sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Depois do Olimpo



Há muito que não me lembrava de passar tanto tempo para escrever sobre um jogo do Benfica.. Nunca poderia ser por bons motivos. Acatando alguns conselhos de amigos, mantive-me estes 3 dias a realocar os órgãos no sítio certo, a colocar as ideias no lugar, a lêr e ouvir as mais variadas opiniões sobre o jogo de 3ª feira e a vêr alguns retalhos desse jogo na tv, esperando que a imagem que passou perante os meus olhos na Catedral fosse atenuando pelo efeito da caixa mágica.
Devo informar que, de facto, ter contido a minha impulsividade dando lugar progressivamente à razão, serenou a minha opinião mas não a modificou na sua base.

Antes de qualquer outro comentário, alguns pontos de clarificação devem ficar desde já bem assentes:
1 -  não me desloquei 320kms para vêr o Benfica porque jogava com o Barcelona. Desloquei-me à Luz, a Casa, porque o Barcelona jogava com o Benfica.
Se quisesse assistir aos jogos do Barça ía ate Camp Nou como fazem muitos e saía-me certamente muito mais em conta.
Em abono da verdade, não seria o Barcelona que iria vêr. Como já muitos sabem, para além de não gostar deste clube, pessoalmente não gosto nem me identifico com o futebol perfeito de “carrossel” praticado pelos seus artistas;

2 – o que me leva a vêr qualquer jogo do Benfica em particular e jogos de futebol no geral, não é com toda a certeza a ponderação de rácios de jogo, posses de bola, ranking nacional, mundial e europeu de clubes com quem se defronta, caso contrário não gostaria de futebol nem de qualquer outro desporto onde a competição é a essência do mesmo, com todos as certezas e estatísticas que dele fazem parte mas que jamais poderão desvirtuar o efeito humano que o define e o diferencia nessa dita essência.   O factor determinante para as vitórias e derrotas é este, com todas as subjectividades que a natureza humana encerra;

3 – o Barcelona – goste-se ou não, concorde-se ou não  – é a melhor equipa do mundo a jogar futebol e, nas suas fileiras, conta com os melhores artistas mundiais para o fazerem. O que fazem, fazem-no na maioria das vezes de forma perfeita. Mas, ao contrário do que se diz, são deste planeta, jogam neste planeta e por isso defrontaram o Benfica na mesma competição, onde se encontra reunida a restante “nata” do futebol europeu.
Que melhor motivação um jogador  profissional pode ter que não seja esta, excepto a de jogar com o Manto?...
Deixei toda a racionalidade em casa quando na 3ª feira saí para a Luz, porque sou uma humana incondicionalmente apaixonada pelo Benfica.

O Olimpo estava completo e a elevação do espectáculo da Vitória e do fervor do Hino são sempre aqueles momentos que me conseguem fazer abstrair por uns minutos de tudo que é terreno e imperfeito.

Não vou debruçar-me sobre análises individuais. Pelo que tenho lido, as opiniões não são muito divergentes sobre este tema e, no que a mim diz respeito, não me parece que o individual seja o que de mais relevante se possa analisar naquele jogo. Tal como a táctica..
O “Mestre da Táctica” podia ter “engendrado a táctica perfeita para defrontar o Barcelona – esteve longe disso, é claro – que nem assim atingiria um resultado positivo. 
Não sofrer uma goleada, na minha óptica, NÃO é um resultado positivo realce-se. Não quando falo do Benfica, independentemente do adversário.
Não há táctica que interfira na mentalidade e postura dos jogadores. Não há táctica que transmita aos jogadores atitude e ambição. Não há táctica que decida jogos se o querer não estiver lá, com uma força de aço.

JJ nunca foi o melhor condutor de homens e, lembrando-me das suas palavras no final da época passada e de novo já no início desta, olhando para a diferença de postura da equipa na 2ª parte face aos primeiros 45 minutos, não posso deixar de acreditar que, devemos agradecer o “cavalheirismo” do Barcelona ao calendário da Liga Espanhola – que assinala este Domingo o confronto com o Real Madrid em Santiago Bernabeu – e a nossa paragem mecânica e cerebral devemos agradece-la (basicamente falando), ao nosso calendário que nos coloca a receber o Beira Mar (sim, o Beira Mar!!), como se de um jogo decisivo se tratasse na conquista daquele que é o objectivo principal, sobejamente conhecido, estabelecido pelo Clube, e conforme já sublinhado pelo treinador: a conquista do 33º título nacional.

