terça-feira, 21 de junho de 2011

Villas-Boas no Chelsea - o maior desafio estratégico do Benfica

E, de repente, sem que nada o avisasse, a "cadeira de sonho" de Villas-Boas dá lugar a um jet-pack milionário com destino a Londres e baralha as cartas com que os principais candidatos ao título irão jogar.
A saída do técnico portista revoluciona o domínio do favoritismo, confunde casas de apostas, desilude adeptos, traz euforia aos adversários e torna o Campeonato Nacional 2011/2012 como o potencialmente mais equilibrado da última década. De favorito crónico - pela condição mental, nível do plantel, continuidade de jogadores e treinador, óbvia competência e factores exteriores sempre do seu lado -, o Porto passa a natural candidato ao título - como o são também Benfica e, menos, Sporting -, embora sem a vantagem natural que teria se Villas-Boas se tivesse mantido sentado no sonho de uma cadeira.
E no Benfica? Como encararão clube, dirigentes, técnico e jogadores esta oportunidade clara para lutarem de igual pelo resgate do troféu perdido esta época?

Estará na resposta a essa pergunta a diferença entre sucesso e insucesso. Se virem na saída de Villas-Boas um motivo para persistirem na estratégia falhada da megalomania, incompetência, ausência de trabalho e pouca preparação mental, em vez de uma vantagem estratégica, a saída do técnico portista será só mais um episódio esporádico de esperança que desaguará inevitavelmente em descrença e frustração.
Se, pelo contrário, os agentes desportivos do Benfica compreenderem que a oportunidade apareceu não como alternativa à inteligência e cuidado planeamento da época mas como um complemento extra que poderá facilitar os primeiros momentos de um ano em que a equipa e jogadores novos precisarão de uma lenta adaptação à mini-revolução no grupo de trabalho, então poderemos estar, de facto, mais próximos de uma época desportiva de sucesso e de uma esperada consolidação para além dele.

Têm a palavra Vieira, claro, porque é o Presidente, mas acima de tudo quem conhece a fundo o futebol e deve aprender e potenciar este momento: Rui Costa - no desbloquear de processos pendentes, contratações que tardam em acontecer e saídas que se esperam vir a ocorrer o mais rapidamente possível - e, como é óbvio, Jorge Jesus, para quem este jetpack de Villas-Boas deverá ensinar o caminho da estratégia assertiva, baseado não na verborreia e arrogância, mas no do trabalho, da lucidez, do método e das escolhas certas.

Se todos aproveitarem o momento presente para, primeiro, compreenderem que o Benfica passou a estar mais próximo de poder vencer o campeonato, segundo, mantiverem o trilho do planeamento sustentado e da escolha inteligente de opções - não só em termos técnicos mas estratégicos -, e, terceiro, não se deslumbrarem sob a luz do jetpack de Villas-Boas, descansando à sombra de uma arrogância tão conhecida, se tudo isto - inteligência, humildade, trabalho, estratégia, planeamento, organização - estiver sempre presente, então podemos afirmar que o Benfica tem as cartas suficientes para daqui a um ano estarmos todos em festa.

É o grande desafio de todos os que representam o Benfica. Como lidarão com o momento e como terão de abdicar de velhos hábitos nocivos que só enfraqueceram e degradaram a cultura deste clube.
Têm, pois, a palavra (e os actos) Vieira, Rui Costa e Jesus. Sabendo que, para todos eles, este será o momento que fomentará a glória ou a guilhotina que os afastará, para alguns de forma irreversível, dos destinos do clube.

Eis que chegou o maior desafio estratégico do Benfica da última década. Estaremos preparados para ele?

Comigo, podem contar. I´ll give you shelter from the storm.


11 comentários:

PB disse...

Lá vai o Jazus ser outra vez campeao, encher-se de manias, e voltar a cometer os mesmos erros na época seguinte. Quase que aposto...

M disse...

"...se tudo isto - inteligência, humildade, trabalho, estratégia, planeamento, organização"...

No fundo, o que deveria ser SEMPRE as nossas "guide lines"...

é um teste enorme, a ver se REALMENTE aprendemos algo com o ano passado. Se já tínhamos que provar a assimilação de tais lições, agora, a exigência é a dobrar...

boa posta, pertinente.

Ganzas disse...

Vai depender muito do Jesus. Se perder a mania tem tudo para ser campeão e como diz o PB voltar a ser cagão. Se ficar já cagão em Dezembro está na rua.

Anónimo disse...

lol. villas boas sai, e depois? se o sucessor, o vitor pereira, tiver no colo uma vantagem de 9 pontos a quarta jornada cavada pelos arbitros, e campeao.

ate eu sou. e o prof neca e o luis campos e o rodolfo reis.

sem esse embalo ate podiam ter sido campeoes, mas tudo tinha sido diferente. e se calhar nao ganhavam mais nada.

Ulrich Haberland disse...

Partilho da opinião do M.

Num país corrupto como o nosso vencer implica sempre muita competência e "sangue, suor e lágrimas".

Ontem como hoje se queremos vencer teremos que ser mais trabalhadores, competentes, sérios, esforçados e lutadores.
Temos que querer mais e lutar muito mais do que todos os outros, saber sofrer e resistir. E é precisamente aqui que o Benfiquismo é necessário no clube porque a nossa história é feita disso mesmo.


