quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O meu Campeão

O amor que os dois temos pelo Benfica nunca teve tempo, espaço ou forma. São milhares de veias entregues ao mesmo labor de instinto, transportando por dentro do corpo um sentimento que se não vê porque não tem precisão de ser visto. Acontece assim, sem explicação. Venham teóricos demonstrar, por a mais B de Benfica, que um clubismo nasce de experiências e alucinações, de cores vistas em infância ou de cheiros e sons e abraços de golo, que ainda assim pecam por defeito. Ser do Benfica é, acima de tudo, uma grande alegria e um imenso orgulho. Não é necessário mais do que saber isso: orgulho e alegria. 

Raramente discordei do meu Pai sobre os assuntos do Benfica. Estávamos de tal forma sintonizados que acontecia não termos de falar para dizermos tudo um ao outro. Vivemos juntos as maiores loucuras de felicidade; sofremos juntos as maiores loucuras de depressão. Em todas elas, abraçámo-nos. Um golo marcado ou um golo sofrido - o mesmo abraço. Um lance falhado à boca da baliza ou um remate impossível caído nas redes adversárias - o mesmo abraço. Vimos Presidentes decentes, vimos Presidentes indecentes - o mesmo abraço. Tivemos esperança em treinadores, não tivemos confiança em treinadores - o mesmo abraço. Chorámos de tanto rir, rimos de tanto chorar - o mesmo abraço. Era um abraço do Benfica, aquele abraço de nos agarrarmos um ao outro e ali estarem todos os jogadores, os Presidentes, os treinadores de mais de 100 anos de História, todos condensados em quatro braços que se encontravam e se uniam sem tempo nem espaço nem forma. Depois soltávamo-nos um do outro e, antes de olharmos a existência, olhávamo-nos um ao outro e havia Benfica ali. Havia sempre Benfica ali. Com choro e riso, mãos na cara um do outro, vitórias e derrotas ali vividas e sofridas e sentidas. Orgulho e alegria.

O meu Pai passou a época 2009/2010 entre a cama de casa e as várias camas dos vários Hospitais em que dormiu sob tectos de betão, olhando janelas com estrelas ao fundo. Em todas, foi acompanhado por mim, pela cadela Joplin, por livros e pelo Benfica. Acontecia estarmos todos juntos e era uma lição de benfiquismo e de tudo o resto que pode e não pode acabar em ismo que me fascinava a forma como ele olhava a vida e a morte tão serenamente, como se morrer ou poder morrer ou estar quase a morrer fosse só um deslizar de um lado para o outro, sem exaltações nem histerismos, uma mão que passa com ternura pelos cabelos. 

Ria-se muito, o meu Pai, nas várias camas de onde já não podia sair por dor e medo. O último livro que leu foi o «Tubarão 2000», do enorme e genial benfiquista António Victorino d´Almeida. Lembrava-se de passagens, lia-mas, mostrava-me excertos e depois ria-se extraordinariamente, como se calasse o medo com o som do riso. Não era, no entanto, por medo que ele alarvemente ria. Era por prazer. Um prazer impossível de sentir sem sentir o medo e o prazer de querer ter prazer e medo com impossíveis. O meu Pai tinha impossíveis, mas atirava-os para dentro de uma gaveta e sugava todos os medos, impossíveis e prazeres ao mesmo tempo. Sem tempo. Sem medo. Com prazeres. Com prazer.

A época 2009/2010 estava a correr bem. Entrava no elevador que ia dar ao corredor que ia dar a enfermeiras que iam dar ao quarto do meu Pai sempre com o «A BOLA» nas mãos e todas as histórias que tinha a contar de mais um jogo fabuloso e uma goleada e o regresso do Benfica. Tudo isto eu metia naquela cama e dentro dos pratos com comida vegetal, atirava Benfica para as gotas de soro, enchia de Benfica os comprimidos. O meu Pai levava com Benfica nas veias (como se fosse preciso) e depois pelo nariz e nas feridas. Sarava-o com Benfica e ele sorria-me, com um sorriso que só quem olha um homem com os seus impossíveis pode compreender. Para quê levar-lhe Benfica, se todo ele era e sempre foi total e incondicionalmente Benfica? 

Chorámos juntos. Chorámos muito juntos. Rimos juntos, rimos tudo juntos. Em Abril decidiu que estava na altura de ir beber copos com o Águas, com o Cosme e com o Feher para o Quarto Anel. Já sabia que íamos ser campeões. 


14 comentários:

Ulrich Haberland disse...

Grande abraço Ricardo e obrigada pela partilha.

Não partilhei com o meu Pai o Benfica, ele era Sportinguista... Mas partilhámos futebol e a mesma forma de ver o jogo, a mesma noção de desportivismo, de honra, de fair-play, de beleza do jogo. Também tenho muitas saudades dele.

Anónimo disse...

Ricardo,

Não é do Benfica que se trata, escrevo porquê?

Sei lá foda-se!

Enfim, perder um Pai é FODIDO, é perder quase tudo, é perder a alma...

Escreves estupidamente bem, tenta compilar tudo o que de bom tens escrito neste blog, e porque não editares O Diário de um Benfiquista.

Obrigado por partilhares a Primavera de 2010 do teu descontamento.

Um grabde abraço

rsa disse...

