Luiz, Di Maria, Salvio, ou Rodrigo, quando fizeram o primeiro jogo pelo Benfica? Ou, para falar de algo actual, que idade tem Markovic? Sim o posto de guarda-redes é o mais específico e, talvez, o mais difícil de “aguentar” a nível psicológico, então pergunto: Que idades tinham Casillas, Valdes, Buffon ou Vítor Baía quando se estrearam? Ou, para ser mais actual, que dizer de Courtois, Neuer, Ter Stegen, De Gea ou Rui Patrício? Acho que, sobre a idade, estamos conversados, não? É óbvio que não desprezo a ideia preconizada pelos especialistas de que um guarda-redes atinge a sua maturidade e competência plena por volta dos 30 anos, mas isto não quer dizer que antes de lá chegar, sejam maus ou não sejam capazes de atingirem o topo, certo? É que se assim não for, mais vale criar uma regra específica para os guarda-redes que lhes permita terem idade júnior até aos 25. Já agora, para Jorge Jesus “confiar” em Oblak, quantos mais anos deveria andar emprestado? 5? 10?

Analisando os nomes mais falados ou, apenas o mercado nacional, facilmente perceberemos que o possível novo guardião não será Português, mas não era esse um dos problemas do Oblak?

Por outro lado, este interesse num novo guardião aparece sob o pretexto de haver a necessidade de se criar uma “sombra” a Artur, para que se lhe dê competitividade na luta pelo lugar de titular. Fui dar uma olhadela aos planteis dos principais clubes europeus e, novamente, pergunto: Que competitividade interna têm Valdes, Buffon, Courtois, Neuer, De Gea ou Petr Cech? Isto para citar apenas alguns exemplos. Ou seja, ficamos a saber, por comparação, que um guarda-redes que seja bom, é-o, independentemente da competição interna que tenha. Ficamos ainda a saber, que Paulo Lopes não está no Benfica por competência (nem sequer para “sombra” serve), apenas para fazer figura e constar na lista da UEFA como português.

Já agora, é bom sublinhar que nada do que disse valida a atitude pouco profissional de Oblak ao não apresentar-se para os trabalhos de pré-época, no máximo, ajuda-nos a compreender que a mesma pode ter sido facilitada pelo facto de saber que, novamente, não faria parte do plantel. Ainda assim, sou eu a especular, nada tenho de concreto que me diga ter sido esta a razão.

Voltando a página e apontando “baterias” a Vieira, soubemos hoje que o presidente do clube dará amanha uma entrevista ao canal do clube. Por aqui, e pelo que foi publicado nos 3 (!!!) jornais desportivos no dia de ontem (vêm como a imprensa também serve o Benfica?), podemos confirmar aquilo que já todos sabemos, ou seja, Vieira não sabe ou não quer agir, apenas reagir. A presença no treino de ontem, deveria ter sido somada ou, no limite, substituída, pela presença do presidente na Madeira, pelo menos, no dia do jogo, mas é mais comodo dirigir o clube por telemóvel. A entrevista de amanha, deveria ter acontecido antes da entrevista do treinador ou, na pior das hipóteses e já a contar com o “adiamento” que foi feito da que tinha marcado na TVI, antes do início oficial da época. Mas dar uma entrevista na semana passada, e no canal anteriormente escolhido, era mais “chato”, porque era bem capaz que lhe perguntasse pelo final de época passada e por Miguel Rosa, Roberto, Pizzi, Fariña, Cardozo ou Melgarejo.

Ainda assim, esperemos pela entrevista/comício que amanhã terá lugar para que possamos saber, mais uma vez, quais as promessas e posições irrevogáveis (no conceito Portas) que Vieira vai anunciar.

Desculpem o meu alongar na escrita, mas o Benfica assim merece. E agora, Cumprimentos a todos e… Boas férias… Para mim.

