domingo, 9 de setembro de 2012

Vendem-se pipocas.

Às vezes, quando já estamos a ganhar por 12-0 ou se pressente no ar aquele golo do Porto em fora-de-jogo que está quase a acontecer, ponho-me a olhar para o estádio e para as pessoas à minha volta. Todos tão diferentes do que eu via em criança. 

  
O estádio tem uns arcos por cima, uns tubos por onde são transportados cimento e substâncias ilegais que depois vão de avião até ao Vicente Calderón, em Madrid, numa proximidade de afectos e parcerias empresariais. O tecto tem umas placas de alumínio que parecem ter sido roubadas ao longo dos anos a cada zona de construção que Mário Dias e Vieira viram aquando das suas idas às Casas do Benfica e que geralmente servem de ponte às poças de água que se acumulam nas zonas exteriores à construção das casas. Há umas varandas onde não podemos parar para beber o nosso gin em garrafa de água porque estão lá uns senhores de colete amarelo a dizerem-nos que ali é só “zona de passagem”. E uns bares onde se amontoa gente para pedir sagres zero e sandes mistas a troco do ordenado mínimo.
 
Se nos levantamos em apoio ao Benfica - naqueles momentos em que o Porto marca golos em fora-de-jogo ou levamos mais um impossível contra-ataque devido à famosa táctica do nosso catedrático e o povo deprime de cabeça para o chão -, logo alguém se insurge: “está a sentar!”; se cantamos quando a equipa está a perder, recebemos aqueles olhares de sentença por parte de quem foi ali, como vai ao cinema ou fazer compras à mercearia, para não ter chatices nem se preocupar muito com o que está a fazer; se nos metemos aos gritos histéricos nas escadas, virados para trás, a puxar pelo público, logo aquele olhar condescentente: “coitado, é maluquinho”.
 
Olho o estádio e as pessoas e juro, quase prometo, que aquela gente não é a mesma que eu vi quando era puto - têm os cachecóis e camisolas do Benfica, às vezes até gritam “Benfiiiiiiiica!” quando são mandados pelo speaker de serviço (Meo! Agora Coca-Cola! Meo! Sagres! Novamente Coca-Cola! Agora Gold Strike e Pudim Flan! Presunto de Lamego! Meo! Tmn! Meo! Sagres! Dois quilos de orelha de porco!), mas parece que lhes saiu Benfica do sangue, todos compostinhos a ver o jogo, amorfos, quase mortos, autistas, deprimidos. Só se levantam para chamar nomes ao árbitro e mesmo isso de uma pobreza vernacular, um “é falta!”, outro “isto é uma vergonha” – o que foi feito dos bêbados do Benfica e dos insultos rigorosos e assertivos que antes tínhamos ecoando pelo estádio?
 
Quando o Porto marca mais um golo em fora-de-jogo ou num penálti inventado ou numa falta que não existiu ou num golo qualquer mal amanhado que o corrupto do árbitro inventou, dou comigo a olhar para este estádio e a lembrar-me do outro, onde todo o tempo era uma festa e uma loucura demencial apaixonante: as claques lançavam ininterruptamente canções e fumos e labaredas; os adeptos não se calavam; os jogadores ainda queriam mais do que nós ganhar os jogos; os treinadores tinham medo de cometer disparates e os presidentes gostavam mesmo mesmo do Benfica. 
 
Aqueles lugares no velho estádio que foram poiso de tanta gente que já morreu e às vezes apetece ligar para o quarto anel a pedir que regressem só por 90 minutos e larguem as conversas em cima de nuvens que têm quando nos observam de coração nas mãos e nada fazem, entregues às bebidas espirituais e espirituosas (no quarto anel, vende-se álcool), deixando-nos perdidos à procura do Benfica.

16 comentários:

Anónimo disse...

Geração cadeiras de plástico.
Anda para o Topo pá....

Marta Mesquita disse...

Até o cheiro é diferente..

Agora temos cheiros perfumados de vaidades, cheiros perfumados de falsos intelectos, cheiros de pseudo sabedorias.

Foram-se os cheiros de palavreado popular, os cheiros de bifana misturados com com os cheiros de uma ansiedade segura que se sentiam em redor e no interior do Estádio.
Foram-se os cheiros de uma semana de trabalho vestidos de gala, com o fato de Domingo e da alegria do fim da semana se vestir de Benfica, covictos pela bandeira na mão e a garganta afinada..

Foram-se os cheiros a fumo parecidos com os da lareira, substituídos pelos cheiros da evolução química;

Já não há bandeiras na mão. Há os últimos cachecóis libertados pela égide de um marketing que não se compadece com cheiros de lavadinho a sabão, nem com um tom gasto mas orgulhosamente reluzente pelo que em cada fio de tecido viu a ganhar.



B Cool disse...

É o reflexo dum país, que antes fazia greves por tudo e por nada e se mobilizava e agora aguenta todas as tropelias que lhe fazem.

Quem se lembra do buzinão na ponte que acabou com um tipo a ser baleado e mandado para uma cadeira de rodas, ou a mítica cena do polícias contra polícias.

