sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Era para a esquerda, Vítor.


O tempo é um líquido que se entranha no corpo e vai pingando para o chão a ritmos diferentes. Brota aos prantos, às vezes, chovendo dos braços; outras, cai devagar, com medo da queda. Não tenho noção se aquele penálti do Paneira ainda está aqui comigo ou se choveu há muitos anos. Sei que me molha, aos jorros, de tempos a tempos. E então eu sorvo dos poros aquela memória ou agacho-me de joelhos sobre as poças que a defesa de Bucci deixou a reflectir na água. 

Toda a gente sabe que era para o lado esquerdo, Vítor, mas a incredulidade de ver Faustino Asprilla no relvado e os pedidos sôfregos de Gabriel Alves - "falta acção disciplinar!" - para um amarelo que não chegou, confundiram Paneira na hora da decisão. Não foi astuto, o nosso 7, porque se tivesse visto a massa disforme de cabeças que compunham o primeiro anel tinha sentido a direcção do sucesso - o público todo a contorcer os pescoços e os olhos, fazendo sinais de golo: "é para ali, caralho", como se as redes e os fumos e os fios de aço fossem transparentes -, tinha visto o golo antes dele acontecer.

Mas o tempo escoou para outro lado qualquer e, quando demos conta, em vez de um 3-1 que pecava por nulo - não escasso, mas nulo -, que devia ter sido um 6-1 ou 7-1 sem espinhas, acabou nas mãos de Bucci e depois no desespero de João Pinto num 2-1 sem verdade, desonesto porque cruel. O Benfica acabava um jogo de tareia monumental contra uma equipa fabulosa agarrado a um golinho de vantagem e a olhar para o golo sofrido com ansiedades e desperdícios. 

Mas recuemos: Veloso dá de primeira em Rui Costa que recebe junto à linha, sem pressas. Ouve-se um som de fundo de milhares de gargantas aos soluços: "vai, vai, vai" que no plano geral dá "aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah", que era o som de quase todos os 90 minutos que viam o Benfica jogar. O Maestro espera que o adversário o ultrapasse e depois, sim, avança pelo meio, sempre com aquele ar de quem já está a festejar o golo e viu tudo o que vai acontecer enquanto os italianos procuram disfarçar a tristeza do que não sabem que já foi. De repente, faz um passe para Yuran e continua a correr - aquele 2-1 mágico que, por mais tácticas e prelecções que existam em laboratórios do futebol mais evoluído, destrói qualquer marcação - para receber mais à frente, já em território inimigo, e levantar a bola com a pontinha do dedão enquanto um jogador do Parma se deita no relvado da Luz e vê as costas do Maestro correrem na direcção da baliza e fintarem de anca mais outro que apareceu por ali e depois, logo de seguida, meterem na frente de Isaías o charme do golo. Isaías correu que nem um cavalo alado, ou então voou com um trote terrestre, e quando chegou à frente dos Diabos amansou a bola com um só toque e fez um golo junto ao poste que ainda é melhor porque deixa o salto de 120.000 adeptos em suspenso e passível de ser fotografado com alma e vinho e dúvida e tudo no meio. 

Houve depois uma coisa coisa estranha na área do Benfica que ainda ninguém sabe bem como foi e que acabou nas redes do Neno e o árbitro validou mas não deve ter sido muito bem um golo porque disto eu não sinto a escorrer-me dos braços para o chão. Houve Helder, acho que sim, aos pontapezinhos sobre a bola e depois algo estranho e de que me não recordo bem que originou passe, depois remate e depois um golo, uma espécie de golo, e que sentimos no coração não bem como gelo mas como quando morre gente, que é o sentir do adepto do Benfica quando vê golos adversários no estádio - uma morte silenciosa, cortando veias ou sorvendo veneno. 