A regra de três simples da incompetência

Apoio inequívoco a F. GOMES --------- Perda de legitimidade para falar em corrupção
Proença dá aulas no Seixal    ---------                                       X

Boa ideia, mau dia





Apesar de discordar FRONTALMENTE da escolha do dia da Manifestação - o dia de jogo é sagrado; os adeptos devem estar TODOS focados na convivência entre amigos antes e depois no apoio à equipa dentro do estádio -, não posso deixar de publicitar a ideia e regozijar-me por ver que há quem queira lutar por um Benfica melhor - que passa, inevitavelmente, pela saída de Vieira do cargo de Presidente do clube.

Quem quiser ir, fica então informado. Mas não se esqueçam: dentro do estádio, é apoio durante 90 minutos. Nem assobios nem insultos a ninguém nem cantorias por jogadores que não estão. A luta faz-se longe dos locais onde o APOIO VERDADEIRO se faz: os estádios deste Mundo onde jogue o Benfica.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lavar as mãos já não é possível

«O título desta crónica remete para a cena bíblica em que a multidão delirante, juntando servos e juízes, pedia a crucificação de Jesus.

Este outro Jesus, Jorge, é o alvo de uma esmagadora maioria que ainda há três meses reclamava uma renovação forever que dele fizesse o Ferguson da Luz. E sem que surja uma voz da estrutura benfiquista que o defenda.

Já agora, teria de ser (de ter sido já) o presidente Luís Filipe Vieira, por ter sido quem insistiu na continuidade do técnico português e por, aparentemente, não haver mais ninguém na estrutura, que António Carraça desapareceu sem rasto depois de Rui Costa ter desaparecido com algum rasto.

Jorge Jesus cometeu erros, vários, por teimosia sobretudo, foi mesmo o principal responsável pelas derrotas finais da época anterior, mas há uma culpa que não tem de certeza: a de lhe terem renovado o contrato. Era evidente a sensação de fim de ciclo que a triste cena de Oscar Cardozo no Jamor ilustrou. (A propósito, o Benfica tinha acabado de falhar três objetivos em quatro jogos decisivos - Estoril, Dragão, Amsterdão e final da Taça de Portugal - no ano em que contratou a peso de ouro um "motivador". Pode ter méritos o cidadão, mas a motivação valeu, na prática, zero).

A gestão do dossiê Oscar Cardozo foi desastrosamente lenta (ainda não resolvida!), com notícias de jornal que são um nítido jogo de passa-culpas para o treinador. Se corresse mal, iam crucificá-lo. Já falta pouco. 

Foi, no entanto e apenas, o caso emblemático de uma pré--época feita de negócios de ocasião (Fariña e Pizzi, dois bons jogadores, só visitaram a Portela de Sacavém) e falta de critério (defesas-centrais e médios ofensivos a mais, sem mais um grande médio-centro que permitisse rotação com Enzo Pérez e Matic e eventual substituição deste, em caso de venda).

Os que só veem a árvore carregam sobre Cortez e consideram--no mais fraco que Melgarejo ou... Emerson. Perdoa-lhes Cortez, que não sabem o que dizem. O problema é que quando o coletivo não dá vitórias, o óbvio é encontrar o réu mais à mão: Roberto, Emerson, Artur, Carlos Martins, agora Cortez. E crucificá-lo. Segue-se Jesus, ele próprio.

O presidente do Benfica está num dilema: sabe que não faz sentido dispensar já o homem a quem renovou o contrato, mas também sabe que mais um resultado negativo o obriga a atuar. Delegar para cima ou para baixo? A escolha é só essa. Lavar as mãos já não é possível.»

Carlos Daniel

O mar é azul porque é corrupto

Há um tipo de benfiquismo que definitivamente não é possível de entender. É o benfiquismo que acha que o planeta todo conspira contra o Benfica, que o insucesso advém não da incompetência própria mas de vários e coloridos factores que, somados, fazem com que o Benfica seja apenas uma vítima nas mãos de poderosas influências e maldades. As televisões estão todas contra o Benfica; as rádios também; os jornais, evidentemente; os jornalistas todos; os primos dos jornalistas todos; as avós de todos os jornalistas; os cães dos jornalistas conspiram, de madrugada, contra o Benfica.

