sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Entrevista - Éter (do saudoso "Céu Encarnado")


Lembram-se do Éter, do "Céu Encarnado"? Devem lembrar porque, 6 meses depois de ele ter fugido para a Micronésia, ainda recebemos dezenas ou centenas de visitas diárias vindas do seu tasco. Excluindo verificações de programas informáticos, imagino que as pessoas gostem de ir ali ler coisas antigas, em nostalgia e memória. Ou à espera que o nosso escriba volte a escrever. Não volta. Pelo menos, no Céu Encarnado não volta. Porque "fim é fim". Portanto, para já, este é o regresso possível de Éter ao mundo dos vivos blogosféricos. 

Ideias inovadoras, romantismo benfiquista, crítica lancinante e memória - estas as linhas em que se enleia o nosso entrevistado. E ainda arranjou tempo para falar numa mirabolante história passada na Austrália que envolve coalas, falos e, claro, espiões internacionais.



Com tantos clubes pequenos por aí, foste logo escolher um clube enorme porquê?

É engraçado que me faças essa pergunta precisamente quando passa na televisão o resumo do Videoton-Sporting... Quanto à questão propriamente dita, eu acredito que é o Benfica que escolhe as pessoas e não o contrário. Imagino o Benfica a pairar no céu enquanto vai escolhendo pessoas para juntar à família. "Olha, pode ser esta. E agora quero esta. Esta não. Esta sim." Algo deste género. Às vezes engana-se, claro (sim, o Benfica também se engana, porque é humano), e de vez em quando lá vem um Pedro Proença. Portanto, serve isto para explicar que acho que o Benfica me escolheu. Será arrogância da minha parte, talvez, mas penso assim.


Se não fosses do Benfica, sobrevivias?

Sobrevivia, sim, mas seria uma existência muito triste. Patética, até. Não quero muito pensar nisso. Nem consigo, aliás. Sobrevivia mas não vivia.


Na primeira vez que foste ao Estádio da Luz sentiste o quê?

Senti várias coisas. Senti que conhecia todas aquelas pessoas por quem ia passando, desde as imediações do estádio até estar lá dentro sentado. Senti que o Benfica era um organismo vivo e que estava muito contente por estarmos todos ali e isso fez com que também eu ficasse muito contente. Por outro lado, senti que ainda não tinha ganho o direito de estar ali sentado entre os "grandes" e disse isso ao meu pai. Ele riu-se e explicou-me que os "grandes" provavelmente também tinham começado a ir à bola com a minha idade. Fiquei mais descansado. Mas não liguei patavina ao jogo. Estava demasiado fascinado com aquele gigante e com a massa humana à minha volta.


Lembras-te de qual era o jogo?

Não faço a menor a ideia. O que reforça o que disse anteriormente. Lembro-me perfeitamente das sensações mas não do adversário.


És de Coimbra. Qual era e é o pulsar da cidade em relação ao Benfica?

Quando eu era miúdo, os outros miúdos do prédio eram todos do Benfica. Nas turmas do secundário, fazendo contas por alto, 70% era Benfica (na Universidade já é mais difícil de quantificar, porque vinha imensa gente de fora estudar para Coimbra). Portanto posso dizer que tive uma infância e uma adolescência fortemente benfiquistas, porque Coimbra era e é uma cidade de benfiquistas. Mas também reparei que o portismo ia crescendo ano após ano, fenómeno que penso que se mantém. Ainda longe do número de benfiquistas, claro, mas não me agrada. De realçar ainda o facto de nestes últimos anos a Académica se ter aproximado do FCP de uma maneira bastante despudorada, até.


Há muitos conimbricenses agastados com o facto de haver uma grande maioria de adeptos que prefere um dos "grandes" - para eles, "os três estarolas" - ao clube da cidade. Queres enviar-lhes alguma mensagem de ternura?