PS - Eu acardito no nosso JJ. O homem tem defeitos mas é inteligente e aprende com os erros. Vejo isso na entrevista que deu e na iniciativa de trazer o Prof. Manuel Sérgio para trabalhar com ele. Claro que não se perde os tiques e defeitos todos de uma vez, nem se alcança a perfeição, mas melhora-se e muito. E não nos esqueçamos que também ele está num processo de aprendizagem do que é estar num grande clube.

MM disse...

O benfica atacando a próxima época com os 4 ou 5 brasileiros que já contratou mais os 2 ou 3 contratados em Fevereiro passado mais os 5 ou 6 que já tinha mais, o Roberto: pode estar perfeitamente tranquilo que a próxima época só poderá ser de sucesso.

Hattori Hanzo disse...

Eu no Jesus acredito. Continuo a achar que é dos que percebe mais disto cá em Portugal. Estou é a ver muitos dos mesmos erros que o ano passado na planificação da equipa e duvido que dê em algo esta benesse dada lá em cima. Já agora poderia era levar também o Falcão de lá. Daria uma grande ajuda a todos os outros...

low desert puke disse...

Concordo em tudo, Ricardo. Mas a ditadura que se vive no futebol portugues asfixia qualquer tentativa de projecçao deste tipo. Trabalho? Competencia? Inteligencia e sagacidade? Sim, espero tudo isto do (e no) meu clube. Sempre. Com ou sem adversàrios mais fortes.
Mas os sistemas vigentes nao o permitem. Se com Villas Boas bateram todos os recordes, se com Mourinho até o Estrela da Amadora aliciavam de modo a fazerem descansar os jogadores certos antes dos jogos de Champions, para là das orgias arbitrais...entao como é que nao serà com um desconhecido, sem calo, e com tudo ainda para provar (tal como AVB hà um ano atràs), à frente dos destinos do plantel?

Estamos esquecidos das homenagens a àrbitros na AF porto antes do Guimaraes-Benfica? Para nao darem trabalho aos membros da Judiciària que gastam euros e mais euros em escutas, optaram por perder a vergonha de vez e fazer tudo às claras. Tres, quatro jogos em que, e a jogar sem ponta de lança, havia que manter o ritmo com penalties originados pela feijoada que algum defesa adversàrio tinha comido no dia anterior e vitòrias pela margem minima...

Nao nos podemos esquecer que, mesmo e sempre que sao fortes, continuam a precisar dos tentàculos certos a impedir os adversàrios de virem à tona de àgua...imaginemos quando nao apresentam um treinador na verdadeira acepçao da palavra e provavelmente privados de algum, ou alguns dos melhores jogadores...

Eu acredito que o Benfica pode ser campeao. Faço-o sempre, Mas repito agora aquilo que disse antes do campeonato passado: "Benfica, teràs de ser ainda mais forte do que o rolo compressor anteriormente apresentado! Pois isto aqui é fartar vilanagem."

Armando disse...

Ricardo, concordo contigo na memória de Robert A.Zimmerman, quanto ao resto, nem sim nem não, antes pelo contrário.

Assumir-se que dependemos do "outro", não está no meu jeito, considerar que que o que se passa no interior do "outro" é uma oportunidade revolucionária, vou ali e já venho.

Aquilo que na realidade me interessa, tem a ver com uma declaração do treinador do Benfica, cujo nome me recuso a pronunciar ou escrever. Disse ele, à posteriori do jogo com o Braga, para a Liga, que esperava que o Braga tirasse pontos ao Porto. Quem faz este tipo de afirmação ou é estúpido ou um serviçal do sistema, da corrupção e ainda que admita que o homem tenha que defender o sustento e o seu modo de vida, não havia necessidade. Prova que no Benfica não se compreende o conceito e a prática da organização do "outro".

Ricardo disse...

Armando, para o bem e para o mal, no desporto estaremos sempre dependentes do que os concorrentes forem ou puderem ser. Mais ainda se, na nossa casa, não tivermos capacidade para sermos os melhores que podíamos ser. Abdicar de pensar o "outro" é minimizar as nossas possibilidades. E assumir, seja o que for, se for genuíno tem de ser certo. Mais vale assumir e crescer a partir daí do que não assumir nada e continuar na ilusão.

Miguel disse...

Ricardo, eu acho que a continuidade de Villas-Boas no fcp, a ter acontecido, deveria constituir, por si só, factor de enorme motivação para jogadores e treinador do Benfica comerem a relva na próxima temporada.

Falo enquanto adepto, pois já percebi há muito tempo que nem jogadores nem treinadores do Benfica sentem ou pensam o mesmo que nós, simples adeptos. Se o fizessem, não teriam as prestações miseráveis que tiveram na Luz, para o campeonato e para a taça.

Dar-me-ia enorme prazer ganhar a um fcp treinado por AVB, como dizer o contrário ?! Essa é que era (ou deveria ser) a verdadeira motivação.

Se porventura ganharmos o próximo campeonato, o sabor não será exactamente o mesmo, pois não? Será bom, com certeza, mas...

Cumprimentos