No resumo, vê-se Nevio Scala descrente naquilo, tal era o banho de bola a que assistia e ainda por cima gratuitamente - os treinadores, mesmo os maus ou bons ou medíocres, por menos ou mais que façam das suas equipas, têm esse privilégio dos deuses de partilharem relvado com a loucura e com o génio. Nevio Scala estava assim, após o golo do Parma: dava-se por feliz ao mesmo tempo que sentia no coração aquela pontada da injustiça - quase vergonha - de andar a levar a sua equipa a solo sagrado. O público, mesmo gelado ou de luto, respirava de tal forma que punha cubos de gelo ou então mantos de veludo sobre as cabeças de quem nos visitava. Não queria ser Nevio Scala ou aqueles olhos tontos dele em suplício. "E agora que marcámos, o que é que vem aí?"

O que veio foi um fartote de Benfica, que parece que decidiu fazer uma recolha de todos os melhores momentos das centenas de equipas benfiquistas anteriores ao mesmo tempo que se despedia de nós: aquele grupo de gente de 94, vendo agora com distância e saudade, dava todo o ar de sentir de tal forma o clube que já conhecia a nossa tragédia que havia de chegar. Jogavam para escrever Benfica. Tinham pena de nós e por isso decidiram dar-nos tantos momentos e jogos e golos e jogadas e emoções, para que não nos esquecêssemos de que um dia houve este clube que nos fascinou e eternizou crianças até sermos velhos. Compraram-nos futuro naquelas épocas, decidiram deixar memórias tão fortes que nos permitissem aguentar os 20 anos que estavam por vir. 

E nós comprámos, sem medos nem hesitações, tudo o que eles davam e tudo o que eles deixavam dentro de nós - foi assim, até hoje, que viemos respirando e bebendo e comendo, sempre na esperança de ver o Benfica outra vez, com estes bancos de oásis deixados na pele.

Yuran recebe na esquerda, à entrada do meio-campo adversário, com um toque faz cueca sobre o marcador e segue em frente, feliz. Mete no meio em Isaías e - oh, o 2-1! - corre para ir ao encontro da bola, o touro sertanejo não duvida, faz compasso de espera e mete no ucraniano que vai, gazela, perto da área do Parma, de primeira levanta a bola para um Isaías que veio de trás e aparece em vólei falhado e circense, a bola tabela no relvado e vai a caminho de Paneira que, por ter dois cérebros no pé direito, em vez de chutar ou inventar mosntruosos caminhos, a deixa bater primeiro e depois, com a cara da chuteira, abre na direita onde João Pinto a recolhe - sem saber se dá meia-volta e remata ou se dá lugar ao improviso - e deixa para Rui Costa que estava desde o início da jogada a acompanhar o lance com os olhos e com o génio. Depois foi só rematar, simples e para dentro da baliza. Correu desalmado para a bandeirola de canto porque os putos não sabem o que hão-de fazer com o golo, é uma coisa pesada e sem maneiras o golo, não tem coreografia de sentidos, tanto pode dar pirueta como morte instantânea. Deu mãos na cabeça, um abraço do João Pinto e um tapinha do Silvino que por estas alturas já preparava o seu ofício de oficial tapinhador de jogadores. 

Foi um golo que conteve dentro de si todos os golos do Benfica desde o Bermudes e Cosme até àquele segundo. E ainda hoje é esse golo que nos leva ao estádio de bandeiras e cachecóis no corpo. Vamos em busca desse Benfica até ao final dos nossos dias. E esse, por mais que tentem, nunca nos vão roubar.





16 comentários:

B Cool disse...

saudade, saudade ...

Mister D disse...

Que saudades tremendas...
Foi a primeira vez que consegui levar a minha mãe, a minha avó e o meu pai ao Estádio da Luz. O meu avô, esse já me tinha colocado o vício no corpo e é para mim dificil não esquecer a defesa do cabrão do italiano.

Era tempo do Benfica, do grande Benfica, do glorioso Benfica.

Tempos esses que teimam em não querer voltar...

ZePissa disse...

estava por tras dessa baliza e estou como tu...toda a gente viu para onde ia a bola...fdp do Bucci

David Duarte disse...

A jogada do primeiro golo concentra toda a classe do que foi o Rui Costa em toda a sua carreira. "Elegantissimo"

Tó-zé disse...

