domingo, 8 de setembro de 2013

E que bem jogam os miúdos




O “laboratório” futebolístico do Benfica, leia-se camadas jovens, andou durante muitos anos adormecido, diria mesmo, encerrado. Ainda assim, mesmo durante os tempos mais conturbados do clube, no que a estabilidade directiva e ausência de títulos diz respeito, foi possível extrair da nossa formação jogadores como Moreira, Manuel Fernandes ou João Pereira, que, embora não tenham atingido o futebol top do top, chegaram a patamares competitivos bem aceitáveis e, à excepção de Moreira, capazes de jogarem, se a aposta tivesse sido sustentada, no actual Benfica sem grande celeuma.


Todavia, e há que reconhecer esse mérito, o Benfica tem vindo a reerguer todo o seu edifício futebolístico desde a base, tendo apresentado já alguns resultados, como Miguel Rosa, Miguel Vítor ou Nelson Oliveira, e prepara-se para apresentar daqueles resultados absolutamente inequívocos, falo de André Gomes, Ivan Cavaleiro, João Cancelo e, o mais recente “rebento”, Bernardo Silva.


De facto, ainda que completamente diferentes entre si, estes 4 “produtos” do tal “laboratório” apresentam qualidades que dificilmente não farão deles jogadores de aposta firme e segura num futuro a curto/médio prazo.


Destes jovens apenas um já teve oportunidade de jogar de forma mais ou menos consistente no plantel principal do nosso clube e, curiosamente, talvez seja dos 4 o que menos se enquadra no modelo de jogo do nosso treinador, falo, naturalmente, de André Gomes.


Ainda assim, numa opinião muito pessoal, a aposta em André Gomes deveu-se exclusivamente às necessidades urgentes do plantel, depois das saídas tardias de Witsel e Javi Garcia, e não por Jorge Jesus ser apreciador do estilo de André Gomes ou por achar que as suas características servem de forma ideal o seu modelo de jogo.


 Sou e serei sempre um entusiasta de André Gomes, no entanto sou forçado a admitir que o jovem atleta está longe de apresentar as características ideais para um médio-centro (vulgo 8, se preferirem) deste modelo de jogo que JJ implementou no Benfica. Na realidade, num meio-campo ocupado apenas por 2 jogadores, pede-se a estes que sejam muito rotativos e competentes não só no aspecto ofensivo mas também, e sobretudo, no aspecto defensivo. Por tudo isto, não vejo que o “menino” possa vingar facilmente nesta proposta competitiva. Sim, vejo em André Gomes um jogador que respira classe por todos os poros do corpo, que tem uma qualidade de passe e visão de jogo muito acima da média, que tem uma capacidade de remate com os dois pés muito assinalável, no entanto, é um jogador que tem dificuldade em jogar no espaço, prefere sempre a bola no pé, tem dificuldade em apresentar rapidez de processos, não raramente é desarmado por isso mesmo, e parece um jogador que joga sem emoção, sem nervo, coisa que para o tal 8 no estilo de Jorge Jesus é fulcral que se tenha, o André é um jogador muito, talvez demasiado, cerebral. Não é por acaso que Enzo Pérez lhe ganhou facilmente a corrida pela titularidade neste Benfica, apesar de ser uma adaptação. Vejo no André um jogador mais de 4-3-3, em que tenha com quem repartir melhor o trabalho defensivo e as marcações adversárias, do que de um 4-4-2.


Bem diferentes são os restantes 3 casos. Se acho que André Gomes, apesar da qualidade intrínseca que tem, não se enquadra na ideia de jogo e sistema táctico de Jorge Jesus, também considero que todos os outros servem na perfeição esse modelo e sistema.


Vejo em João Cancelo um lateral que encaixa na perfeição nas ideias do treinador, ou seja, um lateral rápido, de excelente qualidade técnica, boa capacidade de progressão com bola e boa qualidade de cruzamento com os dois pés, podendo até ser adaptado ao flanco esquerdo quando necessário, ainda que seja, de longe, no flanco direito onde rende mais. De facto, até nos defeitos João Cancelo encaixa no perfil de laterais que Jorge Jesus tem escolhido para o Benfica, ou seja, a sua capacidade e posicionamento defensivos (que melhorará com a competição a alto nível, estou certo) e o excessivo descontrolo emocional que, necessariamente, terá de aprender a mascarar. Por isso, numa altura em que Maxi aparece numa forma horrível e em que Sílvio se encontra lesionado, porque não ir dando uma oportunidade ou outra ao nosso jovem? Obviamente em jogos de coeficiente de dificuldade reduzido e, idealmente, em jogos em casa, onde as suas capacidades ofensivas serão muito solicitadas e uteis, mas porque não?


Em Ivan Cavaleiro também vejo um extremo capaz de render a bom nível com as ideias de Jorge Jesus, é rápido, gosta de diagonais interiores, tem boa técnica individual e, bem ao estilo de Jorge Jesus, é um extremo que tem golo nos pés. Precisa, necessariamente e como qualquer outro, de ser mais e melhor trabalhado, mas numa altura em que, infelizmente, Sálvio se lesionou com a gravidade que conhecemos, Gaitan se encontra também lesionado, Sulejmani também aparece tocado, Ola John aparece “pesado” e completamente sem ritmo competitivo, porque não ir dando minutos ao jovem?


Ligeiramente diferente aparece o “caso” de Bernardo Silva, jovem talentoso que se encontra no seu primeiro ano no patamar profissional e a quem, estou certo, fará muito bem este ano que passará a enfrentar defesas mais duros e matreiros. Ainda assim, numa perspectiva a um ano, gostava de o ver chegar ao nosso plantel principal. É um miúdo com um drible estonteante, e um pé esquerdo prodigioso. No sistema de Jorge Jesus parece-me que pode ser enquadrado na posição 10/2º avançado e que, depois de apreender os momentos certos em que deve partir para a jogada individual e/ou combinações ou parar e, eventualmente, “congelar” o jogo com um passe conservador, pode tornar-se um jogador de nível imprevisível. Mas para isso é preciso que lhe seja dada a oportunidade, a ele e aos restantes, de demonstrar o que pode e sabe fazer com e contra os melhores.





5 comentários:

Anónimo disse...

Análise muito interessante! Os quatros jovens são os que estão mais preparados para outros voos.
Gostava de realçar o seguinte: Independentemente do valor do Helder, da sua posição seguidista relativamente ao JJ, a equipa B é finalmente o que deve ser: formada em grande parte pelos jovens oriundos das camadas jovens, integrando alguns jovens que se entendeu com potencial e que terão 1/2 anos para demonstrarem o que valem.
Cumps,
34286

Luis Matos disse...

Bom texto

Marco disse...

Dizer que o André Gomes tem boa qualidade de passe é esquecer todos os jogos que ele fez pelo SLB. Boa visão sim, qualidade de passe não.

José Moreira disse...

Marco

Compreendo o que diz, no entanto, fundamento a minha opinião no que o vi e vejo fazer em patamares competitivos menos elevados, como a B ou as selecções jovens. O facto de errar tantos passes na equipa principal, entronca no que escrevo sobre ele e a sua dificuldade em adaptar-se ao sistema e modelo de jogo do actual Benfica.

Anónimo disse...

"Helder, posição seguidista em relação ao JJ"? Ele limita-se a fazer o que deve fazer.
Então o Mourinho é seguidista em relação a quem?

Agora até já se critica o Helder por utilizar o mesmo critério e estratégia de jogo nos B, algo que o ano passado não foi feito e foi criticado por muita gente.