terça-feira, 19 de junho de 2012

Por este Rio acima

Por razões desconhecidas, acabo sempre no meio do avião, com as asas a taparem os campos e a queda do mar na areia - de cima, parece tudo tão estático, como uma estrela que morreu milhões de anos antes. 
Há círculos nas terras, demasiados. Ao nível humano, parecem-me as coisas tão rectangulares, anárquicas, imperfeitas. E lá no alto, recortes certeiros, terras lavradas sob um método circular, limpo, quase extraterrestre. As estradas não se vêem, nem aquela mulher que vai de alma em chama comprar as flores para um velório que nem sequer é o dela. 
Tudo somente retalhos e um camuflado geral, como se houvesse um plano contra os seres de outras galáxias: castanho escuro, castanho claro, verde tropa, verde vegetal, amarelo torrado - impossível de detectar do cosmos. O mar parece uma pia cheia, com ondinhas brandas de movimentos de mãos. Mas o que mais espanta é ver aquele ser levantar-se e aterrar. 
E ainda ninguém notou que na Easyjet as pás que sustêm as asas são roubadas de gaivotas da praia de Carcavelos.
O avião sobrevoa território nacional, detecto baixios, restingas, curvas de rio e uma orla desenhada a lápis. Avançamos pela margem sul, planando. Quero o Seixal e campos de futebol. Não vejo. Desce até à Arrábida, e depois curva, vamos morrer, vamos morrer em frente ao mar - há uma ideia que faz sentido: se chegarmos devagarinho à água, nadamos todos, muito direitinhos, para terra. Cresce pela Costa da Caparica em línguas de sal, ninguém na praia - uma semana em areias de Portugal e o mar morreu todo?

O Cristo recebe-nos, embriagado de vento. Vejo a ponte e uma cidade sob uma luz dourada. Quero o Estádio da Luz e um relvado no meio. Não o vejo. De repente, a carroça aérea começa aos solavancos, desce como um bêbado cai em degraus, pum, pum, pum e estamos no cinza do aeroporto, frio como as coisas que não têm alma, frio como resorts pelo mundo. Jamaica, Japão, Ceará, República Dominicana, Belize. O que achaste do país? As sombrinhas dos copos servidos na praia são claramente nativas. E ficamo-nos por aqui, que há que desapertar o cinto.

O Benfica é que deixou saudades.
 
 

3 comentários:

Constantino disse...

Ricardo,

A estranheza de estar longe do Benfica é das primeiras coisas que se nota quando se está uma temporada fora do país... isto por muito que, após 2 dias de chegada ao poiso estrangeiro, nos apareça um nativo com uma camisola do SLB à frente, coisa que experienciei neste ultimo mês. Por acaso tive mais sorte que tu e na descida até solo pátrio consegui vislumbrar bem perto a Catedral... e só nesse momento um gajo pode respirar e dizer para que todos oiçam bem "ah lar doce lar". Já agora, a quantidade de pessoas que se ouve murmurar para o colega do lado num voo Madrid-Lisboa "olha, o estádio do Benfica" é qualquer coisa de fenomenal, só ultrapassado pelo espanto que é ter alvalade junto à asa esquerda e não se ouvir qualquer tipo de burburinho.

PS - estupidamente só houve uma coisa que senti mais falta do que o SLB durante a estadia além mar... o mar. Poucas vezes lá vou, mas sabe tão bem saber que está ali ao alcance de um esticar de braço.

Abraço

B Cool disse...

Tenho pena por ti, mas ainda da última volta de terras de vera cruz, lá estava esse ninho de sonhos que nos alimenta a alma.

Confesso que como o Constantino não vi, ou não reparei, no outro estádio uns kms mais a norte.
Também já entrei pela Caparica a dentro direito a Almada, mas sempre, sempre, vislumbrei o estádio do glorioso.

luis disse...

A música é boa,a praia e tal ... vou ver o video do Mestre "albino"... a música é mais adequada ao tempo:)