quinta-feira, 16 de junho de 2016

Aquela gente não gosta de futebol


Só quem vê bola de 2 em 2 anos - ou seja: as donas de casa, os emigrantes e o Goucha - é que pode achar que os fenómenos de violência são alheios ao fenómeno futebolístico.

"Aquela gente não tem nada a ver com o futebol", dizem nas televisões os comentadores que vão para os camarotes ou para as bancadas de imprensa. A ideia é bonita, de facto, e apetece acreditar nela pela tristeza que nos causa ver estas imagens de hordas de mentecaptos nas ruas a jogarem ao jogo da cadeira, versão hardcore, mas a única verdade sobre aquela gente é o facto de não gostarem de futebol. Custa, envergonha. Fica mais difícil explicar àquela amiga que acha que uma pessoa culta como ela não pode gostar deste jogo o quão artístico, belo e universal é o futebol. As alegrias que nos dá, as lições, o companheirismo e esses ismos todos pelos quais passámos uma vida inteira, desde que nos sentaram pela primeira vez num estádio e nos apaixonámos.

Infelizmente, aquilo que ali se vê acontece vezes a mais nos nossos estádios. Claques à espera de claques. Adeptos cheios de ódio por outros adeptos. Dirigentes fomentando com discursos incendiários a ira da populaça. Encontros-duelos para descobrir quem é o clube com mais mentecaptos por neurónio quadrado.

Em Alvalade, já tive de fugir para dentro de uma bomba de gasolina de uma manada de neonazis preparados para a solução final de uns quantos bípedes de Gloriosa vestida; já fui abordado nas rulotes por uma dezena de senhores queques por eu estar ali a comer uma bifana com a minha namorada em clara provocação visto que o cachecol ao pescoço não era verde; no Porto, enfim, é melhor nem começar. Em Braga. Em Guimarães. Já me zanguei com amigos, já perdi amizades, desamiguei no facebook por ver num grupo do Benfica uns 10 atrasados mentais todos contentes por terem postado uma foto de uma camisola do Sporting a arder - parece que tinham apanhado um puto de 13 anos a passar "onde não devia" e, olha, paciência, "estava mesmo a pedi-las". Sim, há pessoas do vosso dia-a-dia que acham estas coisas.

No futebol como na política ou em qualquer área da sociedade (excluindo talvez a malta das viagens que costuma ser mais civilizada - conhecer outras gentes tem o condão de nos mostrar que podemos ser um bocadinho menos broncos), raro é encontrar pessoas que queiram viver e discutir as paixões de cada um sem construir de imediato um muro e uma trincheira no meio.

Dir-se-ia que humano é procurar o conflito, mas só quem não leu Vinicius não percebeu a beleza que é a arte do encontro. De ver um grande jogo com amigos de outros clubes. De comer e beber com eles nas rulotes a antecipar o duelo, de festejar uma vitória ao mesmo tempo que abraçamos os amigos porque sabemos o que custa. De recebermos esse abraço por eles conhecerem a dor. Porque a dor e as alegrias são as mesmas. Só muda a cor do cachecol.

7 comentários:

Anónimo disse...

Esse tipo de "gente" é mesmo assim. Com ou sem futebol. O futebol é apenas uma desculpa. Alguém acha que se não existisse futebol, estes seres passavam a comportar-se como gente civilizada?

Cumps

Paulo Duarte disse...

O problema dos adeptos é que normalmente quando aparecem são pessoas, essa espécie da raça humana que popula a terra e é composta maioritariamente por idiotas, o futebol é apenas uma desculpa para os juntar, ainda por cima naqueles principios primórdios de defender território, machos alfa, a minha aldeia é maior que a tua...

ainda hoje vi um video numa ferramenta social que começa por face e acaba em book, onde se apelidavam de heróis e exemplos de desportivismo atletas de várias modalidades que por exemplo não marcavam um golo enquanto o GR adversário se contorcionava no chão com dor ou paravam uma corrida para ajudar um colega que tinha caído, não isso não são heróis, isso devia ser a norma de civilidade.