Desde cedo a Académica foi ganhando muita simpatia fora de Coimbra, principalmente pelo conceito delicioso do jogador-estudante e, mais tarde, e mais fortemente, por causa das sucessivas crises estudantis da década de sessenta. Mas eu penso que essa simpatia acabou por não ser benéfica, porque a verdade é que a Académica passou a ser a segunda equipa de muita gente por este país fora. "Ah, é um clube simpático", "Ah, eu depois do Benfica sou da Académica". Este tipo de frases era muito comum nos anos oitenta e noventa e irritava imenso os meus amigos academistas. Porque isso tira força ao clube, tira identidade. O que acaba por ser triste, porque a Académica é um clube com uma identidade fortíssima e é um histórico do nosso futebol (nem vou aflorar aqui o tema "OAF" porque isso daria pano para mangas). De resto, a Académica sofre do mesmo problema dos restantes clubes "pequenos" deste país: a tripartição dos adeptos pelos três "grandes". Portanto a minha mensagem para os academistas é muito simples: lutem pelo vosso clube o melhor que puderem.


Faz uma equipa do Benfica com os melhores jogadores que viste jogar.

Preud'homme (com um envergonhado "desculpe, Bento")
Veloso, Humberto, Ricardo Gomes, Coentrão
Diamantino, Valdo, Carlos Manuel e Chalana
João Pinto e Rui Águas
Banco: Bento, Mozer, Schwarz, Shéu, Paneira, Isaías e Magnusson


Tinhas um blogue muito amado (e odiado) por muita gente. Deixaste de escrever porquê?

Fundamentalmente por cansaço e saturação da blogosfera. E também porque me apercebi de que o blogue já estava a roubar demasiado tempo aos meus livros e aos meus filmes. Poderia ter mantido aquilo num ritmo de cruzeiro, um postzito aqui, outro ali, mas não sou adepto de meios-termos.


Tens a noção de que deixaste a blogosfera benfiquista em lágrimas por não teres acabado aquele belíssimo texto, não tens? É sadismo ou sadismo?

Será mais saudosismo da tua parte do que sadismo da minha. Mas não seja por isso. Se quiseres, termino a coisa e entrego-ta para publicares. No meu blog é que já não posso, porque "fim" significa isso mesmo.


Queremos todos, venha ele. Como escriba de qualidade, tiveste empresários e agentes atrás de ti para ires escrever para outros lados?


Tive alguns convites de malta amiga, sim. E também de um empresário de bloggers, mas era uma coisa muita estranha: a ideia seria eu continuar a escrever sobre o Benfica mas primeiro tinha que escrever umas coisas sobre o Atlético Rentistas do Uruguai. Não me cheirou muito bem.

Além deste, que sabemos que segues, quais os outros blogues que te puxam pelo benfiquismo mais doentio e apaixonado?


Limitei ao máximo o tempo que dedico à blogosfera benfiquista. Leio este, como já disseste, continuo a seguir o JNF no Eterno Benfica, algo que já fazia muito antes de ter iniciado o meu blog, e vou espreitando o Mão de Vata do Constantino e o 227218 do Diego. Portanto fiquei reduzido a quatro blogs, que nem sequer leio diariamente. Vou passando quando tenho tempo.


Uma das razões pela qual deixaste de escrever prendeu-se com o ambiente de grande animosidade entre benfiquistas. As pessoas estão a enlouquecer?

As pessoas não estão a enlouquecer. A diversidade de opiniões é bonita, saudável e proporciona o debate. Muitas pessoas a discutirem civilizadamente pontos de vista distintos. Seria um mundo perfeito, não é? Mas depois acontece que não temos todos o mesmo QI (cá está outra vez a bonita diversidade). E eu prefiro discutir apenas com pessoas que aparentam ter valores próximos do meu. Depois há a questão da boçalidade gratuita... Eu percebo que sendo o tema "futebol" a coisa descambe um bocadinho mas daí a, por exemplo, estar-se a falar de um possível reforço para o Benfica e alguém vir dizer algo como "esse gajo já jogou no FCP, quero é que ele morra" ou "quem sugere ex-jogadores do FCP não é benfiquista a sério" é ultrapassar em larga escala os limites do razoável. Uma coisa é a troca de frases mais ácidas com alguma ironia, que até dá uma certa pica, outra é a estupidificação total da discussão, e para isso não tenho pachorra. E não fui eu quem, de uma assentada, foi buscar o Zahovic, o Drulovic e o João Manuel Pinto, ok?

