quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Céu e futebol

As noites, fins-de-tarde para ser mais exacto, são macias e brandas aqui na Ajuda. As luzinhas em amarelo-torrado começam a abrir, uma a uma, em cima de postes colados ao chão. Umas quatro rodeiam um campo de futebol, devidamente enredado para a bola não cair, em desvario de remate pouco certeiro, na marquise de uma velha que coça o cu às flores. Vejo rabiscos de um rosa-luz por cima das casas e estende-se, longilíneo, do Palácio até aos quatro holofotes para sempre desligados do Estádio do Restelo. 

Uma cúpula aponta uma cruz para um avião que passa demasiado veloz, demasiado devagar, em direcção à Trafaria onde irá permanecer exactamente um segundo e meio, virando depois lá ao fundo, quase em Sesimbra, para um regresso solar e aéreo à base que é a manta que é Lisboa de fim-de-tarde, quase noite. Nas janelas das casas e prédios baixos vão-se acendendo fogões e tachos com comida, sons de novelas e notícias com confirmações de defuntos e possivelmente muitos mais feridos. É branda e mansa esta avenida que percorre os olhos e tritura docemente os cantos das coisas - leva um aroma a gaivotas que se esqueceram de voltar a casa. 

Há sempre alguém que assobia no princípio da noite, como se estivesse chamando os lobos e os bêbados para os baixios desta maré. E outro assobio que responde, anunciando a presença. Levantam-se vozes entre as janelas e o jardim, gente que constrói histórias sobre a saudade do dia que acaba e da noite que vem já a seguir, é só levar o lixo ali ao fundo e passear o cão. Tudo isto sob a presença de deuses que, sem nome, se imaginam no levantar de uma nuvem ou naquele ramo que, sem razão aparente, se mexe e flutua no ar. Vidas disto, a toda a hora. Homens e mulheres lançados para um jogo gigante no qual se passeiam sem máscara protectora, só calções de praia e chinelos, fome e muita saudade do futuro. 

Oiço uma bola aos saltos e 20 dedos pequenos a correr na rua. "Tu és o Cardozo, eu sou o Aimar, corre que eu vou chutar para ali!", e, talvez devido ao imberbe crescimento dos pés do jogador, a bola acaba em cima de um caixote do lixo que o Cardozo, sempre oportuno, se apressa a colher nos braços e a levar para golo. Não sei a que propósito deixaram as crianças entrar aqui, neste universo de coisas mansas, brandas e importâncias de marquise. Terá sido seguramente algum erro de casting, tão comum nos dias de hoje nos grandes parlamentos das decisões fundamentais. Correm e riem, imaginam, fantasiam, deliciam-se e todas tão distantes do assobio a chamar para a tasca ou da conversa de elevador que sobe e desce e que traz mais uma previsão meteorológica. Uma rua e um passeio servem para baliza, entre as rodas do carro está o golo, os vidros não devem existir porque não há o perigo de acabarem partidos e as vozes que se levantam neste fim-de-tarde, agora já quase-quase noite, devem perder o fulgor assim que os homens e mulheres se colocam estrategicamente a olhar os heróis americanos ou as empregadas de limpeza lusitanas - e outros enredos que nos escusamos a descrever, tão iguais uns e outras.

À medida que o céu se acostuma à cor das sombras das casas, fica nítida aqui a esta varanda uma igreja luminosa e altiva. Quantas tardes e noites observou através dos sinos, todas quase iguais a estas. Quantos bêbados amparou na ponta dos pés? De quantos aviões terá querido fugir em noites mais nervosas com o som dos carros e de uma zanga doméstica ali tão próxima? Mas a sua condição de igreja, fiel à mármore e ao chão eterno, por mais que faça voar os lamentos e esperanças dos que acolhe, não lhe permite ir passar as férias longe, uma semana que fosse, talvez ao Ceará onde dizem que há igrejas tão ou mais belas que esta aqui, nos baldios do Palácio. 

Não sei a que propósito - se há algum - joga o Cardozo no Aimar uma bola de praia enquanto mais um assobio vem do outro lado da rua e os cães conversam entre prédios uns com os outros em simbologias de latidos rosnanços. A felicidade do Aimar quando atira para golo mesmo juntinho ao pneu traseiro do Opel Corsa vermelho que é de um senhor muito bem posto na vida que a esta hora deve estar sozinho a aquecer os feijões no microondas e depois, de 30 em 30 segundos a meter o dedinho num deles para ver se estão bons a serem devorados tristemente junto a uma planta de plástico que não precisa de ser regada. O Cardozo é mais bruto, remata em potência, a bola encosta-se ferozmente contra a jante e o grito ecoa pelo bairro: "ao poste, ao poste!" e não sei descrever os risos e alegrias histéricos que o Aimar levou para casa quando a mãe o chamou para o jantar e lhe puxou as orelhas por andar sem maneiras a atirar a bola contra o carro do Senhor Meireles.


3 comentários:

Marta Mesquita disse...

Ontem dizia que não havia poetas como os de antigamente.. mas há.

Um dia, tal como nós o fazemos agora, os nossos filhos e netos olharão para textos como este e dirão o mesmo que eu disse ontem.

rsa disse...

Lindo!!!
É por isto que este blog está nos meus favoritos....

João disse...

O Ricardo do vi-te no estádio da luz é quase meu vizinho! que honra :)