quinta-feira, 31 de maio de 2012

Quando ser muito melhor do que os outros não chega

Nunca gostei do Michael Johnson. Todos os verões olímpicos e invernos de atletismo, em frente à televisão eu sonhava que o ouro se lhe agarrasse ao pescoço como uma cobra e o matasse ali mesmo, em pista, a dois ou três metros do final. A única coisa boa que reconhecia a Michael Johnson era o de ter um nome híbrido entre dois homens que eu amava: Michael Jordan e Magic Johnson. Às vezes tentava gostar do velocista explorando a minha alma obsessiva e muito compulsiva, dada a joguinhos entre letras, números e distâncias milimétricas na sala. Se era Michael e era Johnson, não podia ser mau de todo.

Um olho fechado, um terço da sala às escuras; fechava o outro, e outro terço da sala às escuras. Depois piscava os dois, alternadamente, e a sala constantemente a abrir-se e a fechar-se, mas no centro, no ângulo que nem um nem outro fechados alcançam, a televisão com o Michael Johnson a correr todo direito, bigode ridículo e ouro, muito ouro, agarrado a um tronco de puma. Não valia a pena: Michael Johnson merecia morrer.




Aquela arrogância da vitória, o homem já tinha dado uma volta a pé com a camisola americana e ainda estavam a chegar gajos à linha final - e falo-vos dos 200 metros, não da maratona. Um vencedor nato, atleta sublime, exemplo mais puro do corpo humano potenciado ao extremo e a minha ingratidão perante aquilo que via, retinha-me nos detalhes, nos acessórios, na pilosidade absurda. Não, Michael Johnson não mereceu o meu desencanto nem a minha raiva. Mas, naquilo que é sobretudo humano, não lhe peço desculpa. Sempre preferi o ar de detective privado cruzado com Adolf Hitler negro do namíbio Frankie Fredericks. 




 

4 comentários:

LDP disse...

Aha..o Frankie Fredericks. Mas também gostava do Linford Christie e a sua especialidade de ficar quase sempre em terceiro.

João disse...

O que não deixa de ser engraçado é que o ENORME MJ23 tinha também pilosidades faciais de gosto bastante discutível xD

João Duarte disse...

Acho q é pq o gajo a correr se parecer com o Forrest Gump q não gostas dele.

Luis Rosario disse...

MJ era o maior.

Um dos poucos que tu podias dizer, em antecipação "Abre os olhos que vais ver história a acontecer".

Estes 19.32 de Atlanta foram extraordinários...