sábado, 3 de agosto de 2013

João Vieira Pinto, o Deus-menino de Ouro

Foi desta forma




que João Vieira Pinto marcou o golo mais fabuloso alguma vez defendido por um guarda-redes. Daqueles momentos em que a História, em vez de continuar em frente, decidiu parar num tasco e embezanar-se a torto e a direito, mudando o destino de uma bola que, desde o princípio, estava prometida às redes da baliza do topo Sul do Estádio da Luz. Aliás, curiosa a circunstância de ter sido no velho templo que o destino de João Vieira Pinto não ficou indelevelmente marcado a um golo extraordinário - aquele Benfica de 97, aquele Estádio do Benfica de 97, aquela escumalha do Benfica de 97 não mereciam tão grandioso génio e o golo afinal deu em canto.

Custa-me sempre falar em João Vieira Pinto, herói e mártir nas mãos dos benfiquistas mais desavisados. Do menino de ouro a um renegado, assobiado no Estádio, foi um trajecto de vergonha mesclado com a confusão que deriva da escassez de neurónios na parte superior do cérebro. 

Alguém poderá dizer, em consciência, que João Pinto foi algum dia um traidor? Para uns, sim, demasiadamente ocupados a limpar os esgotos de onde lhes sobressaem as ideias, pouco dados à ternura das emoções e à simplicidade da contemplação do que é belo.  

João Vieira Pinto foi um génio, um tornado que passou pelo futebol português e deixou cicatrizes e tatuagens profundas nos que o viram jogar: uns, despeitados, choram dores de feridas imaginárias; outros, agradecidos, olham os braços e vêem tatuados os momentos eternos em que o pequeno João deliciou as plateias com o seu talento instintivo. 

Às vezes parecia que não via mais nada senão bola, baliza e golo. Mas era mentira. No último momento, soltava a redonda em frente a um colega e ele só tinha de empurrar para a baliza vazia; no último passe, centrava milimetricamente para as cabeçadas certeiras de avançados que, fossem bons ou maus, sentiam a vergonha de falharem golos tão fáceis. Às vezes, fintava de primeira, em recepção, e rematava forte para um dos cantos da baliza; outras, aparecia em peixinho a 20 centímetros do chão, rodava, torneava o pescoço e o pequeno corpo de mira microscópica, enquanto a bola, fiel, ia devagar aninhar-se nas redes laterais da baliza, junto ao poste mais distante. 

No espaço, sempre no espaço, João jogava nos anos 90 como muitos treinadores ainda hoje pedem aos seus atletas que o façam: entre-linhas, no espaço, sempre no espaço, em diagonais, naquele lugar da relva onde ninguém imagina que a bola vai ter. Mais pequeno, mais fraco, menos intenso, João dilacerava defesas de postes de electricidade e bisontes altivos com a beleza das coisas simples: um toque, uma desmarcação, golo. 

Se Guardiola. enquanto treinador do Barcelona, tivesse entrado numa máquina do tempo e fosse hoje ao campo de treinos do Boavista ver jogar um João Vieira Pinto de 16 anos, ter-lhe-ia acenado com um contrato ultra-milionário e a promessa de vir a fazer história na melhor equipa do mundo. E estaria correcto, Guardiola. João Vieira Pinto foi aquele que nasceu antes do tempo de poder vir a ser, na melhor equipa do planeta, o melhor jogador da Via Láctea. Por anacronismo, mas também porque, no seu tempo, João Vieira Pinto teve medos, medos lusitanos, medos dos que preferem o conforto da cama, comida e roupa lavada à aventura da diáspora por terras desconhecidas. 

Uns dirão que, ainda assim, foi suficiente; outros que podia ter chegado mais longe, ao lugar dos deuses. Para mim, que o amo, só tenho pena de o ter visto desperdiçar talento num Benfica moribundo e decrépito e num Sporting que, sendo razoável na altura, nunca foi clube suficiente para tanta grandiosidade. 

João Vieira Pinto merecia mais, merecia os grandes clubes e as grandes equipas. Teve-os unicamente nos primeiros anos de águia ao peito mas depois a águia morreu e com ela a oportunidade do menino de ouro se imortalizar em coisa etérea e mirífica. 

