quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A arte do penálti

O penálti falhado por Cardozo em Barcelos lançou os benfiquistas para a discussão em torno da escolha do melhor marcador deste tipo de marcação. Lima ou Cardozo? Nenhum? Outro? Qual? Enfim, o natural nestas coisas é funcionar por impulso, reagindo com a ciência do resultadismo para retirar conclusões. Tivesse o paraguaio enfiado a bola na baliza e a grande maioria dos que hoje dizem "eu tinha avisado" estaria em silêncio e feliz pela vitória.

A questão, no entanto, é interessante e deve ser alvo de uma análise cuidada por quem é responsável por um plantel, sobretudo se falamos, como neste caso, de um grupo de jogadores que compete ao mais alto nível. A pergunta que deve ser colocada é simples e é esta: o que é um penálti bem marcado?

Em resposta, teremos várias visões. Logo na primeira fila, aparecerão os pragmáticos: «é o penálti que dá golo». De seguida, os prestidigitadores: «é o que engana o guarda-redes». Os estetas: «bola para um lado, guardião para o outro». Os cruéis: «o que humilha o adversário». Os estrategas: «o que transmite a ideia de ir para um canto e vai para o lado contrário». Os cavaleiros: «o que tem uma paradinha a meio da corrida». Os bélicos: «o que faz explodir as redes!». Os emotivos: «o que faz levantar o estádio».

Na verdade, como em quase todos os momentos do jogo, o futebol é para cada adepto um mundo muito diferente do dos restantes e as teorias sobre ele tendem para mais infinito. Há em cada um de nós um especialista catedrático nesta arte; temos todos o conhecimento científico - porque empírico - sobre quais as melhores acções ao longo de uma partida de futebol. Tivesse o treinador a nossa clarividência e a nossa equipa ganharia sempre por 20-0 com mais 20 golos falhados porque os jogadores, já se sabe, não possuem as nossas qualidades inatas para a prática da modalidade.

Humildemente, deixarei o meu contributo: um penálti bem marcado é aquele que, por maior qualidade que o guarda-redes tenha, por mais alto, elástico, atlético, instintivo que o guardião seja, fará com que a bola entre sempre na baliza. Dito de outra forma: o penálti bem marcado é o penálti que encontra a sua janela para a baliza num lugar em que é impossível ao adversário chegar. 

Pode ser, na perfeição, uma bola batida a um dos cantos superiores da baliza - esse é o penálti-fenómeno, o penálti-pérola, o Rei dos penalties. É o penálti que traça uma linha horizontal e vertical tão perfeita que cria a diagonal eterna. Lá «onde a coruja dorme» é o sítio do milagre e da explosão do adepto. Esteticamente, é admirável; tecnicamente, soberbo; psicologicamente, devastador para o guarda-redes. Mas há outras caminhos por onde marcar golo mantendo o essencial do princípio «penálti bem marcado»: bola batida, rasteira, em força, a um dos cantos da baliza; bola batida para as malhas laterais de um dos lados, a meia-altura; bola, rasteira, meia-altura ou alta, que ou apanhe a lateral interna ou o poste pelo lado de dentro, inevitavelmente entrando. Toda a bola que for batida com estes princípios dará golo. É impossível a um guarda-redes defender um esférico que vá puxado, em força, a um dos lados da baliza. E isso, por ser inevitavelmente golo, é um penálti bem marcado.

O que são penalties mal marcados? São todos os outros. Um penálti «à Panenka» é um penálti mal marcado, por mais arte que o jogador tenha em fazer crer ao guarda-redes que vai atirar para um canto e não para o centro, em delicadeza - é bonito, não nego, mas não cumpre o requisito de tornar impossível ao guardião a sua defesa. Basta que fique ao centro para defender a bola; basta que, indo para um dos lados, consiga com os pés tocar no esférico. Ou seja, este é um penálti que não depende apenas e só da qualidade do remate, mas de vários outros elementos: posicionamento do guarda-redes; capacidade do guardião em antecipar a ideia do marcador; sorte do guarda-redes que, mesmo atirando-se para um canto, pode tocar com as pernas ou pés na bola. Pelos mesmos motivos (não dependerem apenas da qualidade do executante mas de vários outros factores), todos os penalties que fizerem a bola entrar num lugar da baliza a que o guarda-redes pode chegar são maus penalties, são penalties com gripe, são anti-penalties.

E isto é independente de ser golo ou não. A grande maioria dos penalties marcados em futebol é executada de forma deficiente. Pode a bola entrar ou não, é irrelevante para a análise. Pergunta-se é: «podia o guardião chegar àquela bola?». Quase sempre, sim. Logo, o executante não fez aquilo que devia. 

A função de um treinador tem de passar por escolher o jogador que marca mais vezes o penálti bem marcado, o tal impossível de ser defendido, e não aquele que nos treinos mete mais vezes a bola na baliza porque esse, em competição, falhará inevitavelmente mais do que aquele que nos treinos mete, em 10, 7 bolas impossíveis de defender, 2 à trave e 1 para fora. O que marca, por exemplo, 8 em 10, mas fá-lo de forma deficiente, estará sujeito, em jogo, a vários outros imponderáveis elementos que o forçarão a uma estatística mais baixa se analisarmos a sua produção no tempo - digamos, por estudo, 5 anos.