Regressando à loucura de que falas, reafirmo que as pessoas não estão a enlouquecer. Simplesmente há loucos. Eles existem, eles andam por aí. E também os há nos blogs, como é evidente. A internet tem isso de bom e de mau, é de livre acesso a todos (embora em sítios como Pyongyang este conceito se esbata um pouquinho, claro). E depois há as pessoas perigosas, perigosíssimas, arrisco, de quem deveremos ter muito medo. Espiões internacionais que têm contactos por todo o mundo e que, após meticulosas investigações, descobrem que há bloggers benfiquistas (só os que não apoiam Vieira, atenção) a fazer amor uns com os outros em lagares de azeite meio perdidos na região abrantina. É que quem descobre uma coisa destas é bem capaz de também descobrir que houve uma pessoa que aqui há uns anos estava numa bush walk no Parque Nacional Flinders Chase, na ilha Kangaroo, de repente teve vontade de fazer xixi, aproximou-se de uma árvore e enquanto descansadamente vertia águas caiu-lhe um coala no pénis. Um infortúnio horrível. Paria piorar a situação, enquanto a pessoa tentava desesperadamente libertar o seu falo do pacato animal, surgiu um guarda do parque. Seguiu-se uma viagem de jipe, felizmente já sem o coala no pénis, até ao edifício da administração, onde de nada valeram as tentativas de justificar o bizarro acidente. Havia ali bestialismo, afirmaram horrorizadas as autoridades australianas. E a pessoa a tentar explicar que quando o guarda a viu estava com o pénis erecto apenas e só porque padecia de priapismo; e que os movimentos rítmicos de anca que o guarda também presenciou tinham sido com o inocente intuito de melhor tentar desencaixar o bichinho. Enfim, apesar de o processo ainda decorrer na justiça australiana, é assunto que deveria permanecer enterrado. Mas não, estes sagazes espiões blogosféricos dedicam-se de corpo e alma a desvendar as intimidades das pessoas e os seus segredos mais negros, sejam eles sobre lagares de azeite ou sobre coalas que caem das árvores. E depois, obviamente, surgem as vis calúnias como “aquele nojento rebola nu em azeite com outros homens” (quando se sabe que não rebola, apenas faz amor e é só com outro homem) ou “aquele tarado foi às nalgas a uma avestruz” (quando na verdade foi a um coala, o que é completamente diferente). É triste… E com tanto talento na área da investigação, será que não conseguem encontrar a ficha de sócio do presidente Vieira?


Há uma canção de uma das claques do Benfica que diz "até morrer, até morrer". O Benfica acaba em nós quando somos ossos?


É evidente que não. Todos os benfiquistas que, desde 1904, têm deixado o mundo dos vivos, reúnem-se semanalmente para ver os jogos e discutir o clube. Penso que isto é um facto que não admite discussão. Quanto à parte física e química dos nossos corpos, é dever de cada benfiquista continuar a espalhar o benfiquismo mesmo depois de morto. Quando chegar a minha altura, cumprirei o meu papel e passarei o meu benfiquismo para todos os minúsculos vermes que me comerem. E, só depois, estarei em condições de me juntar a Cosme Damião e outras ilustres personagens para ver jogos do Benfica por essa eternidade fora.


Concordas com um departamento do 4º anel, um local de nostalgia e memória, que recorrentemente lembrasse e festejasse os nossos mortos?

Julgo que cada um de nós já tem em si esse departamento do 4º anel. As homenagens públicas são importantes mas o fundamental é que cada benfiquista guarde e relembre dentro de si próprio as figuras do Benfica que já não estão entre nós. Posto isto, eu preferia que, ao invés desse que referes, fosse criado um departamento cujo objectivo seria cuidar dos que ainda estão vivos. Uma espécie de Casa do Artista, mas neste caso para velhas glórias, ex-funcionários, antigos dirigentes ou pessoas que se tivessem distinguido no Benfica de uma forma especial. Um local que acarinhasse toda esta gente que não tivesse possibilidades económicas para ter um final de vida digno, ou que simplesmente estivesse a viver em completa solidão. Até poderia funcionar dentro do Centro de Estágios, de forma a permitir aos miúdos das camadas jovens beberem um pouco da Mística dos mais velhos. Com todo o respeito pelas pessoas do Haiti, da Madeira ou tantas outras que a Fundação Benfica já ajudou, eu penso que esta deveria olhar mais pelas gentes do clube que lhe dá o nome. É que, por exemplo, para mim foi muito triste ter visto uma reportagem sobre o final de vida do grande José Torres. Não só pela doença, mas principalmente pelo esquecimento a que foi sujeito por parte do clube. Mas enfim, isto será apenas mais uma das minhas várias utopias em relação ao Benfica.