Ficam, no entanto, os lugares que a História, mesmo bezana, não conseguiu apagar. Aqueles instantes em que, provavelmente imaginando a futura traição do destino, João decidiu levar com ele e dar aos outros de forma simples e solidária: momentos de genialidade pura. Como aquele, numa tarde/noite em Alvalade, em que, apoiado por grandes jogadores, destroçou completamente a melhor equipa do Sporting desde os 5 violinos. Marcou três, deu dois, podia ter marcado mais, deu outros a marcar, mas o que sobressaiu nesse glorioso dia foi a voz de um menino franzino gritando aos céus a entrada no panteão dos imortais:




Por mim, aceito o pedido. Por mim, és Deus, João.





7 comentários:

Anónimo disse...

És um maroto Ricardo!!! Fiquei com a lagrima no olho! Aqueles que escrevem tão mal de ti, que pensem que alguém que supostamente que quer tão mal ao Benfica, escreve destas coisas que só um "puro" poderá escrever,alguém que ama o nosso querido clube tão intensamente. Aí está a razão de tamanho desprezo por quem o está a tratar tão mal! Estão a matar o Benfica Ricardo, aos poucos estão a mata-lo, já não há idolos como o menino de ouro!

V. disse...

jvp ou aimar?

Anónimo disse...

Bolas, estou de acordo contigo. Totalmente de acordo contigo. O melhor jogador que vi jogar, o resto é conversa e que me desculpem o Rui, o Vítor, o Michel, o Óscar.

Grande post, Ricardo.

Abraço
Pedro B.

Águia Preocupada disse...

Bolas Ricardo! Isto não se faz! Recordar o nosso menino de oiro, aperta o coração e provoca uma nostalgia e uma tristeza indizíveis!
Ele deu-nos magia e arte como poucos, talvez só Chalana se equipare. Mas recordar os seus feitos, mais evidencia a mediocridade do Benfica de hoje, que ainda que com melhores planteis nunca conseguirá envolver-nos na Mística e no sentimento desse tempo!
Há 4 ou 5 anos, por iniciativa de um benfiquista e sócio de Gaia, três ou quatro benfiquistas, incluindo eu, intentámos uma homenagem ao João Pinto. Inquirido sobre o assunto, aceitou. Porque não queriamos fazer algo sem a aprovação da direcção, enviei um e.mail a Rui Cunha sobre o assunto ainda que já tivesse sido contactado verbalmente por um do grupo organizador.
Rui Cunha respondeu-me que sim, mas, e tal, que me contactaria... Passado algum tempo e sem notícias, voltei a contactá-lo... Até hoje! Vieira já foi reeleito por duas vezes e a festa de homenagem ao João Pinto ficou em águas de bacalhau!!!
A ingratidão é um sentimento que não condiz com os pergaminhos do clube!

Anónimo disse...

o markovic e o novo JVP.

Anónimo disse...

mais uma taça para o Museu Cosme Domelão

Conde de Vimioso disse...


Claro que concordo com todos os elogios ao JVP ((fui eu que o comecei a tratar assim dizendo-lhe que se gastava muita saliva a pronunciar o nome todo)) e at+e vou mais longe.

Tivesse JVP a base estrutural e o profissionalismo de Rui Costa ou Figo e teria sido de longe o melhor da Geração Dourada, mas, nem os génios são perfeitos.

Depois JVP fez parte de uma grande equipa que que Damásio, Abilio Rodrigues e Gaspar Ramos deixaram que o ""se você quiser"" destruiu a a que se juntou uma gestão ruinoso que essa sim deixou o Clube quase falido.

Conheci bem O JVP e os meandros do Benfica bem por dentro e não me querendo alongar muito direi que o declinio de JVP tem muito do endeusamento usado por Damásio para ir cativando as graça dos Benfiquistas. JVP serviu para e como disse tinha a sua estrutura não comportava essa responsabilidade.

Depois muitos esquecem que JVP começou a alto nível com 16 anos enquanto os do seu tempo só começaram a sobressair aos 20 e logicamente o seu desgaste teria de aparecer mais cedo.

Houve outras coisas que nunca revelarei publicamente que forçaram a sua saída que penso ter sido boa para o Clube e para ele.

O JVP, jogador, tinha condições para no seu auge ter sido Bola de Ouro.

Os 3-6 ali para os lados da churrasqueira ((que grande churrasco nesse dia)) e Lverkussen sãos hinos que devem ser vistos e ouvidos eternamente.

Força JVP e não te deixes enrolar...