sexta-feira, 15 de abril de 2011

URGENTE: um psicólogo para os jogadores, um cardiologista para os adeptos

Isto com o Benfica é sempre uma montanha-russa. Tem sido assim desde Agosto e é melhor não termos ilusões de chegarmos a alguma lógica até final da época. A única lógica desta equipa é a de querer ganhar; essa e a de ter grandes jogadores. A partir dessas premissas, tudo o resto está sujeito à intempérie, tudo pode ser abanado por uma pena ou fortificado contra um Boeing. Depende da "mood", que é como quem diz: somos esquizofrénicos e infantis.

Isto é sempre uma emoção, mesmo quando pensamos que podemos ter um jogo minimamente tranquilo.

"Ah levamos 4-1 do jogo da primeira mão, ah vocês estão aí sentadinhos em casa com os camarões à frente e as cervejas no frio, todos contentinhos, sem nervos? Então esperem lá que a gente vai dar-vos 30 minutos para começarem a tomar atenção ao jogo, seus relaxados".

E a verdade é que eles cumprem. Escrupulosamente, cumprem, com uma perfeição de relógio suíço. Aos 30 já estava tudo com o coração nas mãos, pontapés nas mesas, cabelos arrancados, espuma na boca, camarões no chão, cerveja em cima dos sofás, gente aos gritos, outros em prantos. Objectivo cumprido. E depois, quando se esperava que o Benfica entrasse em desespero total, chega o Luisão e saca um golo de outro mundo. Pronto. Intervalo e uma segunda parte a controlar o jogo, como devia ter sido na primeira. Enfim, o Jesus não vai aprender nunca e esta vertigem de jogo ou dá buraco ou dá espectáculo. Não é fiável, mas é emocionante. Não é seguro, mas pode sempre trazer o efeito surpresa. Limpa-se o chão, arranja-se a mesa, penteia-se o cabelo, vai-se buscar mais buja. O Benfica está nas meias-finais da Liga Europa.

9 comentários:

low desert puke disse...

Tudo isto é futebol.

O PSV, a seguir ao Barcelona é a equipa com mais golos marcados na Europa. Nao sei qual é o escandalo de acabar uma eliminatòria com 6-3 no saco.

O Shalke deu a coça que deu ao campeao europeu. Por isso agora certos meninos jà nao tocam no assunto da "equipa alema à beira da descida de divisao"...

Preferias emoçoes como aquela oferecida pelo Rangers no Campo Grande ou estas?

Ricardo disse...

Quando se vão buscar estatísticas, Low, geralmente não é bom sinal.

O PSV é uma equipa competente, com bons jogadores na frente, um meio-campo razoável, um bom guarda-redes e uma defesa algo rígida. Defende mal como equipa e sai bem em ataques rápidos. A partir daqui, tomas as tuas conclusões. Queres falar em golos, muitos golos, para justificar os que sofremos? Tudo bem, é uma forma de ver as coisas. Eu acho que o Benfica até podia sofrer golos mas não da forma e nos momentos em que os sofreu. Não se entra numa eliminatória com 4-1 da forma como nós o fizemos, desalmados a querer marcar rapidamente. Claro que podia ter resultado - tivemos 2 excelentes oportunidades para isso - mas também podia ter dado buraco - como deu, pondo-nos aos 30 minutos numa situação de risco que nunca devíamos ter permitido.

O Benfica devia ter entrado a gerir o jogo. A única forma de o PSV conseguir penetrar na nossa área foi exactamente aquela que nós permitimos - ataques rápidos depois de perdas de bola nossa e bola nas costas da defesa. Ora, há lógica nisto se nós entrámos com uma vantagem de 3 golos? Claro que não há. Se é emotivo? É, foi. Mas seria emotivo se antes do intervalo o Roberto não tivesse defendido aquele remate e fôssemos para o descanso com 3-0 e fora da eliminatória? Se calhar, não, não achas?

