terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O meu senhor Eusébio

Aconteceu o mesmo com o escritor Nuno Bragança: chovia continuamente no seu funeral. Não houve povo na despedida do meu amigo. Nem acorreu aquela gente grada que de vez em quando salta do seu Olimpo para saudar os vivos, venerar o morto, dizer uma frase previamente estudada à família e logo regressar ao alto império de onde descera. No dia do seu enterro, senhor Eusébio da Silva Ferreira, a chuva era fria e vinha batida pelo vento e pelas vozes desfiguradas do povo. As flores iam-se enlameando à medida que tombavam na terra molhada – e agora também eu o vejo daqui, de rosto franzido à água, aos gritos, ao pranto multitudinário, à terra que pouco a pouco toma posse daquilo que em nós desde sempre lhe pertenceu. 

Olho-o, senhor Eusébio, do cimo da minha janela, no Lumiar da nossa vizinhança. Ocorre-me reviver a sua presença em mim, isto é, a história da sua vida que só eu sonhei desde menino. Não há quem não tenha querido ser igual a si. Pertenço a um povo cuja infância permanece eterna à medida de cada pessoa. Tenho dez anos de idade quando pela primeira vez o vejo correr, saltar, bater bolas aéreas, rasteiras, trajetórias curvas, malabarismos de artista no circo da cidade. Minúsculo, como que motorizado, num pequeno ecrã de televisão. Fico a saber, no início dos anos 60, que o futebol existe em Portugal: passou a existir como se tivesse nascido consigo. Na minha ilha, o futebol era bem outra coisa, sem a moldura da fantasia e da loucura, nos campos da rua com pedras por baliza e no recreio da escola primária rodeado de muros e canteiros de malmequeres. Atrevo-me a imaginar que o senhor Eusébio sabe, tanto quanto eu, como doem as pedras nos nossos pés descalços, como é que as unhas saltam e o sangue espirra, como as plantas dos pés se transformam em chapas e tudo em nós é modesto, pobre e curto, exceto nos sonhos que nos acordam para o jogo e para a glória do mundo. 

Vem portanto ao caso falar dos seus olhos tristes na alegria da vitória: o senhor tinha piedade dos vencidos, ajudava as suas vítimas a levantarem-se do chão. Sorria-lhes, por vezes feliz com lágrimas. Não sei o que lhe diziam os seus lábios grossos de africano, nem como os acarinhavam as palmas brancas das suas mãos pretas. Ninguém levava a mal os rituais humildes, carregados de nobreza e bondade do meu senhor Eusébio. O fadário dos vencidos consiste em guardar para si os sentimentos de infortúnio e os silêncios incolores da derrota. 

Agora que perdeu a memória e voltou de vez ao berço e ao colo da sua Mãe, permita-me que lhe recorde o breve pormenor da sua existência dentro de mim. Já se cantaram e choraram todos os modos das suas proezas em campo. Dispenso-me, assim, da grande e merecida laudatória dessa epopeia. Prefiro seguir a sombra da sua intimidade. Entro-lhe nos olhos mortos para ver o mundo de lá para cá, tal como julgo vê-lo a si, ainda agora, da minha janela. A chuva continua. Tristemente bela sobre as casas. Chove sobre os muros, sobre as árvores nuas, sobre a minha alma ainda presa à sua. Chove nas belas e tão amadas palavras. Chama-se remorso à impossibilidade de lhe agradecermos o futebol, as alegrias e conquistas dominicais, o ser único que você era em nós: rosto e herói das nossas vitórias.

De certo modo, o senhor inventava para nós um outro país, não este que se repete na nossa angústia, nem o tal que estava em guerra contra os mártires da sua terra. A Ditadura ficava do lado de fora dos estádios onde o senhor corria e fintava, alado nos ventos da paixão pelo jogo, levando consigo os olhos, o sorriso, o coração do povo. Sabíamos que era dupla a sua pátria, uma de ida, outra de regresso, chamada Moçambique-Portugal. Ambas se libertavam uma da outra sem que os cegos, os políticos, os colonos e os militares dessem por isso. O nosso partido político chamava-se Eusébio. 

Fomos os campeões de tudo, porque o senhor nos ensinou a superar o impossível, fazendo das fraquezas força. Por isso, onde todos viam um futebolista, queria eu ver também o guerrilheiro de dois povos em guerra, um já vencido sem que o soubesse e o outro um vencedor histórico desde o glorioso primeiro dia das suas armas. Sentados no chão do mato a ouvir o relato dos jogos, e as vozes em fundo da multidão a aclamar um nome, soldados e guerrilheiros faziam uma trégua. A guerra parava. Durante duas horas, aos domingos, não havia inimigos em África. E tudo era por ordem e graça sua, senhor Eusébio da Silva Ferreira. 


João de Melo

2 comentários:

luis disse...

Grande chuva de belas palavras do João Melo...
No inverno é época de chuvas... dias molhados e frios. A noite cai mais cedo.
O senhor Eusébio da Silva Ferreira imortalizou o seu nome praticando um desporto de inverno, o Futebol. Com magia fez amigos por todos os cantos do mundo.
Deixou-nos num Domingo , denominado como o Dia do Futebol...
...este imbecil do luis ainda está para compreender a razão de o funeral do King ter sido logo no dia seguinte. Será que os amigos do King por esse mundo fora tiveram agenda para poderem prestar a devida homenagem... Será que era descabido esperar por mais um dia ou mesmo a quarta feira da Europa do Futebol.
Assisti já perto das 18 e 30 minutos, no meio da lama, com chuva e vento ao abatimento de muita pedra mármore...respeitosamente gostava de ter tido luz do dia para me despedir de alguém que me encheu o coração de desportivismo e engrandeceu o Benfiquísmo puro e verdadeiro.

Benfica Todos Tempos.

Conde de Vimioso disse...


Belo post e belo comentário do Amigo Luís.

Mal soube da morte do Nosso Eusébio das primeiras coisas que me ocorreram foi, uma, qual seria o dia do funeral alvitrando cá para mim que nunca antes de quarta.

Escrevio, por aí, nos dias seguintes:

Qual a pressa de enterrar UM IMORTAL como um comum mortal.

Também eu não tive hipotese de me despedir, presencialmente, do NOSSO EUSÉBIO que juntamente com os seus companheiros me tornou Benfiquista nesse dia em que pela primeira vez arregalei os olhos para uma televisão que me transmitia uma epopeia que perdurará para sempre naos anais do Meu Benfica e do mundo do futebol.

Tive oportunidade, bastante mais tarde, de conversar com ele nessas peregrinações de eventos Benfiquistas levados a efeito por esse país fora mas aquele ao qual, contra o costume, chegou cerca de um quarto de hora mais cedo concedeu-me um privado naquela sala vip onde fui o recepcionista.

Falamos do Benfica mas a marca que guardo do Pantera é A SIMPLICIDADE de quem sempre foi GRANDE.

Obrigado EUSÉBIO.

Obrigado