No Benfica, o marcador oficial é Cardozo. O paraguaio já foi um marcador exímio. Nos dois primeiros anos no clube, batia a bola em força para um dos lados da baliza, muitas vezes entrando a mesma pelas malhas laterais interiores. Ou seja, marcava invariavelmente penalties bem marcados. Por alguma razão (talvez de ordem estética ou por algum mau conselho de alguém), começou a marcar muitas vezes em jeito, mais para o centro da baliza, com menos força, menos colocação, menos assertividade. Com isso baixou os níveis de eficácia, o que é evidente e expectável, já que deixou de colocar a ênfase do penálti apenas e só na qualidade do remate mas a abriu a outros factores: qualidade do guarda-redes, azar, instinto do guardião. Cardozo passou a bater bolas que, dando golo ou não, podiam ser defendidas pelo adversário. E com isso deixou de ser exímio marcador para passar a ser um marcador com boa média, mas longe da eficácia dos primeiros tempos.

Compete a Jesus ou encontrar no plantel quem saiba marcar penalties bem marcados ou optar por aquele que, quase sempre marcando penalties mal marcados, tem a melhor estatística. Ou seja, passamos do lado científico para o místico-divino. Logo, sujeitos à sorte, ao destino e à religião. Em Barcelos, Deus tirou-nos dois pontos.

6 comentários:

bpstp disse...

Penalti bem marcado é aquele que independentemente da forma escolhida para bater dá golo. Explico: um jogador pode optar por remate, colocação, paneka etc desde que dê golo...tudo o resto é mal marcado.

sintoniavermelha disse...

bom texto

Anónimo disse...

Bem marcado é aquele que vai á baliza sem dar hipóteses de defesa.
O Cardozo curiosamente o melhor ano a marcar foi o transacto com um registo quase perfeito com apenas 1 falhado e pelo menos dez concretizados.
o Simão foi o melhor de longe nesse aspecto nos últimos 14 anos. Excelente mas não existem assim tantos com ese nível!

luis disse...

Marcar mais de cinquenta penaltis em 7 épocas;)
Terá estatuto com reflectiu bem o Carlos Daniel;)
Falhou mais de dez, onze precisamente em jogos a contar para alguma coisa ;)Mas onze e continuar com o estatuto para bater os recordes é uma novidade sádica.
Nem era necessário lembrar o Simão, mas lembrar que o Saviola não marcava aqui no nosso Clube, sendo especialista por todos os Clubes por onde passou foi uma coisa dos estatutos para desactivar mentalidades.
Mas o nº7 se teve 2 anos, vou sublinhar, 2 anos sem acertar um livre e continuava, continuava...bem o Bruno César quando saiu num Janeiro , também já era especialista que não foi explorado ;)

- "Equipe que ganha não se mexe". Cá para mim especialista que anda a ter sucesso não deixa de marcar por causa dos recordes do nº 7.
- Como seria se o nº 7 não estivesse o estatuto dos penaltis e livres durante estes 7 aninhos??

Nota: Volto a lembrar que na época passada. Primeira do Lima, o brasileiro foi o melhor marcador do Plantel e sem o estatuto na especialidade...

B T T

joao oliveira disse...

http://www.youtube.com/watch?v=mz0yIx0KegY

Não sei se este vídeo é muito conhecido mas fico sempre admirado quando vejo que, parecendo estar estudado qual o modo de marcar penaltis quase sem falhar, se inventam coisas, se improvisa no momento e se decide no jogo aquilo que devia ser um processo mecânico. Parece estranho que com o que se estuda hoje em dia no mundo de desporto este método não esteja já implementado no futebol... a não ser que haja quem não fique convencido com o estudo.

Mostrem isto ao Jesus, ao Cardozo, ao lima e restante equipa técnica!

Alguém sabe dizer quantos pontos perdemos em média num campeonato por penaltis não convertidos? Seria uma análise estatistica interessante.

Abraço e parabéns pelo blog, que sigo já há muito

joão carlos disse...

se um jogador que vai na sua sétima época no clube é o nono maior marcador de todos os tempos do clube que tem mais de cem anos de existência e mesmo assim não merece ter estatuto, então duvido muito que exista alguém ainda a jogar que o mereça.
gostava que alguém explica-se como é que um jogador que marcou 30 golos o ano passado é o melhor marcador da equipa nesse ano quando existiu um outro que na mesma época marcou 32, deve ser uma nova aplicação ainda não divulgada da teoria da relatividade do Einstein.
de facto cardozo falhou onze penalties mas o interessante é que a alternativa falhou em proporção tantos como o cardozo mas se vamos escolher tendo em conta aquele que menos pemalties falhou então a escolha parece-me óbvia oblak que arrisco que em toda a sua vida nunca deve ter falhado um penalty.
existe pessoal que ocupa os seus neurónios a fazer trocadalhos depois quando precisa deles para pensar estão ocupados basta de tanta tolice.