sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Era para a esquerda, Vítor.

O tempo é um líquido que se entranha no corpo e vai pingando para o chão a ritmos diferentes. Brota aos prantos, às vezes, chovendo dos braços; outras, cai devagar, com medo da queda. Não tenho noção se aquele penálti do Paneira ainda está aqui comigo ou se choveu há muitos anos. Sei que me molha, aos jorros, de tempos a tempos. E então eu sorvo dos poros aquela memória ou agacho-me de joelhos sobre as poças que a defesa de Bucci deixou a reflectir na água. 

Toda a gente sabe que era para o lado esquerdo, Vítor, mas a incredulidade de ver Faustino Asprilla no relvado e os pedidos sôfregos de Gabriel Alves - "falta acção disciplinar!" - para um amarelo que não chegou, confundiram Paneira na hora da decisão. Não foi astuto, o nosso 7, porque se tivesse visto a massa disforme de cabeças que compunham o primeiro anel tinha sentido a direcção do sucesso - o público todo a contorcer os pescoços e os olhos, fazendo sinais de golo: "é para ali, caralho", como se as redes e os fumos e os fios de aço fossem transparentes -, tinha visto o golo antes dele acontecer.

Mas o tempo escoou para outro lado qualquer e, quando demos conta, em vez de um 3-1 que pecava por nulo - não escasso, mas nulo -, que devia ter sido um 6-1 ou 7-1 sem espinhas, acabou nas mãos de Bucci e depois no desespero de João Pinto num 2-1 sem verdade, desonesto porque cruel. O Benfica acabava um jogo de tareia monumental contra uma equipa fabulosa agarrado a um golinho de vantagem e a olhar para o golo sofrido com ansiedades e desperdícios. 

Mas recuemos: Veloso dá de primeira em Rui Costa que recebe junto à linha, sem pressas. Ouve-se um som de fundo de milhares de gargantas aos soluços: "vai, vai, vai" que no plano geral dá "aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah", que era o som de quase todos os 90 minutos que viam o Benfica jogar. O Maestro espera que o adversário o ultrapasse e depois, sim, avança pelo meio, sempre com aquele ar de quem já está a festejar o golo e viu tudo o que vai acontecer enquanto os italianos procuram disfarçar a tristeza do que não sabem que já foi. De repente, faz um passe para Yuran e continua a correr - aquele 2-1 mágico que, por mais tácticas e prelecções que existam em laboratórios do futebol mais evoluído, destrói qualquer marcação - para receber mais à frente, já em território inimigo, e levantar a bola com a pontinha do dedão enquanto um jogador do Parma se deita no relvado da Luz e vê as costas do Maestro correrem na direcção da baliza e fintarem de anca mais outro que apareceu por ali e depois, logo de seguida, meterem na frente de Isaías o charme do golo. Isaías correu que nem um cavalo alado, ou então voou com um trote terrestre, e quando chegou à frente dos Diabos amansou a bola com um só toque e fez um golo junto ao poste que ainda é melhor porque deixa o salto de 120.000 adeptos em suspenso e passível de ser fotografado com alma e vinho e dúvida e tudo no meio. 

Houve depois uma coisa coisa estranha na área do Benfica que ainda ninguém sabe bem como foi e que acabou nas redes do Neno e o árbitro validou mas não deve ter sido muito bem um golo porque disto eu não sinto a escorrer-me dos braços para o chão. Houve Helder, acho que sim, aos pontapezinhos sobre a bola e depois algo estranho e de que me não recordo bem que originou passe, depois remate e depois um golo, uma espécie de golo, e que sentimos no coração não bem como gelo mas como quando morre gente, que é o sentir do adepto do Benfica quando vê golos adversários no estádio - uma morte silenciosa, cortando veias ou sorvendo veneno. 