Mas acabámos de condecorar uma senhora que abriu uma porta em Paris com a Medalha da Cruz de Guerra, já vale tudo.

“Travel is fatal to prejudice, bigotry, and narrow-mindedness, and many of our people need it sorely on these accounts. Broad, wholesome, charitable views of men and things cannot be acquired by vegetating in one little corner of the earth all one's lifetime.” MT

Sarilhos Grandes disse...

Percebes alguma coisa de ...Emigrantes..., para te permitires conclusões estùpidas e sem fundamento algum ?!?!?! Os Emigrantes , se gostavam de futebol antes de emigrarem , continuam a gostar ; se não gostavam , antes de partir , também não ficaram a gostar uma vez sediados no estrangeiro , mas não é por alguém se ter tornado Emigrante que perdeu o discernimento e a capacidade de reflexão; Precisamente por terem saîdo daqui de Portugal onde nunca teriam lugar entre os 'intelectuais/sociôlogos multi-usos' da tua estirpe , começaram a ver o paîs onde vives ...mas de outra forma ; e o que eles vêm é deveras deprimente... não ? ! Quem és tu para empregares a palavra Emigrante com claro sentido depreciativo ? Deve-se a que factos ? Divagações e conveniências pessoais ??? Passas o tempo a querer dar lições a uns e outros , por vezes com referências a personagens conhecidas apenas de ti prôprio e que sô a ti te interessam , ( e talvez aos calcanhares das quais NUNCA chegaràs,com essa pequenissima mentalidade de portuguêszito que se julga instruîdo porque viu uma Cidade ou outra e leu um livro ou outro ...) Seria interessante que de vez em quando lesses as atoardas que escreves , com essa mania que tens de armar em 'intelectual'( ???); da corrente literària... Manuel Luis Goucha , o bem citado ??? ... Não !?!?!?
Hà Portugueses que se apercebem do que são e do que é realmente Portugal...e outros que se reconfortam olhando para pessoas consideradas por eles de ...Emigrantes !!!! Entre Emigrantes e 'loosers', havera consanguinidade ?...?

Ricardo disse...

Sarilhos Grandes, apesar da sua clara falta de educação, admito que o texto pode ter uma interpretação dúbia. É evidente que me refiro aos emigrantes que não ligam para futebol senão quando a Selecção joga nestas grandes competições, não aos que, como qualquer outro adepto, nunca desligam a paixão pelo futebol.

Sarilhos Grandes disse...

Paulo Duarte , és o maior ; Imagina que andam por aî alguns impertinentes , armados em Emigrantes ,os quais , sem nenhum tacto , claro , ( visto não passarem de Emigrantes...), ousaram sugerir que a tua tirada final, em Inglês, (convenhamos que nem o prôprio Shakespeare a renegaria...) , deveria ter sido trancrita , também por ti , mas em... Aramaico ou Cirenaico ;( Em matière de langage , la quintessence même du vrai polyglotte...). Esses dialectos , (não é segredo para ninguém ...), profilam-se como os principais elementos que constituem a "bagagem intelectual" do Benfiquista de base !!! With absolutely no doubt , at all . Yes , Sir !

Ricardo disse...

Sarilhos, "profilam-se" vem em jesusês? Você de facto esmera-se em "culturismo"!

Paulo Duarte disse...

Sarilhos, não discriminei ninguém no meu comentário, idiotas há-os de todas as formas, feitios, cores e nacionalidades, não é preciso o futebol para eles existirem, o futebol apenas agrega multidões, e com elas vêm as pessoas, que como disse têm uma grande dose de fobias, estupidez, agressividade, falta de civismo, etc... não todas, mas que las hay, hay.

A citação está em inglês porque afinal a lingua do seu autor já é universal, e apenas diz que viajar acaba com muitos preconceitos, nunca falei de emigrantes, e a menção do autor do texto até me tinha passado ao lado, achei apenas uma generalização para efeitos de humor.