A questão é esta: saber gerir o jogo. O Benfica não sabe gerir o jogo, não sabe gerir os momentos, não sabe gerir vantagens. Precisa de constantemente estar em vertigem, em montanha-russa. Quando juntas a este estilo de jogo, centrais mais lentos, um trinco que perde muitas bolas em zonas perigosas, um ala esquerdo que é um anárquico posicional e tacticamente (para não falar nas perdas constantes de bola), tens a poção mágica para a dicotomia BRILHANTISMO/SUICÍDIO.
E isto foi contra o PSV. Contra equipas mais cínicas, provavelmente estavas hoje a chorar e a chamar nomes a toda a gente. Sim, é bom não esquecer: iamos arrasando logo nos primeiros 30 minutos uma vantagem fantástico de 4-1. Isto mostra muito da esquizofrenia e incapacidade mental desta equipa.

Mas temos qualidade, claro que temos. É por isso que estamos onde estamos. E, com alguma sorte à mistura e inspiração dos nossos bravos, até podemos trazer o caneco. Mas isso não quer dizer que não podíamos ser mais maduros na abordagem aos jogos.

Hattori Hanzo disse...

O problema foi ter-se mudado a táctica para controlar o meio campo e depois aconteceu na 1ª parte o costume: Javi Garcia sozinho a tentar contra o meio-campo deles;

JNF disse...

O Schalke que deu 2-5 em Milão é o mesmo que levou 5-0 do Kaiserslautern. Não vás por aí, puke.

low desert puke disse...

Ricardo, é desde o jogo em Liverpool o ano passado que eu tenho uma opiniao quase igual à que expressaste.

Mas o cerne da coisa mencionou-o o Hattori. Ninguém pode hoje em dia jogar com apenas um trinco em campo. A nao ser contra equipas do funda da tabela. Mas é algo a que nos devemos finalmente habituar, (eu jà o fiz e espero que muitos de vòs também), pois Jesus pensa antes no ataque e sò depois na defesa:
Um ponta de lança fixo (Cardozo) com um avançado mòvel a tentar furar as defesas em tudo quanto é sitio (Saviola); duas asas bem abertas (Salvio e Gaitan, outrora Di Maria e Ramires) e um numero 10 a pensar o jogo (Aimar).

Daqui para tràs é para encher chouriço.

Exagero, eu sei. Mas lembremo-nos que andàmos meses no fio da navalha numa tentativa ultima de aproximaçao aos suinos e nao sofremos golos em casa ou fora, contra equipas fracas ou fortes. E o Benfica é composto predominantemente por gajos com muito boa tecnica. A frieza é de outro campeonato. E como todas as equipas de ilusionistas, a emoçao bate sempre aos pontos a tàctica cirurgica e oleada para mecanicamente comportar-se como um robot.

Gostei muito da dimensao futebolistica que Trapatoni implementou enquanto là esteve. Resultou e fomos campeoes depois de atravessar um deserto durante anos. Era bonito? Nao era tao feio quanto ainda hoje o pintam.
Mas o Benfica de Jesus é o que o Benfica sempre foi. O dos 4-4 de Leverkusen. O dos 6-3 no Campo Grande. Celta de Vigo. Hapoel. E sei là mais o que...Nao corroboro com a velha màxima de Robson "que me interessa sofrer 5 golos se a minha equipa marcar 6?", mas o Benfica sempre se apresentou como uma equipa menos quadrada emocionalmente em relaçao às outras principais equipas portuguesas.

Abraço

Ricardo disse...