Fala de algumas.

A principal é uma ideia que deixei no meu blog, que passaria por desenvolver uma forma de levar à Luz adeptos de todo o país que nunca tivessem lá ido por motivos económicos. Penso que seria bonito. Seria uma tarefa hercúlea e morosa, mas se há instituição capaz de algo assim, essa instituição chama-se Sport Lisboa e Benfica. De resto são ideias mais banais, que eu compreendo o porquê de serem utópicas, como por exemplo ter plantéis nas várias modalidades com um mínimo de 80% de portugueses ou ter jogos de futebol às 15 ou 16 horas. Enfim, este género de coisas em que quase toda a gente pensa. Mas repito que compreendo o porquê de ser complicado pôr em prática. Não gosto mas compreendo.


Qual é a avaliação que fazes aos actuais dirigentes e, especificamente, a Vieira, que já leva 10 anos de liderança no Benfica?

Esse tema está sobejamente batido e rebatido, portanto permite-me uma abordagem diferente... Em 1346 os exércitos inglês e francês defrontaram-se em Crécy, numa das mais importantes e decisivas batalhas da Guerra dos Cem Anos. A dada altura, o Rei inglês, Eduardo III, que observava a contenda de um ponto mais elevado, recebe um mensageiro do seu filho mais velho a pedir que mandasse algumas tropas de reserva para reforçar a sua posição. O Rei olha lá para baixo e decide que o filho tem capacidade e homens suficientes para repelir os franceses. Foi aí que surgiu a famosa frase "Let the boy win his spurs". No Benfica já passaram dez anos e o "boy" ainda não ganhou as "spurs", mas há gente que continua muito esperançada que isso aconteça. "Só mais uma batalha, ele agora consegue". Felizmente que aqui não morre ninguém.
Gostava ainda de partilhar um pormenor delicioso, e dizer que isto é verídico: estou com o portátil em cima da mesa da sala e, quando assim é, tenho por hábito apanhar uma revista do cesto e colocá-la por baixo do rato para não riscar a madeira. A revista em que peguei, aleatoriamente, atenção, é a Mística nº1 de Dezembro de 2007. Na capa aparece Luís Filipe Vieira com a frase "Não vamos ficar por aqui". Hoje sabemos que falava do passivo.


É a verdadeira religião. Soube-se que Rangel irá a votos. É um nome que agrada ou o voto em branco, com estes dois candidatos, está assegurado?

Em primeiro lugar, é importante realçar o facto de existir uma alternativa ao actual poder. É saudável e pode originar um debate interessante. Mas isso só por si é insuficiente. Terá que se ouvir o que Rangel tem para dizer aos benfiquistas, quais as suas ideias-base e quem escolheu para o seu núcleo duro. E depois decidir a quem entregar os destinos do Benfica.


Se Vieira vencer, qual o Benfica que teremos daqui a 4 anos?


Pegando em tudo o que vi até hoje, penso que teremos mais um título de campeão (na melhor das hipóteses), mais três taças da Liga (vamos deixar uma para o amigo Salvador para não parecer mal ganhar tantas), mais quatro presenças não oficiais na final do Jamor (o Jesus na bancada no meio de adeptos do FCP), mais quatro entradas na fase de grupos da Champions, mais indivíduos adeptos de outros clubes nos diversos departamentos, mais 76 contratações, mais 71 empréstimos, mais Pedro Guerra na BTV (sim, é possível), mais jogos na SportTv, mais apoios a indivíduos ligados ao FCP que se candidatem a cargos importantes na estrutura do futebol português e mais, muito mais passivo. O futuro aguarda-nos de braços bem abertos e sorri-nos lá de longe. Ah, e mais likes na página oficial do Benfica no Facebook.


As críticas que fazes são duríssimas. Não há pelo menos um reconhecimento por termos sido os Campeões Nacionais da Internet, na época passada?