Na 2ª parte, ainda crente, e muito pela exibição que o Benfica havia realizado na 1ª, goraram-se as minhas palavras de que o Benfica não sairia derrotado se jogasse como o tinha feito.
Um empate… um empate já cabia nas minhas esperanças.

Palavrinhas de pim pirlim pim pim, bem contrárias às minhas, devem ter sido proferidas naquele balneário.
O efeito anestésico que tiveram sobre a equipa foi esmagadoramente evidente, contribuindo para que, na 2ª parte, crua e duramente viessem ao de cima, sem apelo nem agravo, a diferença entre ambas as equipas, relegando para um plano infinitamente inferior, o tal  factor humano único que consegue bater as estatísticas. O tal em que assentam as paixões e crenças dos adeptos.

Esmagadoramente evidente também é o minimalismo constante que vem progressivamente reduzindo as ambições do Benfica como se de algo normal se tratasse. Como poderão os jogadores transcenderem-se e darem azo a uma potencial motivação a jogarem contra a melhor equipa do mundo, se além de uma equipa desequilibrada por todos os motivos sobejamente conhecidos, têm esse factor de motivação altamente condicionado por outras exigências? Exigências essas ainda por cima de cariz tão básico. Exigências essas pelas quais eles não são responsáveis mas são os primeiros a sentirem-nas.

Subserviência era a palavra que me assaltava a mente na 2ª parte. Subserviência daqueles 11 homens que envergavam o Manto pelo futebol de “carrossel” que ía fluindo no relvado da Luz.
Não se faziam a uma bola, das poucas vezes em que a conseguiam interceptar não conseguiam retê-la por mais de 10 segundos, não passavam a linha do meio campo. Não arriscavam coisa nenhuma e não davam sinais de querer arriscar, como o tinham feito na 1ª parte.
Todos os sinais positivos, entre os quais o maior número de remates e ataques, se tinham eclipsado no e com o intervalo, arrastando consigo todas as esperanças que, uns mais do que outros, levaram para o Olimpo, para aquele jogo, e ainda as alimentaram durante 45m.
Num ápice toda a motivação e atitude tinham desaparecido entre o “carrossel”.

Com os olhos rasos de lágrimas aguentei-me até ao fim. Nem a debandada geral que se fez sentir a 15m do apito final me conseguiu arrastar. Estava pregada à cadeira, com o cérebro num turbilhão e as emoções completamente derrotadas.
O encontro entre o “Ídolo" e o "Fã” conseguiu arrancar-me um sorriso e conseguiu arrancar-me do estado catatónico em que me sentia.
Vou lembrar-me e guardar aquela visão, sempre com o mesmo sorriso.

Não me envergonha a derrota.
Envergonham-me 45m dessa derrota por serem o espelho de tudo o que não devia ser o Benfica. Principalmente contra os que são considerados os melhores do mundo;
envergonha-me o nível de exigência com que se limita o Benfica actualmente, a todos os níveis e por todos os níveis;
envergonham-me as justificações sem qualquer ambição;
envergonha-me o simplismo diminuto que nada tem a vêr com humildade mas que para muitos se confunde.

De tudo isto e da promessa falhada (mais uma) de que seríamos uma das melhores Equipas europeias, não têm culpa aqueles que em todos os jogos envergam o Manto;
de tudo isto e da não transmissão natural dos valores que sustentam a Instituição que eu conheço como Benfica também não;
de tudo isto e do enfraquecimento do plantel em sede de passivos, também não;
de tudo isto e do não planeamento de construção de uma Equipa sustentada também não.

Voltaria a fazer tudo de novo. Vou fazê-lo sempre que puder.
Vou estar de novo com o meu apoio e crenças incondicionais já no sábado.
Vou estar sempre com o Benfica. De corpo e alma, para além de qualquer minimalismo e redundância, acima de qualquer limitação. Como sei e como sinto.
Não se aprende, apreende-se.








15 comentários:

Jorge Filipe Oliveira disse...

