terça-feira, 5 de abril de 2011

A diáspora europeia para curar a depressão nacional

Dois dias depois daquele miserável jogo, a poeira vai assentando devagarinho. Há quem cure mágoas com explicações de arbitragem ou projectando o jogo de Quinta-feira e há quem pura e simplesmente se afaste. É este o meu caso. Desde o momento em que carreguei "enter" depois do esporrádico (epíteto de um nosso leitor e que achei muito correcta; obrigado, leitor) texto de Domingo, não li blogues, não li jornais, fugi a sete pés sempre que se adivinhavam resumos na televisão e lancei-me para uma visualização demente de "Modern Family" para que as dores suavemente fossem encontrando o seu cantinho esconso. A custo, periclitante, lá vim à tona de água mais ou menos salvo da intempérie.

Como não há tempo para mágoas, que Quinta-Feira temos o jogo mais importante da época, importa reflectir sobre alguns assuntos:


- A teimosia de Jorge Jesus - Desde muito cedo na época, se escreveu aqui que o Benfica não podia jogar num 4132 em jogos frente a equipas fortes que privilegiam o povoamento do meio-campo (como o Porto). Digo "escreveu aqui" para realçar esse facto extraordinário: se nós, que percebemos tanto disto quanto de técnicas agrícolas dos povos do noroeste africano, facilmente compreendemos que esse tipo de estratégia aproximava-se do suicídio (porque deixa Javi sozinho, ele que perde facilmente bolas em momentos perigosos; Gaitán pouco apto em termos defensivos e mesmo Salvio ainda não completo na forma como acompanha e (não) se junta ao meio em transição defensiva), Jesus tê-lo-á entendido ainda na pré-época, julgamos nós. E, portanto, só nos resta, se admitimos que o treinador conhece os perigos de uma estratégia desse tipo, pensar que o treinador, mais do que incompetente (que já se viu não ser), sofre de uma teimosia de tal forma grave que o força sempre para o abismo. Das poucas vezes em que experimentou outro tipo de abordagem (veja-se o jogo no Dragão para a Taça ou mesmo a segunda parte de Domingo, onde admite o erro) deu-se melhor, fosse no resultado fosse na forma como a equipa desenvolvia os processos ofensivo e defensivo.

Se a estes exemplos práticos, juntarmos o discurso alucinado e desfasado da realidade de princípio de época e a insistência em manter-se fiel às suas ideias mesmo que comprovadamente erradas, concluímos, com pena, que a Jorge Jesus falta algo para chegar mais longe: a humildade.


- Os tiros nos pés - Falar em Roberto é escusado. A minha opinião sobre o guarda-redes espanhol é há muito conhecida por quem aqui vem ler o que escrevo. Remeto, portanto, para quem se interesse pela opinião, para uns posts abaixo sobre o tema. Mas houve outro tiro nos pés, esse de dimensões iguais e sobre o qual também alertei no momento em que ele ocorreu: a venda de David Luiz. Ruinoso nos dois aspectos: desportivo e financeiro. Importa-me pouco debater o financeiro (mais uma vez, quem se interesse tem vários posts abaixo a análise à venda do brasileiro), mas interessa-me muito debater o desportivo. É que, nesse dia, falei que o Benfica comprometia de forma séria os objectivos para a época. E, infelizmente, não me tenho enganado. Não se põe em causa a qualidade do Sidnei, realça-se isso sim a fundamental importância de David Luiz no onze e, principalmente, na estratégia do modelo de Jesus. Sem o actual jogador do Chelsea (melhor de Março na Premiership, by the way), o Benfica ataca pior (porque perde a confiança de jogar mais alto) e defende pior (porque não tem a capacidade única de reagir em velocidade a uma perda e a uma bola metida nas costas da linha defensiva que David Luiz emprestava à equipa). E tudo isto seria aceitável se aceitável fosse que a venda teria sido uma inevitabilidade. Mas não foi. Tanto desportiva como financeiramente, o negócio podia, E DEVIA, ter sido feito, em melhores condições, no Verão e não a meio da época. Mas, como sempre, a visão nunca foi feita por parte dos benfiquistas a médio prazo: não, viram Sidnei fazer dois ou três bons jogos e estava já tudo em ácidos, elogiando a excelente estratégia da Direcção: dinheirinho e oportunidade de lançar um jogador que estava encostado. É a vontade irreprimível de elogiar e defender à demência a direcção de Vieira. Nada de novo. Depois os erros acontecem, sucedem-se, sente-se a falta de David Luiz. Mas o importante já foi esquecido pelos defensores do grande chefe: o tiro no pé que foi dado que condiciona os sérios objectivos que tínhamos - e ainda temos, apesar de termos perdido um deles pelo caminho e provavelmente virmos a perder mais daqui para a frente.