Essa pergunta remete-me directamente para a última Gala do Benfica, mais especificamente para o galardão "Projecto do Ano". Os candidatos eram: "Novo Site", "Um milhão de adeptos no Facebook" e "Benfica Youth Cup". Olhando para estas três hipóteses e enquadrando-as na genética do Benfica, a "Benfica Youth Cup" salta imediatamente à vista, já que é um projecto que traz a Portugal alguns dos melhores clubes do mundo na área da formação (Real, Barcelona ou Ajax, por exemplo) e possibilita assim aos nossos pequenitos atletas jogarem contra grandes equipas, trocarem experiências com crianças de outros países e, quiçá, até fazerem alguns amigos. É um projecto não só futebolístico mas também, e principalmente, social. Sabes quem ganhou este galardão, não sabes? Pois... A mudança de mentalidades por parte da larga maioria dos adeptos é bem visível.


Quando o "Céu Encarnado" tinha vida, publicaste uma entrevista (link) que fizeste a um “indivíduo do departamento financeiro”, na qual exploravas a paixão que um homem dos números tem pelo clube. Há muita gente com igual "paixão" no Benfica actual?

Antes de mais deixa-me já deixar bem claro que foi uma entrevista completamente fictícia, para não haver confusões. Na altura julguei que não haveria a mínima necessidade de o dizer, mas a julgar por alguns comentários houve malta que pensou que era a sério, o que não deixa de ser deveras preocupante. Quanto à “paixão” existente nos corredores da SAD, posso apenas especular porque não me movimento nesses meandros. Preocupa-me que o nosso CFO seja assumidamente sportinguista e que tenha dito (há uma entrevista, aqui não é ficção) que não ligava muito a futebol. Então o core business da Benfica SAD é o futebol (como eles próprios admitem) e o homem encarregue das nossas finanças não liga muito? Se calhar o CFO da Delta também não liga muito a café, e percebe mesmo é de anchovas em conserva… E nomes como Paulo Gonçalves ou João (ou Juan, não sei como é que ele prefere) Gabriel, por exemplo. Eu perceberia muito facilmente a sua presença dentro do clube se eles fossem competentíssimos nas suas funções. Mas acontece que a comunicação do Benfica é desastrosa. Por exemplo, em cada dez comunicados lá saem um ou dois excelentes. Outro exemplo, a página oficial do Benfica no Facebook agora goza com os adversários; assim de repente lembro-me da piadola fácil sobre cábulas, antes de jogarmos contra a Académica, e a piadola ofensiva sobre o kilt escocês ser pouco másculo, antes de jogarmos contra o Celtic. Isto são piadas para serem feitas por adeptos em blogs, em mails, na rua, onde quer que seja, mas nunca por uma fonte oficial do Benfica. Haja algum decoro, por favor! Mas isto é a Venezuela (ou Portugal, não sei como é que o João, ou Juan, prefere)? E que dizer de Paulo Gonçalves… Quantos processos importantes ganhámos até hoje? Quantos? Isso, sem medo, a resposta é zero. Zerinho. Este senhor provavelmente perderia um caso em que tivesse que representar uma velhinha que tinha sido atropelada na passadeira por um gajo sem carta e com 1,5 de álcool no sangue. “A senhora desculpe-me, mas a defesa tinha argumentos muito fortes. Não sei bem quais, mas tinha”. Finalizo com Jorge Gomes, ex-lacaio de Pinto da Costa, que esteve dez anos ao serviço do FCP e é intérprete da frase “a minha religião chama-se Futebol Clube do Porto”. O que dizer sobre isto? Há alguma teoria mirabolante que defenda o facto de esta criatura trabalhar para o Benfica? Umas zangas com Reinaldo, por ventura? Inveja de Antero, talvez? Ou foi só uma francesinha que lhe caiu mal, e o fez passar a odiar tudo o que esteja relacionado com a cidade do Porto e mudar a sua agulha religiosa na direcção do Benfica? Se o homenzinho tivesse um cargo pouco importante, sei lá, por exemplo, lamber as solas dos sapatos de todos os adeptos que se deslocassem ao estádio, eu ainda deixava passar. Mas o homenzinho trabalha no departamento de prospecção, caramba… E depois vemos os Álvaros Pereiras, os Falcões, os James e outros deste calibre aterrarem no Sá Carneiro quando eram esperados na Portela. “Ah, correu mal outra vez, olha que raio! Mas como é que eles sabem sempre, pá?”, pergunta-se nos corredores da Luz. “Isto deve ser algum bufo”, alerta Jorge Gomes. “Sim, é isso, há um bufo no Benfica. Temos que o apanhar!” E então convoca-se uma reunião com altos responsáveis das mais diversas áreas do clube. “Estão cá todos? Muito bem, quem é que aqui não é do Benfica?” Hmm… Pois.
O que faz toda esta gente no Benfica? É um caso de “Let the boy win his spurs” revisitado? Até quando? Qual é o limite de, e vou usar linguagem técnica, “fazer merda da grossa” que é tolerado a funcionários do Benfica? É +∞? É que se é para ter incompetentes, ao menos que sejam incompetentes benfiquistas. O meu grau de exigência baixou de tal forma que já nem peço competência, repara. Só benfiquismo.