Já era altura de teres mudado o "é GAJO para ter sido escrito por ..."
:)))

moleculasdeamor disse...

Marta compreendo totalmente o que escreves-te! E respeito. Mas estamos a falar deste Benfica e deste Barcelona. O que vou dizer a seguir vai ofender a tua alma benfiquista, mas foi o que eu disse antes do jogo - qualquer coisa menos que 0-3, é vitória para mim!
O nosso Benfica estava sem Luisão, Javi e Witsel! Apesar do respeito que tenho por Matic e Perez - o nosso miolo é composto por Matic e Perez!

O nosso Benfica que tem alguns excelentes atletas, está carente de paixão (Jesus não é apaixonado pelo Benfica, e o presidente e toda a estrutura também não... logo)... a paixão está na equipa B!

Queres devolver a paixão - contratemos o Fernando Santos... e tenhamos um plantel deste tipo:
Artur, Mika... Maxi, Cancelo, Garay, Luisão, Roderick, Miguel Vítor, Luis Martins, Luisinho... Martins, Cavaleiro, Rosa... percebes?
Temos paixão mas teremos depois imprevisibilidade... associada á paixão... eu adoro a imprevisibilidade... mas as pessoas não querem vitórias 8algumas a todo o custo - muitos já me disseram eu queria era o Pinto da Costa a dirigir o Benfica - a sério????)... isto é tudo muito complexo... como complexa e muito é a situação financeira do Benfica...
E todas estas variáveis estão em cima da mesa.... todinhas...

Voltar a Cosme Damião a jogadores portugueses e da Cantera, chama-se a isso estratégia, como o Atlético de Bilbao!
Enfim nada consensual, absolutamente nada!

Mas Marta, amar a derrota é FUNDAMENTAL, porque sem ela não conheces a vitória e sem ela não tens competição! E amar então os adversários porque sem eles não tens jogo!

Cumprimentos e o máximo respeito pelo texto Marta, muito bem escrito filha [ :)] a minha mais velha como já te disse chama-se Marta e é uma mulher maravilhosa... também cheia de convicções, "infelizmente" (ou felizmente talvez...) não liga à bola!

Fehér 29 disse...

Finalmente algem que diz o que eu penso. Os últimos 45 minuto foram um baile de bola que devia envergonhar qualquer benfiquista. Claro que eles têm os melhores do mundo, mas os nossos com aquele manto sagrado envergando nao se podem deixar humilhar daquela forma. O pior é que eu era o único adepto naquela zona do estadio que gritava: "subam caralho!, da-lhe uma cacetada matic!!!" os outros estavam caladinhos, conformados com o que se passava. Nao minto, aqueles 45 minutos foram uma verdadeira tortura para mim enquanto BENFIQUISTA... Saí vexado do estadio. E acho que fui o único...

Ricardo disse...

Tudo dito.

Felizmente as equipas de 60, que jogaram contra super-equipas altamente favoritas.

Felizmente as equipas de 70, que jogaram contra super-equipas altamente favoritas.

Felizmente as equipas de 80, que jogaram contra super-equipas altamente favoritas.

Felizmente as equipas d e90, que jogaram contra super-equipas altamente favoritas.

Felizmente até as equipas de 2000 - como um Benfica de 2006 em Liverpool, contra o campeão europeu em título - que jogaram contra super-equipas altamente favoritas.

Felizmente que essas, por inferiores que fossem, sabiam que estavam a representar o Benfica.

E infelizmente os adeptos que, tentanto justificar as suas escolhas de dirigentes, inundam o clube de uma falta de ambição desesperante.

Quando perder em casa, com uma atitude subserviente, é um bom resultado, está tudo dito.

David Duarte disse...

Completamente de acordo com o que escreveste Marta. A diferença entre a 1a parte e a 2a foi enorme em termos de atitude.

Durante a 1a parte vimos um Benfica inferior ao Barcelona, mas um Benfica que não sentiu essa inferioridade no jogo, ou seja, um Benfica tentando jogar com as armas, certo menos poderosas, que tinha. Os primeiros 15 minutos foram realmente bons, tendo-me surpreendido muito. Pena o golo sofrido e aquele falhanço do Lima face ao Valdés. Deram-me esperança num bom jogo, sobretudo porque das bancadas vinha um apoio bem quente. Depois desses 15 minutos iniciais, o Barcelona tomou conta da partida, mas quando recuperava a bola o Benfica mostrava que podia fazer qualquer coisa. Gostei da 1a parte apesar do resultado.

