terça-feira, 8 de maio de 2012

Falta ternura ao Benfica

Há uma subida íngreme no Rio de Janeiro que, bem observada, revela pedaços de gente. À direita a Cidade de Deus, povoada de povos e místicos acontecimentos vividos ou na carne ou em frente à televisão - a burguesia adora os pobrezinhos e as suas maleitas.

Subo a estrada em sobressalto, cheio de ternura por uma cidade que imaginei uma vida inteira e ao mesmo tempo medo, pela vida toda em que nos ensinaram o medo e o desespero. Não há nada na estrada que seja diferente dos caminhos que vivi no meu país anos a fio. Talvez a vista, talvez: na forma de pinheiros entre a Concavada e o Rossio ao Sul do Tejo há uma lua e um mar ao fundo e luzes e o Redentor. Mas tirando isso juro que é igual: é uma estrada com linhas e uma noite igual às outras.

Quem me leva vive aqui há muito tempo, embora traga consigo o sotaque do Nordeste: envolve as letras na língua e enrola-as num adocicado febril, entre o samba e o Vinicius. Faz de guia turístico: "ali é a Cidade de Deus" e aquilo tudo, numa pedra de novidade, me cria coragem. "Pára aqui!", vamos entrar.

A Cidade de Deus é, como dizer?, um labirinto de emoções, tanques antigos de roupa por lavar, cuecas ao sol adormecido, olhos dentro de janelas, caminhos de terra e cimento, nuvens, crianças, bolas de futebol, latas vazias de comida que já acomodou estômagos, sons de novelas ao fundo, vozes, alguém que corta chouriças entre escadas. Nada disto é diferente de outras viagens, não fosse abrir os olhos para o resto: um mar que não acaba, ilhas, areias, direcções para o mundo, barcaças estranhas sob a frieza de uma lua que teima em desabar sobre a água. Passeamo-nos pela Cidade de Deus e torna-se impossível não imaginar os tiros e as agressões naturais que ensombram a favela. No entanto, agora tudo em paz, um misto de gente que vive em comunidade, fazem-se trocas comerciais, naifas por pão, beijos por reais, favores por ideias. Alguém me pergunta: "moço, tem droga?" e a vida ali, sem filtros. 

Numa banca, pastelinhos e pães de queijo. Uma camisola do Cruzeiro enfiada entre as garrafas de cachaça e a televisão que atira romances de cordel para o desespero. O dono chegou de Belo Horizonte há demasiados anos e ainda assim sabe quem é o Benfica, o que é o Benfica, o que fez o Benfica. Não há Pelé que esconda o cheiro que este clube levou ao mundo. "Vocês fizeram mal à gente, mas deram-nos o Benfica e a padaria, estamos em paz". E como não adormecer na ternura com isto?

Mais abaixo, escadas e gente deitada abaixo, uma janela com sons de Dorival Caymmi - a Bahia que nunca mais acaba. Uma mulher dança, anca-serpente, pela noite, e nós tão pequenos, agarrados às linhas dos estendais e das gaiolas dos pássaros para não ver o que adormece na encruzilhada: a dor, a saudade, o gesto, a vida. 

Não, não há tiros na Cidade de Deus, nem crianças com armas nem mortes gratuitas. Há pessoas atiradas para um lugar e música. Sempre a música. E um céu estrelado por cima que abre as luzes à cidade quando está feliz. A morte, todas as mortes, são só intervalos que entretêm os reis da existência. O resto é vida, sem mais. Nenhum deus nem padre, nenhuma prece ou absolvição. Um grupo de meninos passa a correr atrás de um papagaio de papel que ficou preso numa varanda de espelhos e betão. Nenhum Deus sabe o que isto é.



10 comentários:

Constantino disse...

É facil entender este texto após 6 dias de Brasil. Tão facil pah (o pah é só para mostrar que ainda sou português). Só para não adiantar muita merda, apenas digo, jurando a pés juntos ser verdade, que ao 2º dia de Brasil me apareceu à frente um nativo com uma camisola do Glorioso vestida. E no mesmo dia um outro nativo, ao saber que eu era português me implorou "pô cara, quando voltá à Portugau, tu manda uma camisa do Benfica prá eu?"... quase lhe dei a que trouxe comigo... repito, quase!!

Abraço

moleculasdeamor disse...

Quando olharmos o coração... do nosso Benfica... e o amarmos incondicionalmente apaixonadamente... nesse dia voltaremos a ser nós próprios até lá deixamos que os salteadores sejam donos e reis de tudo aquilo que já foi nosso por direito...
Quando o amor ao clube e ás vitótias voltar quando a paixão pelo jogo ressurgir então aí, exactamente aí seremos nós!

JC disse...

Um gajo que escreve isto só pode ser boa pessoa.
A mim não me enganas tu, pá.

M. disse...

Ricardo: ainda bem que voltaste - ou nunca partiste. Agora pára de escrever assim que fico me enervas de inveja. Fizeste falta no sábado. Um abraço

luis disse...

@ricardo, dás toques nas palavras que produzem "golos",textos fabulosos,julgo que és o "maradona das letras".
Com ternura referes um factor que divide a Família Benfiquista, a falta de cultura desportiva.
A vida passa, mas o Benfica continuará sempre o Glorioso.Agora nas ultimas 2 décadas por causa do "pão para boca", alimentamos "o sistema" e da-mos "tiros nos pés" na parte desportiva. Vende-se bem a marca Benfica, mas não chega para alimentar a Nossa Imensa Família Benfiquista.
Nessa tua cidade não me consta que o "profissionalismo" seja importante. A musica sim...fez-me lembrar a musica cigana cantada pelos "rapazes sem nome",com o Benfica-contra 8 jogadores ligados a SAd do Benfica( parece que era o União de Leiria)
Letra:

-Onde esta o Vieira ????
-Está no Brasil (por acaso desta vez, o Presidente estava na "Nossa Casa", mas foi só por acaso que não acertaram)

anexo: julgo que o Presidente faz mais quilómetros que o "Plantel" por esse mundo fora, deve ser por causa do "pão para a boca".

Com ternura,... mais de 10 anos nunca o Sport Lisboa e Benfica teve o mesmo "líder", e muitos Presidentes ganharam mais títulos desportivos.

M disse...

bem bonito!

Pedro disse...

Bom dia Ricardo,

É por coisas destas que não podes deixar isto!

Abraço
Pedro

Ulrich Haberland disse...

Voltas-te em forma!

Falta amor do Benfica Corporate ao Sport Lisboa e Benfica.

O Sport Lisboa e Benfica é o parente pobre deste Benfica empresarial moderno (pois tudo lhe deu) e é, agora, por ele olhado com o enfado de quem sabe que tem de aturar esse parente pobre.

O Benfica Corporate, porque não o ama, quer usar o Sport Lisboa e Benfica e não servi-lo.

Mas o Benfica Corporate esquece-se que sem o Sport Lisboa e Benfica e os Benfiquistas que o amam, morre.

O Benfica Corporate esquece ainda que 2º lugares enchem a barriga a adeptos de alguns clubes mas não a dos Benfiquistas.

B Cool disse...

show de bola, cara

Maria Flausina disse...

E assim se derrete o coração de uma Sportinguista. Obrigada.