Low, justificar os erros desta equipa com uma qualquer tradição histórica ofensiva do Benfica é capaz de ser um bocadinho exagerado. A questão não está na mentalidade atacante que a equipa tem. Isso não é um problema, é uma solução e uma vantagem. Está na forma como, tendo esse princípio de jogo, se equilibra a equipa para não estar constantemente descompensada. Tu no princípio do comentário falas na forma como Jesus gosta de ver a equipa disposta em campo. Tudo certo. E o ano passado a ideia era a mesma. O que mudava? Essencialmente, a posição de médio direito, em que tinhas um médio mais interior e este ano tens um ala que se afasta do centro do terreno, seja em movimento ofensivo seja defensivo. Essa é a principal diferença. E esse é um erro não para as Navais ou Beira-Mar mas para os jogos cruciais. E o jesus já teve mais que oportunidades de entender que não pode jogar dessa forma. Mas persiste. E a de ontem, então, foi genial, porque nem sequer foi uma questão de posicionamento, foi de estratégia para o jogo. Tu podes perfeitamente jogar com os jogadores com que jogaste ontem mas de uma forma completamente diferente. Bastaria para isso que, em organização ofensiva, não subisses os laterais. O Benfica jogou os primeiros 30 minutos praticamente num 334 - o Javi baixava para o centro, o Luisão e o Jardel abriam quase nas linhas laterais e o Maxi e Coentrão faziam uma linha de 3 com o César Peixoto; na frente, Gaitán, Saviola (mais a 10) e Salvio no apoio a Cardozo.

Isto de uma equipa que vinha com 4-1 do primeiro jogo. Não faz sentido. E pior: o Jesus já devia saber que este Benfica aguenta mal a pressão de estar a perder fora em jogos europeus. Repare-se, por exemplo, no erro absurdo do Maxi que podia ter dado o 3-0 - voltou o Maxi ao Maxi do passado, temeroso, a não recuperar (primeiro golo), com falhas perigosas. Esse lance explica bem a nervoseira que já ia para ali. Portanto, sabendo-se dessa fragilidade mental da equipa, convém não potenciar essas situações. Até por isso acho que é bom para nós ter havido a mudança por parte da UEFA em relação aos jogos das meias. Jogando em casa, podemos construir uma boa vantagem que depois poderemos, SE TIVERMOS CABEÇA QUE ONTEM NÃO TIVEMOS, defender o resultado; se fosse ao contrário, entrarmos na Luz com a pressão de ter de virar um resultado acho que seria mais prejudicial.

Tiago disse...

o Benfica a seguir a lesão do Salvio perdeu a concentração. tb estavam à espera de outro tipo de jogo do PSV e aquelas boas ocasiões de golo nos minutos iniciais levou a um descontrolo do jogo que não era necessário nem desejável. por isso acho que o problema não é ter muitos ou poucos atacantes mas o que eles fazem. Cardozo e Saviola não podem ficar perdidos no meio campo adversário a ver os colegas a defenderem

low desert puke disse...

E mais uma vez concordo contigo, Ricardo.

Mentiroso disse...

Uma família como as outras!

Pedro, Éter, Ricardo e GeraçãoBenfica são verdadeiros paradigmas da enorme e complexa família benfiquista. Diferentes na forma como se expressam mas iguais na paixão que os une.

O Pedro é um utópico, um caso raro de benfiquismo puro, de uma lealdade ao emblema e aos seus intérpretes que já não se usa. Tem uma enorme dificuldade em reconhecer o mérito aos adversários, nomeadamente aos que ganham mais vezes que o desejável.

O Éter é extremamente perspicaz. A abordagem normalmente breve mas sempre acutilante e diversificada que empresta aos seus posts é uma referência que nos obriga a passar diariamente pela sua Chafarica para ver o que há de novo.

O Ricardo é um poeta, um cronista por excelência. De uma simplicidade envolvente, fascina-nos pela forma directa, de fácil assimilação, como divulga a mensagem de um benfiquismo ora romântico, ora cruel e realista.

GeraçãoBenfica é o mais controverso dos quatro. Independente, realista e crítico desta direcção, tem alguma dificuldade em passar uma mensagem séria mas igualmente derrotista. A maioria dos seus leitores não quer ver divulgada qualquer forma de comunicação que leve à divisão dos benfiquistas. É a antítese do Pedro.

Escolhi estas quatro referências como podia ter escolhido outras tantas, com igual simbolismo e diversificação na forma como vivem esta paixão pelo Benfica. Todos eles fazem parte da minha família, a grande família benfiquista à qual pertenço com muito orgulho. Vocês são meus irmãos.