sábado, 12 de janeiro de 2013

Viagem ao Benfica



Passei muitos Janeiros da minha vida a ver o Benfica a demasiados pontos da liderança. Tive azar no ano de nascimento, azar nas pessoas que vi tomarem conta do clube, azar no momento, azar na História. Tivesse eu nascido nas décadas anteriores e todo o meu crescimento e entrada na vida adulta - embora não esteja ainda certo de que algum dia algum ser humano o faz - teriam sido momentos à Benfica. Momentos de vitórias e felicidades umas atrás das outras. 
  
Como nasci em 1981, o máximo e mais feliz que posso dizer de mim é que como ser benfiquista - e o benfiquismo é de longe mais importante do que a cidadania ou até, se queremos ir ao fundo da questão, da existência - vivi uma infância feliz, pontuada, ainda que ao de leve e já na entrada para a adolescência, por uma suspeita que nascia no meu pequeno coração de adepto: a chusma tinha invadido o futebol português.
 
Lembro-me do momento preciso em que perdi a virgindade do amor puro ao futebol: estávamos no início de 90´s, o Estádio da Luz a transbordar 120.000 almas, vermelho, branco, loucura e desvario, sol sobre nós, um clássico contra o Porto e um árbitro. 
 
É importante que se fale na forma como eu via os árbitros: uma gente estranha que não podia tocar na bola, que se vestia de modo peculiar, que não era de nenhuma equipa e que, por alguma razão que me transcendia, tinha o direito a pisar aquele viçoso relvado que parecia ser acessível apenas a artistas - epíteto que não podia ser atribuído a tais personagens já que uma vez, a meio do aquecimento, vi um deles tentar dar toques numa bola, não passando dos quatro e, para ser delicado, uns quatro tão trágicos . Virei-me para o meu Pai, incrédulo: "O que faz ali aquela pessoa?" e ele deve ter dito qualquer coisa muito pedagógica e educativa que ainda me fez mais confusão uma vez que eu estava habituado a vê-lo atirar caralhadas ao excelentíssimo senhor jogos, meses e anos a fio. 
 
Para mim, o árbitro estava ali porque não tinha outro sítio para onde ir. Talvez não tivesse casa, fosse pobre, não tivesse família ou gente que o recebesse para uma almoçarada. Talvez tivesse ganho o bilhete no 123 e o Carlos Cruz o tivesse avisado: "olhe, você vai ao estádio mas, como está cheio, tem de ir ver o jogo no relvado". Alguma razão tinha de existir para aquela pobre alma andar feita louca varrida em correrias atrás dos meus jogadores e até dos outros. Uma razão que, devido ao meu cérebro mirrado, atribuí a factores além-futebol, nunca me passando pela cabeça que aquele gordo careca tinha uma relação sensorial com o jogo. 
 
E foi então que percebi: ele estava ali para mandar. Não sei porquê nem quem lhe tinha dado esses direitos mas apercebi-me de tal ignomínia quando, sentado ao lado do meu Pai e de um amigo portista (que, neste dia, sob aquele sol imenso e de frente para um coliseu vibrante de encarnado, terá ponderado mudar de clube - o que acabou por não fazer e ainda hoje sente remorsos de tal facto), o filho da puta do árbitro (estou a citar o estádio) fez uma daquelas exibições que ficarão para os anais - literal e não literalmente. Não me recordo totalmente de todo o manancial de palhaçadas que o excelso executou, mas sei que saí daquele jogo pronto a contar na escola a novidade: já não era virgem.
 
Tive azar na década. Pude, no entanto, experimentar Benfica durante 12, 13 anos e esses levo colados ao peito, orgulhoso, com aquela saudade triste das coisas que sabemos que não podem voltar. Gostava de dá-las de presente a quem nasceu 10 anos depois de mim, entre abraços: "Tiveste ainda mais azar do que eu, toma, fica com isto: é o Benfica". 
 
Pior do que ter visto o Benfica desaparecer num lodaçal de equívocos só o nunca ter visto de forma nenhuma. Por isso me merecem tanto respeito os jovens de 20 anos que trazem o Benfica com tanta força agarrado ao coração - como se, por osmose, entre pais, primos, tios, amigos, conhecidos, estranhos, o benfiquismo tivesse conseguido verter para dentro deles. Por isso quero tanto, por eles e por mim, que o Benfica regresse. 
 
Passei muitos Janeiros da minha vida a ver o Benfica a demasiados pontos da liderança. Façam-me este favor: dêem-me um Maio campeão.

2 comentários:

João disse...

Se ganharmos acho que isto é o despontar de uma era nova que aí vem, mais vitoriosa e com mais Benfica a iluminar o país.

Ulrich Haberland disse...

Lindo e como te compreendo!