Luisinho veio dizer o que parece lógico a qualquer ser pensante - se for um bocadinho mais pensante até percebe isto desde a final da Taça: Jesus não tinha condições para continuar no Benfica. Por ser incompetente? Lógico que não, apesar dos erros cometidos foi ele quem maquilhou a incompetência da Direcção. Simplesmente estava mais do que visto que o grupo de trabalho não estava com ele. Ora, Luisinho disse o óbvio. O que responderam os defensores do benfiquismo paranóico? Reflectiram sobre o que quererá dizer o pensamento de um jogador que conheceu o balneário por dentro? Não, é evidente que não. Massacraram o Luisinho, insultaram-no, passou a abutre e mal-agradecido e outras pérolas parecidas. 

Já não há mesmo pachorra para o benfiquismo paranóico. Grande parte da situação dramática em que estamos enfiados depende deste modo de pensar. Sem reflexão, sem auto-crítica, sem capacidade de antecipar problemas, sem perceber os erros próprios; apenas, ano após ano, desculpando o insucesso com factores externos e paranóias doentias, o Benfica mirra sob este mundo obscuro da estupidez e das conspirações mil. Apetece resgatar a citação de Einstein que já se tornou adorada por tantos e que reflecte a actual forma de agir por parte dos dirigentes do Benfica e de pensar por parte da grande maioria dos seus apoiantes:

«Stupidity is doing the same thing over and over again and expecting different results».

O caminho faz-se caminhando

A campa estava aberta, a terra remexida e as pegadas, de pé descalço, bem marcadas no solo. Havia sinais de luta, como se o corpo se quisesse libertar do fundo da terra. Chovia em Lisboa. O caminho que ligava o cemitério dos Prazeres, por estes dias de verão deserto, até nossa casa era longo e tortuoso, mas o caminho faz-se caminhando. O defunto não reconhecia coisa nenhuma. A paisagem que muitos anos antes era campo, hoje estava rasgada por edifícios altos de onde os homens podiam tocar o céu. Os automóveis eram diferentes e mesmo as pessoas não pareciam as mesmas, falando para estranhos objectos pequenos que levavam à orelha. No meio de toda esta selva, um único pensamento atravessava a mente deste homem que vagabundeava pela rua: chegar ao Campo Grande. Mas a idade era avançada e a paisagem estava tão diferente que, ou isso ou o instinto, o destino, ou o que queiramos chamar, acabou por guiá-lo ao bairro de Benfica. Mal chegou, aqueles gigantes arcos triunfais, onde corria o sangue da raça e da glória, tal como Fialho Gouveia os imortalizara aquando da inauguração, prenderam-lhe a atenção. Qual Campo Grande, ele sentiu que pertencia ali. Era vermelho, era em Benfica e sentia-se em casa. Seria o trajecto natural, depois das Amoreiras e do Campo Grande, regressar ao bairro que lhe dera o nome.

Andou, caminhou, percorreu quilómetros e ali estava, na Luz. Entrou e contemplou o estádio: enorme, gigante de betão com arcos vermelhos triunfais, mas escondido por trás de pavilhões e de lojas de electrodomésticos. Tudo era estranho à sua volta. Passou a ponte do Alto dos Moinhos, olhou para a direita e viu um pequeno campo onde umas crianças jogavam à bola. Sentou-se perto de um jovem. O contraste entre ambos era por demais evidente. O respeitoso bigode na face pálida do senhor com o pijama às riscas contrapunha-se à face rosada, ainda com algumas borbulhas, do jovem de t-shirt encarnada. A medo, o sexagenário iniciou a conversa:

- Então... o Benfica de hoje é isto.
- Isto? Como assim? - retorquiu o jovem.
- Isto...
- [silêncio]
- O que se passou nos últimos anos com o nosso Benfica?
- Quantos anos?
- Pois, não sei... em que ano estamos?
- 2013 - respondeu o rapaz a medo. - Não sabe em que ano estamos?
- Não me lembrava, digamos que a memória nunca foi o meu forte. Mas então, o que se passou nos últimos 65 anos?
- 65? Bom... muita coisa - começou por responder o rapaz, atrapalhado. - Eu só tenho 19 anos, só me lembro de ver o Benfica nos últimos 11 anos, mas sei a História do clube de trás para a frente.
- Óptimo.
- Nos anos 50 começámos por destronar o domínio do Sporting, vencemos a Taça Latina e inaugurámos o velhinho Estádio da Luz, que foi a nossa casa até 2003...
- O que eu perdi - suspirou.
- Mas ainda há mais e melhor. Nos anos 60 foi o domínio completo: com a chegada do profissionalismo, o Benfica ganhou duas Taças dos Campeões Europeus, foi à final de mais três, conquistou sete campeonatos e quatro Taças de Portugal.
- Taça dos Campeões Europeus? Uma prova que reúne os vencedores dos campeonatos dos diferentes países europeus? - questionou.
- Sim... - respondeu o jovem, com a voz ainda trémula. - Mas o sucesso continuou. Nos anos 70 foram mais seis campeonatos e na década de 80 mais cinco, com duas presenças em finais da Taça dos Campeões Europeus.

O idoso parecia atordoado. Não esperava que o clube tivesse atingido tamanhos êxitos. O profissionalismo, contra o qual ele batalhara, acabara por dar frutos. O Benfica já era o maior clube nacional aquando da sua morte, mas nunca esperou que atingisse tanto sucesso fora de portas.

- João, já tenho as bifanas! – gritou alguém, de longe.
- É o meu pai - atalhou o rapaz – viemos hoje ver o meu irmão mais novo a jogar. Tem 10 anitos. Está ali, com a camisola 10. Chama-se Pedro.
- Cá está a tua bifana, campeão!
- Obrigado, pai.
- Ah... bifana à Benfica – regozijou o pai – era mesmo disto que eu estava a precisar. O senhor sabe, este jovem aqui, o João, tem tudo para ser um futuro craque do Benfica!
- Ai sim? – inquiriu o homem de bigode respeitável.
- É... mas o Benfica dispensou-o no final da época passada. Disseram que nunca iria chegar longe. Veja lá, ele até era capitão dos juniores, marcou alguns golos e chegou a falar com o Rui Costa. Mas não, em vez de lhe darem uma oportunidade, preferiram dispensá-lo para contratar uns sérvios. Mas pronto, é a vida, agora há que ter fé no Pedrito!

João estava de cabeça baixa, meio triste pela dispensa do clube que amava desde que se lembrava ser gente, meio acabrunhado pela forma como o pai falava das suas esperanças no irmão mais novo. Não que o talento faltasse nos pés daqueles miúdos, mas sabiam que não chegariam longe no clube do coração.