Ainda ao jantar o meu vizinho me dizia que antes curtia andar nos comboios porque toda a gente falava com toda a gente, havia mais bancos voltados uns para os outros em vez destes que hoje em dia são quase todos numa direcção e apenas ao meio têm esses bancos frente a frente com mesas e onde as pessoas andam caladas ou a falar só com os conhecidos que partilham as viagens.

O país mudou e o Benfica mudou com o país. Sinais dos tempos.

moleculasdeamor disse...

Como o B Cool diz há um certo cansaço no distanciamento entre os seres humanos, há um tremendo cansaço pela falta de irmandade... parece haver um certo desprezo pela alegria... é ... desnecessário!!!!

Conversa Fiada disse...

Ricardo, leio este texto e lembro-me de um Benfica-Parma com 100 mil ou quase a assistir ao jogo, e o som incrível que ecoava pelo saudoso antigo estádio.
Empatamos este jogo e depois acabamos por ser eliminados no jogo da 2ª mão em Parma, mas que grandes recordações deste jogo, o barulho era tal que parecia que vinha bancada acima e nos levantava.
Quem não se lembra dos "tremores de terra" quando começavam todos a bater com os pés no chão ao mesmo tempo.
Os Diabos Vermelhos na central os NN no topo, assistências de 80 mil na antiga Luz eram razoáveis, hoje com 65 mil tens o estádio cheio.
É realmente um estádio bonito, funcional e confortável, mas se calhar demasiado confortável e aburguesado, por vezes o silêncio é tal que parece que estamos na ópera e não num estádio de futebol.
Quem não se lembra de jogos contra Porto, Marselha, Steaua de Bucareste, com a velha Luz a rebentar pelas costuras, mas em que o ambiente, esse sim, era o verdadeiro Inferno da Luz....

il _messaggero disse...

Ricardo,

Vivemos na era das coloridas e assépticas arenas, das SAD’s onde o adepto é tratado como um cliente passivo.

O futebol-pipoca.

Valha-nos o Topo Sul. E as deslocações. O que perco em termos de visibilidade, ganho em termos de emoção, em termos de apoio vocal e comunhão com a equipa.

Já agora, partilho um relato de um jogo de 2ªdivisão alemã que vi em Berlim - Union Berlin, um dia depois de ter visto o Maior ganhar pela primeira vez na Alemanha (em Estugarda). 7 horas de carro que valeram bem a pena. E que me reenviaram para belas recordações de infância, no velhinho Caldeirão dos Barreiros, na minha Madeira-ntal.

http://desbobina.blogspot.pt/2011/07/ultima-camada-de-berlim.html

Mr. Shankly disse...

O Bcool tirou-me as palavras da boca. O Benfica era diferente porque o país era diferente. O Benfica é o país, aliás, no que tem de bom e de mau.
A malta do 4º anel, quando lhe roubavam 10% do vencimento líquido, não ia para o facebook mandar bocas.

Vendo bem, se calhar a culpa é do facebook. Sinto-me melhor depois desta epifania.

Passaralho disse...

Conversa Fiada, ganhámos esse jogo por 2-1, 1 marcou o Rui Costa que fazia anos, o outro não me lembro. E o Paneira falhou um penalti por depois de andar 5 minutos atrás do árbitro a pedir a expulsão do Asprilla.

Bons tempos!

Mr. Shankly disse...

Passaralho, o outro foi o Isaías a passe do Rui.

xirico disse...

Que saudades desses tempos em que levávamos o garrafão de tintol e não nos calavamos durante os 90 minutos.Falávamos com toda a gente ao nosso lado mesmo sem as conhecer.Partilho os comentários de Mr. Shankly ,B Cool e Conversa Fiada.

Cannigia disse...

Hoje, vais ao estádio e levas com malta ao teu lado a assobiar o Cardozo, um jogador do CLUBE... Ontem tinhas o Magnuson, jogador semelhante e se assobiasses arriscavas-te a "cair" do 3º anel.

Andrezini disse...

No caso desse Benfica - Parma lembro-me de oferecerem bilhetes na minha escola para os putos irem ver o jogo. Hoje em dia é borlas para as empresas, esses não fazem tanto barulho como a miudagem...bons velhos tempos!

Mr. Shankly disse...

Caniggia, isso sempre foi assim. Até tu foste assobiado, pá!

Fehér 29 disse...

Se eu quiser pertencer à claque o que tenho de fazer?

philippe disse...

Soberbo! Ricardo, o teu texto e os comentarios dos gloriosos adeptos do nosso clube estão, hoje, os unicos verdadeiros momentos de benfiquismo que podemos disfrutar! parabens pela lembrança, que saudades...

João disse...

Como li num texto de um benfiquista português que com o prémio Nobel fez do Benfica campeão mundial de literatura, as memórias são como moedinhas de ouro por entre as pedras do fundo de um riacho com o seu brilho trémulo, e a saudade torna muito mais belas as recordações e é assim com as memórias do verão passado ou do antigo público do estádio da luz, mas para inventar esse passado mitológico é preciso uma boa memória e uma máquina lírica como aquela onde o Ricardo entra para escrever sobre o Benfica, que é acima de tudo um sonho muito lindo que tivemos todos.