- As pontuais decisões de Jorge Jesus - quando se soube que Maxi Pereira estaria indisponível para o jogo de Domingo, e tendo em conta a natural preocupação de recuperá-lo para depois de amanhã, o que seria natural, apesar de poder ser criticado, seria a utilização de um jogador com as características de Maxi, mesmo que mais fraco em termos de qualidade. Por isso, a única solução possível para a direita seria ter colocado Luís Filipe. Nunca Airton. Por duas razões essenciais: porque a equipa com o brasileiro perde do ponto de vista defensivo (Airton não sabe defender na ala), potenciando um dos pontos fortes do adversário - a procura de desequilíbrios pela ala e movimentos interiores dos extremos - e aniquilando um dos pontos fortes do nosso modelo: a inclusão dos laterais nos momentos ofensivos. Tudo isto Jesus desbaratou com a inclusão de Airton. E este é um daqueles erros que vem mostrando um Jesus demasiado displicente e centrado nas suas qualidades e pouco apto a perceber os defeitos que ainda tem como técnico. Posso estar enganado, mas tendo em conta os sucessivos erros de casting que este ano Jesus tem cometido, aliado ao discurso imbecil e megalómano que lhe ouvimos na pré-época, temo pelo resto da época. É que Jesus parece não querer entender que nem todas as equipas adversárias têm a mesma valia. O que serve contra uma Naval não serve em jogos cruciais do campeonato ou da Liga Europa - facto, aliás, que tem sido evidente nos jogos europeus e que só alguma qualidade individual dos nossos jogadores e também alguma sorte (revejam-se os dois jogos contra o PSG) têm escondido. Jesus por vezes parece alheado da realidade, tal é a conta que tem de si próprio. Seria importante que fizesse uma auto-análise e esvaziasse o balão. E, já agora, que fizesse uma observação mais inteligente dos adversários europeus. É que, nas duas últimas vezes, com Estugarda e PSG, ficou a impressão de que a primeira parte serviu para sabermos como joga o adversário. Na última, principalmente, só por muita sorte (e Roberto) é que não ficámos irremediavelmente afastados da Liga Europa. Se não for pedir muito, que Quinta-Feira não tenhamos mais uma primeira parte com o coração nas mãos.



- O apoio fundamental dos adeptos - Ter visto o Estádio da Luz a meio gás no Domingo causou-me alguma perplexidade. É essa uma das razões que aponto ao não sabermos ser isto uma guerra sem quartel. Não falo de bolas de golfe, falo de apoiar a equipa quando ela mais precisa. No Domingo, a hipótese de termos evitado um Porto campeão na Luz teria passado por um estádio a abarrotar. Mas não foi isso que aconteceu. E, com a derrota, estou convicto que voltará a não acontecer na Quinta-Feira. E esse facto só pode ser entendido como uma falta de entendimento do que importa à equipa por parte dos adeptos. Mesmo desgostosos, doridos, temos de estar TODOS presentes no apoio frente ao PSV. Um estádio cheio, em festa, para entrarmos à Benfica e resolvermos a eliminatória na Luz. Meus caros, vamos ter todos a noção disto: faltam-nos 4 jogos para a final de Dublin. Não temos um papão como adversário, temos uma boa equipa (que importa conhecer e não desvalorizar), com qualidade, mas perfeitamente acessível. Depois disso, se passarmos, teremos um Braga ou um Dínamo de Kiev, equipas igualmente boas mas igualmente ultrapassáveis. Há décadas que a projecção de uma final europeia não está tão ao alcance. Portanto, para quem esteja a ler isto e na dúvida, é levantar o rabinho e ir apoiar Quinta-feira. Nada melhor do que sarar feridas portuguesas com a expansão europeia. Menos de 65.000 é de meninos.

Não desistam do Benfica. Never gonna give you up. No matter how you treat me.
 
 
 





4 comentários:

Costa disse...

No seguimento da análise de domingo, mais um texto pleno de lucidez - é altura de alguém explicar ao Jesus que a arrogância só faz sentido se sustentada em trabalho, empenho, atitude e resultados...
Estive o domingo e vou estar na 5ª - foi duro mas entendo que é nas horas más que é preciso lá estar.

Pedro disse...

Eu não consigo perceber as decisões de Jesus nos jogos contra o fcp...a unica explicação que me vem à cabeça deixa-me doente pelo q...enfim...

FireHead disse...

É levantar a cabeça porque ainda há muito para ganhar esta época. Queremos ser os últimos a festejar em Maio, não sem antes festejarmos já este mês em Coimbra.

Anónimo disse...

As
Ideias chave que retive (e concordo) e uma adenda pessoal:

- A teimosia de Jorge Jesus – Concluímos, com pena, que a Jorge Jesus falta algo para chegar mais longe: a humildade

- Os tiros nos pés:
- Roberto: (com esta não concordo)
- A venda de David Luiz: o negócio podia, E DEVIA, ter sido feito, em melhores condições, no Verão e não a meio da época.

- As pontuais decisões de Jorge Jesus - quando se soube que Maxi Pereira estaria indisponível para o jogo de Domingo, o que seria natural, mesmo que mais fraco em termos de qualidade, seria ter colocado Luís Filipe, nunca o Airton.
Seria importante que (Jesus) fizesse uma observação mais inteligente dos adversários europeus. É que tem ficado a impressão de que a primeira parte serve para sabermos como joga o adversário. Se não for pedir muito, que Quinta-Feira não tenhamos mais uma primeira parte com o coração nas mãos.

- O apoio fundamental dos adeptos - nota pessoal: o novo adepto “croquete” não percebe nada dessa coisa do “apoio fundamental” e do “inferno da luz” (acho que o insucesso prolongado do zbordeng fez com que muitos "betinhos" deles atravessassem a 2ª circular...)

MCA