No resumo, vê-se Nevio Scala descrente naquilo, tal era o banho de bola a que assistia e ainda por cima gratuitamente - os treinadores, mesmo os maus ou bons ou medíocres, por menos ou mais que façam das suas equipas, têm esse privilégio dos deuses de partilharem relvado com a loucura e com o génio. Nevio Scala estava assim, após o golo do Parma: dava-se por feliz ao mesmo tempo que sentia no coração aquela pontada da injustiça - quase vergonha - de andar a levar a sua equipa a solo sagrado. O público, mesmo gelado ou de luto, respirava de tal forma que punha cubos de gelo ou então mantos de veludo sobre as cabeças de quem nos visitava. Não queria ser Nevio Scala ou aqueles olhos tontos dele em suplício. "E agora que marcámos, o que é que vem aí?"

O que veio foi um fartote de Benfica, que parece que decidiu fazer uma recolha de todos os melhores momentos das centenas de equipas benfiquistas anteriores ao mesmo tempo que se despedia de nós: aquele grupo de gente de 94, vendo agora com distância e saudade, dava todo o ar de sentir de tal forma o clube que já conhecia a nossa tragédia que havia de chegar. Jogavam para escrever Benfica. Tinham pena de nós e por isso decidiram dar-nos tantos momentos e jogos e golos e jogadas e emoções, para que não nos esquecêssemos de que um dia houve este clube que nos fascinou e eternizou crianças até sermos velhos. Compraram-nos futuro naquelas épocas, decidiram deixar memórias tão fortes que nos permitissem aguentar os 20 anos que estavam por vir. 

E nós comprámos, sem medos nem hesitações, tudo o que eles davam e tudo o que eles deixavam dentro de nós - foi assim, até hoje, que viemos respirando e bebendo e comendo, sempre na esperança de ver o Benfica outra vez, com estes bancos de oásis deixados na pele.

Yuran recebe na esquerda, à entrada do meio-campo adversário, com um toque faz cueca sobre o marcador e segue em frente, feliz. Mete no meio em Isaías e - oh, o 2-1! - corre para ir ao encontro da bola, o touro sertanejo não duvida, faz compasso de espera e mete no ucraniano que vai, gazela, perto da área do Parma, de primeira levanta a bola para um Isaías que veio de trás e aparece em vólei falhado e circense, a bola tabela no relvado e vai a caminho de Paneira que, por ter dois cérebros no pé direito, em vez de chutar ou inventar mosntruosos caminhos, a deixa bater primeiro e depois, com a cara da chuteira, abre na direita onde João Pinto a recolhe - sem saber se dá meia-volta e remata ou se dá lugar ao improviso - e deixa para Rui Costa que estava desde o início da jogada a acompanhar o lance com os olhos e com o génio. Depois foi só rematar, simples e para dentro da baliza. Correu desalmado para a bandeirola de canto porque os putos não sabem o que hão-de fazer com o golo, é uma coisa pesada e sem maneiras o golo, não tem coreografia de sentidos, tanto pode dar pirueta como morte instantânea. Deu mãos na cabeça, um abraço do João Pinto e um tapinha do Silvino que por estas alturas já preparava o seu ofício de oficial tapinhador de jogadores. 

Foi um golo que conteve dentro de si todos os golos do Benfica desde o Bermudes e Cosme até àquele segundo. E ainda hoje é esse golo que nos leva ao estádio de bandeiras e cachecóis no corpo. Vamos em busca desse Benfica até ao final dos nossos dias. E esse, por mais que tentem, nunca no-lo vão roubar.




4 comentários:

Anónimo disse...

Ricardo,

Cada texto teu é uma viagem incrível ao benfiquismo e àquele clube que nos apaixonou até à nossa última morada. Devias pensar em lançar um livro (ou espécie de). Parabéns.

LDP disse...