- A propósito – lembrou o pai – ainda não fomos ver o novo Museu Cosme Damião!
- Museu Cosme Damião?! – exclamou em sobressalto o defunto.
- Sim, é verdade. Temos um museu novo, homem! Por onde tem andado? Museu novo e canal do clube, Benfica TV, um sucesso por estes dias. E a renovação das casas do Benfica, a Fundação, as modalidades, a piscina, os pavilhões, o centro de estágios, o estádio. O Benfica está moderno, está virado para o século XXI, o Benfica está forte, o Benfica...
- O Benfica não ganha porra nenhuma, pai! – exclamou o miúdo, visivelmente agastado pelo discurso do progenitor. – O Benfica está há 20 anos nesta desgraça, o Benfica vai para 20 anos dirigido por vaidosos, aldrabões, enganadores e charlatães – prosseguiu. – O Benfica ganhou tantos campeonatos desde que eu nasci como o Porto ganhou nos últimos três anos, ou seja, três!
- Mas então o que se passou? – perguntou o defunto, num misto de preocupação com o estado do clube e com o avolumar da discussão entre pai e filho.
- Sabe... – começou por responder o rapaz – nasci a 14 de Maio de 1994, no dia de uma das mais retumbantes vitórias sobre o Sporting, o famoso 3-6 em Alvalade. O Benfica foi campeão nesse ano pela última vez num longo período de tempo. Cresci no meio da festa de sportinguistas e, sobretudo, portistas, pelos campeonatos ganhos e pelas idas a finais europeias. O Benfica, depois de senhores como Borges Coutinho, Ferreira Queimado, Fernando Martins, João Santos e Jorge de Brito, passou a ser dirigido por um bando de vaidosos, oportunistas, aldrabões e charlatães como Damásio, Vale, Vilarinho e Vieira. Perdemos troféus, perdemos credibilidade, fizemos e fazemos negociatas obscuras, e, pior que tudo, roubaram-nas a militância.

O pai do João saíra. Não gostava deste espírito revolucionário do seu “mais velho”.  Não gostava que falassem mal de Vieira, homem pelo qual nutria uma profunda admiração que o tinha levado, inclusivamente, a mandar fazer um retrato do querido líder para colocar numa das paredes da sala, ideia prontamente vetada pela sua esposa, que ainda não tinha perdido o juízo e a sensatez. Esta era, aliás, uma forma comum de terminar as discussões sobre o actual presidente: quando os argumentos se esgotavam, batia em retirada. Os árbitros e a construção do novo Estádio da Luz, para o qual, diga-se, o papel de Vieira foi praticamente nulo, eram os seus argumentos favoritos, mas ele próprio já os sentia gastos de tanta utilização. Afinal de contas, dez anos de desculpas esfarrapadas fazem-se notar até mesmo no mais ceguinho dos seguidores.

- Mas então, o que ganhou o Benfica desde 1994?
- Três campeonatos, duas Taças de Portugal e uma Supertaça. Ah, e quatro Taças da Liga, uma competição nova que se criou entretanto.
- É manifestamente pouco – afirmou o defunto, baixando a cabeça em sinal de desilusão.
- Mas há mais. Mais e pior. O que me faz confusão não são as derrotas. Ou por outra, também fazem, mas há pior. O Benfica perdeu o associativismo. Ganhou um exponencial número de sócios mas perdeu militância. Perdeu massa crítica e perdeu o espírito que o caracterizava, espírito esse que infelizmente não cheguei a viver. Passámos de assembleias-gerais cheias, com mais de 4000 sócios, para meia-dúzia de gatos pingados que abanam a cabeça positivamente a tudo o que a Direcção lhes propõe. A grande verdade é que passámos de um clube de vencedores a um clube de perdedores inconformados, depois perdedores conformados e agora perdedores orgulhosos. E quem não concorda com o actual estado de coisas é apelidado de papagaio, abutre ou garotão.
- Garotão? Garotão era eu quando aos 18 anos tive aquela ideia em Belém. Nem eu próprio fui unânime entre os benfiquistas. Até eu fui derrotado em eleições. Até eu tive propostas minhas rejeitadas e votadas contra. Ninguém deveria estar acima do Benfica. Nem mesmo o seu presidente.

O rapaz empalideceu. Um arrepio atravessou-lhe a espinha, sentia as mãos a tremer. Ganhou coragem e tentou preparar a voz, mas esta saiu-lhe trémula:

- O senhor é Cosme Damião?
- Cosme Damião está morto – disse o defunto.

Não era bem isto que ele estava à espera de ver, sessenta e seis anos depois de ter partido. Desiludido, voltou costas e seguiu viagem novamente até ao cemitério dos Prazeres, onde se deitou no leito que deixara horas antes.