Se tivesses a oportunidade de trabalhar no Benfica - com a pequena ressalva de teres de mudar de opinião em relação a alguns assuntos mais difíceis (lembro-me, por acaso, dos direitos televisivos) -, fá-lo-ias?

Felizmente não tenho problemas financeiros, portanto não equaciono qualquer hipótese de trabalho no Benfica ou para o Benfica enquanto estas pessoas por lá se mantiverem. No entanto, compreendo que quem tenha dificuldades económicas por vezes se veja obrigado a dobrar a espinha para ter comida na mesa ou, noutro patamar, para continuar a comer em bons restaurantes. Nunca estive numa situação dessas, portanto não sei como reagiria. O restaurante ou a espinha, eis a questão. Digno de Hamlet… Há quem prefira a espinha. E há quem prefira o bom restaurante. Restaurante esse onde se podem deliciar com belo peixe sem espinha. E assim até fica tudo em família. Uma linda família de invertebrados, que outrora já foram vertebrados. Uns sentados à mesa, por opção, e outros no prato, coitados, à força.


Deixemo-nos de fialhadas. Independentemente de quem ganhar as eleições, o nosso lugar continuará a ser no Manelito e no estádio?


Não cultivo muito esse fenómeno do Manelito. Tal como tu, gosto de ir para a Luz bastante mais cedo do que a hora do jogo, mas prefiro estar mais perto do estádio (no Manelito só vejo um bocadinho, e muito de esguelha, porque está tapado pelas rulotes do outro lado da estrada). E também não gosto de estar ali parado horas a fio, porque isso deixa-me ainda mais ansioso. Gosto de ir circulando. Ir à sala de convívio dos sócios na cervejaria por cima da Adidas, passar pela estátua do Eusébio, espreitar as pedras da Praça dos Heróis, ver se há miúdos a treinar nos campos, as pessoas para trás e para a frente. E sim, independentemente dos anos que passem e de quem sejam as pessoas, desde presidente, directores, treinador ou jogadores, vamos continuar a poder dizer "ontem vi-te no Estádio da Luz".

7 comentários:

B Cool disse...

Enorme entrevista e enorme perda para a blogosfera benfiquista, mas compreendo os motivos. é verdade, ficou a metade do texto por apresentar no fim para mim inesperado, mas como acompanhava há pouco tempo, admito que outros já esperassem

Viriato de Viseu disse...

Boa entrevista.
O ETER devia continuar a escrever.
Uma caneta deste calibre, é uma pena estar parada.

Fake Blood disse...

Deixem o Éter postar....

Fehér 29 disse...

Ponto prévio: foi no céu encarnado que eu fiz o meu primeiro comentário na blogosfera. A minha primeira vez ...

JNF disse...

"À Éter". Entra de carrinho como o Katsouranis, passes de magia como Aimar, finaliza como Cardozo e ainda dá umas peitadas à Luisão.

Fehér 29 disse...

Oh ricardo, para que serviu aquele post sobre a nossa naturalidade? Tinha um objectivo ?

Constantino disse...

Como se diz nos Algarves "áh bél' mosse"... Por acaso tive o triste azar (possivelmente a palavra correcta é incompetência) de ter descoberto o Céu Encarnado um pouco tarde. Comecei a ler aquilo e tau... acabou-se. Entretanto já fui 4 vezes ao site dos corruptos tentar fazer a minha magia mas aquilo continua online (e aqui fica uma ideia janota para um hacker com pouco que fazer ao fim de semana).

Abraço