Há golos e golos. Também João Pinto (desculpem lá, nunca gostei daquela coisa do JVP) festejou assim quando marcou um golo em Alvalade na noite do seu hattrick. Que não foi um mero golo. Foi "o" golo. Qualquer coisa que esteve ali entre a explosão de uma supernova e o nascimento de um filho, digo eu que não sou pai mas lembro-me que vi esse jogo de joelhos na sala em frente á televisão. Foram 90 minutos a cicatrizar nos joelhos as linhas de junção dos tacos de madeira (a minha mãe gostava tanto daquele chão) e a tentar respirar por entre as nuvens de fumo expiradas pelo meu pai dois metros atrás de mim sentado no sofá cinzento, "abaixa a cabeça ou não vejo a porra dos golos!" - dizia ele com o resultado ainda em 0-0. O meu pai sabia que iam haver golos. Divaguei...
Falava eu das mãos na cabeça do João Pinto depois de este mostrar aos programadores da playstation 10 anos antes, que a lei da física nunca poderá ser replicada num videojogo. E um gajo pensa: "oh que raios, foi ele que marcou. Aquelas mão na cabeça...Estará a dizer-nos sem saber que nem sabe como o fez?" Sabe. Soube. Sabia sempre. João Pinto, tal como Rui Costa e Figo foram (são!) os únicos jogadores daquela geração que sabiam sempre o que fazer e como fazer ainda antes de a bola lhes chegar aos pés...Divaguei novamente.

O Paneira? Pois. Ele só quis que o Scala suasse mais um pouco naqueles intermináveis milésimos de segundo.

E ele também sabia.

luis disse...

"O tempo"...
O céu não tinha estrelas, o sol da letra do Piçarra não estava lá aquela hora ... mas aquelas papoilas transformadas em estrelas brilhavam a alma de Ser Benfica.
Existem pessoas que julgam que Deus está sempre a ver os movimentos, algures por entre as nuvens...
Será que Jesus viu isto???
O imbecil do luis viu onde os anéis começavam, apanhava mais o cheiro das 4 linhas, ainda se podia escolher, eu sei... A liberdade desta emoção transborda milhares de imagens que guardamos no coração.
Peço desculpa tenho que gritar,

«BENFICA BENFICA BENFICA BENFICA...»

-Este conjunto de atletas estão incluídos na escolha dos tais 30 anos??

-Benfiquistas, comparar 1 jogo, 5 jornadas ou 1 temporada, não é a mesma coisa que comparar o Benfica deste Tempo.
-Nem dá Tempo para respirar, isto era o Benfica a lutar pelo seu passado, escrevendo presente na Gloria do Tempo
Neste tempo é que o Artur afirmava com orgulho
" O Benfica nunca perde "
... defendia os seus, a qualidade,o equilíbrio, a Mística.
- Tínhamos estrangeiros , eu sei. Mas eram menos para além de terem qualidade.
-Quanto valeria este Plantel ainda sem agentes de comercio externo(começaram aqui por este tempo).

- Jogava-se de Vermelho ou Branco,coisas simples...assim simples, como o numero mais elevado de Benfiquistas que subiam ao relvado,(quer sejam jogadores ou técnicos).
Sublinho como o seara,o numero mais elevado de Benfiquistas que subiam ao relvado. Enfim não se corria o risco de se tropeçar num intruso...alto, aqui e ali aparecia já o guarda abel, os bobis e tarecos, éramos roubados de várias formas arbitrais numa era do "cavaquistão", prescrevia ainda mais que hoje.
Para os mais novos terem uma noção os tripeiros tiveram o chamado "grupo da sueca"(4 ministros do cavaco,sem vergonha )...muito factor causou os 20 anos que se seguiram...lembro SÓ os mais importantes,

-Os tais "anéis" (vejam a imagem de fundo do ontem, que bela e limpa paisagem)

-A inveja que não conseguem apagar.

No relvado não tinha slogan, ou tinha um, BENFICA...E pluribus unum !!!

Vivas ao Benfica Todos os Tempos.

Conde de Vimioso disse...

LDP

Sabes quem inventou o JVP ((foi para abreviar)) e o Diamante ????