A 2a parte, a unica coisa que digo é que vimos o mesmo Benfica de Glasgow. Atitude, vontade ZERO! Um Benfica inexistente.

Escreves bem Marta!

Ulrich Haberland disse...

Como diz o David Duarte - escreves bem Marta!

Partilho da mesmo opinião, em relação ao jogo, em relação ao Benfica,em relação à atitude, em relação à filosofia actual do clube. A tudo, enfim.

Não gosto do Barcelona mas admiro o modelo de clube, abstraindo as questões politicas.
O Benfica actual é uma empresa (tudo o que ainda tem que passar pelo clube é apenas um pró-forma), e convenhamos, ninguém ama uma empresa a não ser, eventualmente, os seus donos. Aliás, na actual visão de clube não faz sentido o associativismo, somos sócios de quê exactamente?

Pedro disse...

Acho que continuam a confundir incapacidade com medo...

moleculasdeamor disse...

Ricardo, malandro, madas-te uma dica velada... eh eh eh eh... eu compreendo o que falam, mas também eu quero esse Benfica de volta, e no entanto o que tenho é isto: uma direção e uma equipa técnica sem paixão - sem tomates como se diz em bom português... mas digo-te com este plantel e com este status quo o que se conseguiu na 3ª feira foi muito bom!

Eu sei que isto que escrevo faz sentido... e não é o Benfiquinha Ricardo,a sério que não é!!!

Eu quero Paixão e de terminação de novo... e não é com estas pessoas que o vamos conseguir de volta... é também por isso que estou com um pé fora... estou bastante cansado deste mundo dos negócios... da falta de alma, de coração,... cansado muito cansado! Tal como o Tino!

B Cool disse...

Felizmente que trouxeste racionalidade e temperança a este blog. Eu não consigo ver o Benfica assim e ficar calado, por isso é melhor não escrever após estes jogos, porque como bem dizes os valores que deviam ser a base da instituição Benfica não são passados à equipa, porque quem a lidera não os conhece e quem deveria ser o garante dessa mesma defesa, os sócios, aceita justificações que em nada prestigiam o clube.
Obrigado Marta

Ricardo disse...

Isto é serviço a la revista Maria. Palha para as donas de casa.

B Cool disse...

Ma tu vens cá sempre comer a palha ricardinho ...

Ricardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ricardo disse...

Não. Só venho cá ver qual a palha que comes! Mas é de pouca qualidade no entanto tu com as tuas orelhas caídas comes qualquer merda.

B Cool disse...

não confundas o que tens na boca com o que lês, fica-te mal seres convidado e insultares quem te recebe, mas se calhar a tua inteligência não chega para mais

Marta Mesquita disse...

Ricardo, o seu vocabulário e argumentação, claramente demonstrativos do seu q.i, também são bastante elucidativos da "qualidade" da sua leitura.


Obrigada aos restantes participantes.

Moléculas: eu "amo" a derrota quando ela é o resultado de uma luta digna que não foi levada a melhor. O Benfica na 3ª feira não se bateu dignamente durante 45 minutos. Se tal não faz sentido durante 1 minuto, durante 45 é inadmissível. Acobardou-se. Cobardia nunca foi um termo que coubesse nos pergaminhos do Benfica, caso contrário não teríamos chegado onde já chegamos.

Quem era o Benfica de 1960 que ganhou 5-3 ao colossal Real Madrid Moléculas?...

Plenamente de acordo no que respeita às justificações para essa falta de motivação. Mas aceitar que foi um bom resultado por ser frente ao Barcelona... não.
Pelo que já sabemos eles é que não estiveram para isso. Não tivessem o jogo com o Real Madrid e teríamos visto a mesma história mas com um resultado diferente.

Ou seja, fechamos com 2 não por nosso "mérito" ou pela nossa excelente exibição, apesar de tudo.
O que faz toda a diferença Moléculas.

A tua filha já se sabe onde foi buscar as convicções! Um bem haja aos dois.