Lindo, foi por texto destes que me tornei seguidor deste blog.

Anónimo disse...

Muito bom!
Com lágrimas nos olhos.....

Ricardo

Águia Preocupada disse...

Obrigado Ricardo por este poema de amor e benfiquismo!
Meu pai era sportinguista, dizia ele! Penso que pouco sportinguista, pelas reacções quando viamos juntos um jogo do Benfica na televisão em que reagia como um verdadeiro benfiquista!
Prometi-lhe levá-lo à inauguração da Nova Catedral! Andava radiante, entusiamado e não via chegar o dia 25 de Outubro de 2003! Infelizmente, numa noite triste de Setembro - um mês antes da inauguração - também um anjo o requisitou, negando-lhe o prazer que a imaginação já lhe estimulava!
Foi uma inauguração que me marcou e não deixou de provocar em mim uma grande nostalgia e saudade!

Anónimo disse...

Um abraço... Sei bem o que tudo isso é.

Enorme "poema" de saudade.

A morte de alguem querido, de um pai, será sempre um assassinato, arrancam-nos uma parte da alma, que não volta, mas, que paira sempre em torno de nós.

Viva o benfica

Gonçalo

Berrante De Encarnado disse...

Mais de trinta segundos de arrepios após ler a última frase, foi o que me fizeste.

Que bonito. E como eu amo o meu Pai...

Cumprimentos

Conde de Vimioso disse...

Acabava de se acender em mim a Luz do Benfiquismo e morreu O MEU possivelmente sem nunca ter gouvido falar no Benfica.

A mim ninguém me levou pela mão foi o Benfica que veio ter comigo em tenta idade.

Mas há semelhanças Ricardo pois também eu e o meu filho partilhamos os mesmos sentimentos, também, sempre só os dois, vemos todos os jogos, oficiais ou particulares e também no fim selamos os sentimentos não com um abraço mas com uma mãozada ao alto.

A morte do meu pai foi a maior marretada que levei na vida porque nunca me conformei porque fiquei sem um dos meus idolos ou mais que idolo.

O outro que tenho foi crucifixado há muitos anos anos mas desse procurei e procuro seguir a coragem, a humildade com os fracos e o afrontamento aos fariseus deste tempo.

Há tempos em conversa dizia ao meu filho que era melhor do que eu e ele respondeu-me:

Há muitas coisas em que gostava de ser como tu.

Era linda essa relação com o teu "velhote" e eu espero que minha, com o meu herdeiro, seja sempre assim.

Pires disse...

Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.

saudações.

BENFICA SEMPRE disse...

Felizmente, tenho o meu Pai vivo e com saúde, apesar de ter quase 70 anos!!! Ele não é do Benfica... aliás, detesta o Benfica! Mas sabe da minha eterna paixão por este Clube, e sabe o quanto sofro e é importante é para mim, no meu dia-a-dia!
Vivemos longe um do outro, mas também sinto a falta das discussões acesas, das suas críticas aos momentos menos bons que por vezes acontecem ao Benfica! Mesmo assim...
Ricardo, não o conheço pessoalmente, mas gosto imenso de ler os seus posts... este foi um dos melhores que li até hoje!
Um grande abraço Benfiquista!!!

rogerAjacto disse...

Belíssimo.

Coluna dÁguias Gloriosas disse...

que post maravilhoso de benfiquismo, 1 abr

JR disse...

Leio casualmente o blog, mas este post apanhou-me desprevenido... estava a estudar em Lisboa nessa época e o meu pai veio viver comigo para ser tratado a um cancro da próstata. O Benfica e essa época memorável acompanharam-nos durante todo esse período muito duro e deram-nos alegrias que nos ajudaram a continuar em frente... finalmente num belo dia lá realizámos o sonho e fomos ao estádio ver um jogo, coisa que nunca tínhamos feito. Tivemos azar, o Benfica jogou mal e assistimos à unica derrota em competições nacionais da época, contra o Guimarães. Mas nesse dia estávamos muito felizes. Muito obrigado pelo texto, que me emocionou. Um abraço. João Rodrigues (Açores)

Anónimo disse...


Ricardo, muitas vezes não estou de acordo consigo! Outras estou, não concordando com o estilo! Enfim, é a vida, não podemos pensar todos da mesma maneira!
Este post tocou-me particularmente! Foi o meu Pai que me fez benfiquista! Foi com ele, ainda pequenino, que ouvia o relato do 5-1 do Benfica ao Feyenoord, foi com ele e com os meus irmãos que partilhavamos "A Bola" três vezes por semana, ansiando por me calhar a parte do Benfica primeiro! Fui um priviligeado, tive um pai fantástico ... e grande Benfiquista!
Em vesperas de partida para o quarto anel, no hospital, tolhido de dores, sem forças para andar, pediu-me para lhe levar o rádio para ouvir os relatos do glorioso. Começava a época de 2010/2011! Não sei se se recorda desse princípio de época. Na quarta jornada, os árbitros, o Jesus e o Roberto já tinham terminado a nossa época. Quando lhe perguntava se tinha dores respondia-me que tinha, mas que as suportava. O que não suportava era o Benfica não ganhar! Partiu a 3 de Setembro desse ano!Todos os dias as saudades aumentam!
Abraço
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