domingo, 9 de setembro de 2012

O Astronauta Vieira

É importante dar as boas-vindas a Luís Filipe Vieira, neste seu regresso ao planeta Terra após dez longos e extenuantes anos pelo espaço sideral. Desejar-lhe um bom resto de mandato e, se possível, que seja campeão já em andamento para a reforma do Benfica, porque certamente tem mulher, filhos, cães, papagaios, abutres e dinossauros à espera no alpendre de sua casa. 

Como é sabido, entre asteróides, planetas anões, estrelas, cometas e buracos negros, o cérebro tem tendência a mirrar de espanto perante tamanha grandiosidade universal; não raras vezes - pelos relatos a que temos tido acesso -, acaba mesmo por explodir, devido à compressão do ar, o que o faz, primeiro, expandir-se dentro do crânio, depois soltar-se aos jorros de sangue e, por fim, já em plena comunhão com o espaço, gravitar em milhares de pedacinhos para todo o sempre. 

Ao de Vieira, valha-nos nossa senhora!, esta tragédia não ocorreu mas, pelas declarações feitas ao sair da nave, penso ser da mais elementar evidência afirmarmos que se encontra num estado quase fetal - um cérebro ao nível de um rebento em gestação com duas semanas de vida umbilical.

Por outro lado, tenhamos a decência de dar um contributo positivo a tudo isto: haja compreensão. O que se terá passado - relatará a agência "LUSA" nos próximos dias - terá sido aquilo a que os especialistas consideram como um "salto no tempo", dimensão já por todos sabida ser de grande volatilidade aquando de uma massa cinzenta sem chão gravitacional. Vieira e o seu cérebro mirrado encontram-se hoje, em 2012, num loop que advém de terem parado há 10 anos atrás na vida terrestre, altura em que, vestido a preceito, subiu as escadas da nave enfiado numa máscara de carnaval muito parecida ao boneco Michelin com um penico na cabeça e esvaiu-se verticalmente num peido astrológico, furando, criando mazelas e destruindo a fina camada que protege o planeta do obscuro mundo infinito que o rodeia. 

Importa, portanto, nesta altura do campeonato, relativizar. O que pensa e, sobretudo, o que diz. Importa, numa primeira instância, ensinar-lhe a doença que tem - que é uma junção de amnésia com nescidade - e depois, já ciente da labareda que o afronta, pedir-lhe que feche os lábios muito devagarinho e que assim os mantenha até ao fim dos seus dias. 

Conceitos como "credibilidade", "competitividade", "estabilidade", são ideias muito interessantes para o ano 2000. Fazem sentido, imperam num Benfica destroçado por uma conjugação de factores, tractores e detractores e são obrigatórios para que o futuro comece a ser construído. O problema - para Vieira e, em consequência, para nós - é que o ano não é o de 2000, mas o de 2012, com novos desafios, novas metas e, acima de tudo, novas e astronómicas (não astrológicas) dívidas. Enquanto Vieira, da distância sideral, falava aos terráqueos benfiquistas durante estes 12 anos, o clube - pasmemo-nos todos! - existiu e foi transportado para ínvios caminhos alicerçado nos discursos e acções do nosso astronauta moribundo.  

Agora é, talvez, tarde para tão meritório discurso. Os avisos de alguns, ao longo desta longa caminhada no deserto - pontuada com breves momentos de chuva, que logo terminavam em seca profunda -, nunca chegaram devidamente catapultados pela força da tecnologia aos ouvidos - largos - do viajante do espaço e, gradualmente, enquanto a doença crepitava silenciosa por entre os pneus intergalácticos, adormeceram e extinguiram-se. 

Alguns dos que aqui permaneceram, poucos, foram avisando para o perigo de serem comandados do espaço por um líder eufórico - não de alegria, mas pelos ares opiáceos da grande mancha infinita. Levantaram-se problemáticas, indicaram-se novos caminhos, houve medo, preocupação, angústia. A tudo, o astronauta respondeu com a sabedoria dos pouco sábios: não ouviu. Imerso na alucinante janela da velocidade astral, o astronauta afundou o clube e afundou os que patrocinaram a sua epopeia além-planeta. Hoje, como ontem, o que permanece, o que verdadeiramente sobrevive aos actos grotescos de quem nunca amou o Benfica - porque nunca o chorou - é a capacidade regenerativa que nos faz, terrestres sem bilhetes de ida, preservar o nosso mundo. 
 
Ao astronauta enfermo, resta-nos reservar-lhe a nossa profunda e sentida mágoa, quase piedade. E enchermos o peito de ar, semearmos na terra um novo horizonte e esperar. Devagar, sem pressas, esperar. Pode ser que um dia acabemos por gostar de nós.

5 comentários:

moleculasdeamor disse...

é do estilo e os passarinhos alegremente esvoaçam, está um sol quentinho e tudo na terra está numa estranha harmonia... é mais ou menos né???
E não é que não aparece o crl de uma candidatura de oposição mesmo que fosse aquela oposição acarvalhada!

Bicadas de Aguia disse...

Afundou o clube... e eu a pensar que o tinha erguido e recuperado a credibilidade, o bom nome, as modalidades.. enfim.
Como estou enganado.. eu e os demais benfiquistas que democraticamente lá irão dar novo mandato a esta direcção.
Sim, que oposição digna desse nome com um projecto sem ser o dizer mal da direcção e esperar por derrotas do Benfica, não aparece...
Já pensaram que tanto dizer mal já mete nojo?

Ricardo disse...

Eu já pensei que me mete nojo assistir a benfiquistas autistas que vêem o Benfica ser afundado numa crise desportiva, financeira e moral e ainda conseguirem ter a lata de vir dar lições de benfiquismo aos outros.

Também já pensei que tanto dizer bem à incompetência me causa asco.

E outras coisas e pessoas que me enojam.

Hugo Santos disse...

Mas se ele é assim tão mau e se o Benfica está tão mal como é que não aparece um grande benfiquista com um projecto??

Porque é que nem o Bruno Carvalho que tanto gosta de criticar e fala diariamente do seu grupo de "salvamento do Benfica" ainda não arranjou ninguém? Acabou-se o financiamento vindo do norte?

Se calhar O Benfica não está assim tão mal. Pelo menos não precisa de vender meio-plantel para pagar dividas e ordenados em atraso. Não tem de entrar em saldos para conseguir vender os seus jogadores. E assim depois 70 milhões recebidos continuamos a ter Artur, Luisão, Garay, Maxi Pereira, Melgarejo, Matic, Carlos Martins, Bruno César, Aimar, Enzo Perez, Nolito, Gaitan, Salvio, Rodrigo, Cardozo, Lima e outros. Mais a equipa B com grandes promessas e verdadeiras possibilidades de ganhar a Liga Orangina.

Mas se alguns acham que o campeonato já está perdido quem sou eu para os desmentir. Espero que o tempo lhes demonstre o contrário.

moleculasdeamor disse...

PORQUE O BENFICA TEM UM PASSIVO MONSTRUOSO SUPERIOR AO DO BARCELONA!