Fantástico texto! Lembro-me bem desse jogo do qual a RTP transmitiu a 2a parte... Mas lembro-me melhor da 2a mão (infelizmente...), nesse dia chorei como uma criança, que era, a quem todas as injustiças do mundo caíram em cima.

David Duarte disse...

So agora vi o video. Pensava que era aquele dos comentarios em italiano.

Tó-zé disse...

Fantástico texto! Lembro-me bem desse jogo do qual a RTP transmitiu a 2a parte... Mas lembro-me melhor da 2a mão (infelizmente...), nesse dia chorei como uma criança, que era, a quem todas as injustiças do mundo caíram em cima.

David Duarte disse...

O que é ridiculo no primeiro golo é que na repetição nem mostram a jogada do Rui Costa que é das coisas mais belas que eu jà vi no futebol.

MoJoDeath disse...

Que saudades daquele Vulcão.
Que saudades...

JM disse...

Este é o verdadeiro Benfica que levarei para a eternidade.

moleculasdeamor disse...

Que memória maravilhosa, que equipa fantástica... não me lembrava deste jogo... chiça...isto é nosso o nosso coração... obrigado obrigado obrigado!

LDP disse...

Antes do Rolo Compressor, só mesmo a geração FABA (Fita Adesiva Branca nos Artelhos) para me fazer vir lágrimas aos olhos ao recordar jogos de futebol.

"Repare, Yuran já está e depois aí está!".

David Duarte disse...

O jogo em Parma também foi bom. O Benfica a resistir mesmo já depois da expulsão do Mozer e a massacrar depois de sofrer o golo. Foi uma das grandes desiluções que tive essa eliminação. Tinhamos uma grande equipa jogando um grande futebol. Tinhamos Benfica mesmo se nesse tempo nem fosse preciso dizê-lo pois o Benfica era naturalmente isso. Nas vitorias (Parma, Sporting) nos empates (Porto, Leverkusen) e nas derrotas (Parma, Setubal). Que ano esse!

Mike disse...

o ultimo grande benfica. já lá vão quase 20 anos. foi uma epoca sublime. faltou mesmo a final da taça das taças que, na altura, era uma competição especial. não se brincava na taça das taças nem na uefa, como agora se brinca na "euroliga". e que equipa, meu deus. em termos de qualidade individual, tirando rui costa, mozer, joao pinto e paneira, não se compara com a actual, mas em termos de colectivo estão a milhas daquilo que se vê actualmente. só assim se explica que tenhamos conseguido vencer categoricamente o melhor sporting que me lembro (o de boloni também foi bom) e o porto que já dominava o sistema.

o que mais me magoa nesta história toda é que em 2010 tivemos quase a resgatar o benfica. sim, é verdade. 2009-2010 tivemos quase lá. nessa epoca vieira, jesus e rui costa têm mérito. mas depois, como e porquê não sei, o benfica desapareceu. nas duas ultimas epocas não tivemos benfica, tivemos o trio vieira/jesus/carraça que continua este ano. repare-se como o autor dos dois golos do video (peço desculpa ao grande isaias, mas o primeiro golo também é de rui costa) foi substituido pelo carraça. isto não é um pormenor. não pode ser. até porque carraça continua lá a fazer sabe-se lá o quê.

e é isto.

Germano Bettencourt disse...

Lembro-me perfeitamente deste jogo. Como foi lindo. E pouco tempo depois, o principio do fim!!!

Hattori Hanzo disse...

Eu fui ver o jogo. Estava na parte dos sócios no 1º anel. Lembrava-me do golo de Isaías e de pouco mais além do falhanço do Paneira. Muito provavelmente se tem marcado tínhamos estado na Final desse ano, nem o Sensini lhes salvava. A equipa do Parma desse ano era de facto tamb+em muito forte (só na frente Asprilla, Zola e Brolin!!!).
Lembro-me por fim que, após o final do jogo, os sócios ficaram pasmados pois o Nevio Scala mandou todos os jogadores ainda dar umas voltas pelo campo para descomprimir, algo que não era muito habitual de se ver.